Confusão nos hospitais e centros de saúde

Muitas consultas, tratamentos, exames e cirurgias foram adiadas, mas a adesão terá variado muito de instituição para instituição.

Foto
Ministério da Saúde e Federação Nacional dos Médicos só fazem balanços nos próximos dias Paulo Pimenta

O impacto da greve fez-se sentir com maior ou menor acuidade nos serviços de saúde, mas a nível nacional oscilava, no turno da manhã, entre os 70% e os 80%, segundo um balanço preliminar feito pelo Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP).

“Há uma grande participação de todo o leque de trabalhadores, desde administrativos, auxiliares e enfermeiros”, destacou Luís Pesca, coordenador da Federação Nacional dos Sindicatos da Função Pública, que estimava também uma adesão à greve entre os 70% e 80%. “Mas nalgumas instituições chega a 100%”, frisou.

Obrigados a assegurar serviços mínimos (urgências, hemodiálise, tratamentos oncológicos), os hospitais mantiveram portas abertas, mas algumas consultas externas, tratamentos e cirurgias tiveram de ser adiados, sublinha Luís Pesca, que classificava já esta greve como “uma das maiores da administração pública” (na greve geral de 27 de Junho passado, a adesão oscilou entre os 60% e os 70%).

O balanço mais detalhado feito pelo SEP permitia perceber que o impacto da greve variava substancialmente de instituição para instituição. De manhã, havia serviços onde a adesão era de 100%, sem enfermeiros a trabalhar, caso do Instituto Português do Sangue e do Instituto de Droga e Toxicodependência/Centro de Alcoologia de Coimbra, segundo adiantou Guadalupe Simões, do SEP.

Já na Maternidade Bissaya Barreto (Coimbra) a adesão era de 52,7% e no Centro Hospital Universitário de Coimbra de 62,7%. Mas havia hospitais com uma adesão muito elevada, como o do Barreiro (89,8%). No turno da noite já tinha acontecido o mesmo. Mais de dois terços (72,6%) dos enfermeiros destacados tinham aderido à greve, segundo o SEP.

A Federação Nacional dos Médicos (Fnam), que também aderiu à greve, não quis apresentar balanços esta sexta-feira, tal como o Ministério da Saúde, que reservou a divulgação de dados da adesão após o processamento de salários, dentro de alguns dias.

O que o gabinete do ministro Paulo Macedo fez foi recordar os dados da adesão à última greve, de 27 de Junho, que implicou que 92,6% das cirurgias e 33,6% das consultas não fossem realizadas. 

“Hoje é impossível fazer a separação por categorias profissionais”, explicou Merlinde Madureira, da Fnam, para justificar o facto de a federação dos sindicatos que representam cerca de um terço dos médicos no activo não fazer balanços.

Impactos em Coimbra
No Centro de Saúde Norton de Matos, um dos maiores de Coimbra, os próprios utentes pareciam ter feito greve. À porta, uma auxiliar explicava na manhã desta sexta-feira àqueles que iam aparecendo que alguns médicos estavam, mas que na falta de funcionários administrativos não podiam dar consultas.

Rosário Silva, que trocou folgas para trazer o filho à consulta, não dá o dia como perdido. Trabalha em dois sítios e vai aproveitar a greve dos outros para estar com Eduardo, de seis anos. “Nunca tenho tempo para ele, por isso vamos fazer deste um dia especial, vamos almoçar fora”, diz. O garoto sorri e responde: “Sim, mas podíamos ter ficado mais um pouco na caminha…”

No átrio que dá acesso aos pisos das consultas externas do Hospital da Universidade de Coimbra, a greve é tema de muitas conversas. Um bombeiro comenta que o movimento é menor e pergunta se terão feito como em Castelo Branco, onde avisaram doentes de véspera a cancelar tratamentos.

Gracília Pais, de 47 anos, diz que não. Já pediu o livro de reclamações, para perguntar quem lhe paga o dia de trabalho e os cem euros de transporte em ambulância que gastou para levar o pai de Sever do Vouga a Coimbra. Não conseguiu fazer análises e também não terá consulta. Está à porta da farmácia hospitalar, de senha na mão, zangada: “Não há direito! Ao menos que avisassem!”

Ao lado, Maria Rodrigues, que fez 75 quilómetros e há-de fazer outros tantos para casa, em Tábua, também não conseguiu fazer as análises marcadas para esta sexta-feira, 15 dias antes da consulta, que agora não sabe se será adiada. Continua em jejum. Deixou o lanche no carro da nora, pelo que prefere esperar a gastar dinheiro no bar. Muitos doentes terão faltado. Os parques de estacionamento costumam estar cheios e nesta sexta-feira há muitos lugares vagos.