Associação de Professores de Matemática diz que “novo programa terá de cair quando o Governo cair”

Dirigente da APM prevê "aumento brutal" do insucesso e acusa Ministério da Educação de querer afastar alunos para percursos alternativos.

Para a APM, que não foi consultada pelo ministério, o novo programa não serve os alunos
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Para a APM, que não foi consultada pelo ministério, o novo programa não serve os alunos Enric Vives-Rubio

A dirigente da Associação de Professores de Matemática (APM) Lurdes Figueiral afirmou nesta terça-feira que o novo programa da disciplina para o secundário, ontem colocado em consulta pública pelo Ministério da Educação e Ciência (MEC), “visa afastar alunos do ensino regular para percursos alternativos” e defendeu que ele “terá de cair quando o Governo cair”.

“O programa é de uma extensão brutal, são introduzidos temas e capítulos de uma complexidade matemática desajustada a este nível de ensino e as dificuldades da transição do ensino básico para o secundário são ignoradas — nada neste novo programa faz qualquer sentido”, criticou.

Juntamente com as metas curriculares de diversas disciplinas, que estavam previstas, o MEC fez publicar esta segunda-feira novos programas do secundário para Português, Matemática A, Física e Química A, no secundário, surpreendendo a comunidade educativa. “Os ecos em relação à Matemática A estão a cair em catadupa nas redes sociais e as reacções são de horror”, comentou, em declarações ao PÚBLICO, Lurdes Figueiral.

Na sua perspectiva, as opções “são de tal forma absurdas” que, "apesar de não ser desejável a constante mudança de programas", ressalvou, “desta vez não há outra solução”: “Se chegar a ser implementado — e acreditamos que sim, porque é impossível dialogar com este ministério —, o programa terá de cair quando o Governo cair”, disse Lurdes Figueiral, em declarações ao PÚBLICO.

“Excesso de formalismo”
A dirigente da APM frisa que a proposta de programa — que está em consulta pública até dia 2 de Dezembro — “ignora os resultados de todos os estudos internacionais e não tem nada a ver com qualquer programa internacional dos países de referência”. “Com nenhum e, nomeadamente, com o de Singapura, que o ministro da Educação tanto gosta de citar”, frisou.

“Em Singapura, além dos objectivos técnicos da matemática, existem também outros objectivos, como o desenvolvimento de atitudes positivas em relação à disciplina e de capacidades para encontrar formas criativas e intuitivas de formular e resolver problemas. Ora, tudo isso está ausente e o que vemos neste programa é um excesso de formalismo que deu maus resultados nos anos 1960 e que é considerado negativo e desadequado pelos mais eminentes e brilhantes matemáticos”, analisou Lurdes Figueiral.

Na sua perspectiva, não está “em causa o aumento da exigência”. “Não se trata de ser mais difícil ou menos difícil, mas de ser absurdo. Em lugar nenhum do mundo se aborda, sequer, a lógica e a teoria de conjuntos e formalismos associados, nomeadamente relações de equivalência”, exemplificou. Considerou que “o excesso de formalismo, a extensão do programa e o desinteresse dos alunos” resultarão “num aumento brutal de insucesso”, numa primeira fase, e, depois, “no abandono, pelos alunos, dos cursos que têm Matemática A, e na procura de cursos alternativos”. "Só pode ser aí que o MEC pretende chegar", disse.

O PÚBLICO não conseguiu ouvir Miguel Abreu, presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM), que, segundo disse a responsável pelo gabinete de imprensa daquela organização científica, ao fim da manhã desta terça-feira, “não se vai pronunciar sobre o novo programa, por não o ter analisado”.

Em declarações anteriores à agência Lusa, no entanto, Miguel Abreu disse que, ao contrário do que se passava com os dirigentes da APM, “já sabia que estavam a ser preparados novos programas de Matemática”. Confirmou que não tivera tempo “para olhar com detalhe”, mas adiantou que o documento colocado em consulta pública lhe parece “muito positivo”.

Memorial do Convento desaparece a Português
Também a presidente da Associação de Professores de Português (APP), Edviges Ferreira, reagiu, após uma primeira leitura do programa da sua disciplina, com termos semelhantes aos utilizados pela dirigente da APM.

“Trata-se de uma alteração de fundo e grave, em termos de consequências. O programa é extensíssimo, completamente desadequado, dirigista e, principalmente, vai afastar os alunos das áreas científicas, o que é lamentável”, criticou. Não tem, também, perspectivas em relação à influência das sugestões da associação que, “como sempre, vão com certeza cair em saco roto”, disse.

Para além de registar “alterações incompreensíveis”, como o desaparecimento do Memorial do Convento, de José Saramago, (substituído por A Jangada de Pedra ou O ano da Morte de Ricardo Reis, do mesmo autor), Edviges Ferreira sublinha a entrada no programa “de um sem número de autores e de obras literárias” que transformam o Português numa “disciplina de literatura portuguesa”.

“Com agravantes”, disse, explicando que “o dirigismo é tão forte e as metas tão específicas que o professor do secundário vai ser um mero executor” e “a extensão do programa é tal que vai impedir que os alunos desenvolvam competências no que respeita à escrita e à oralidade”.

"Vamos fazer a nossa parte, mas infelizmente não tenho expectativas de que a proposta venha a ser alterada — o MEC manda e nós acabaremos por obedecer, até que o futuro nos venha a dar razão", lamentou.