Merkel esteve sob escuta da NSA desde 2002, segundo a revista Der Spiegel

O número de telemóvel da chanceler alemã constava de uma lista de registo de escutas desde 2002 e ainda lá estava semanas antes de Obama visitar Berlim em Junho deste ano.

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Telefone de Merkel esteve durante pelo menos dez anos numa lista de registo de escutas Maurizio Gambari/Reuters

O caso das escutas realizadas de forma ilegal pela Agência Nacional de Segurança (NSA) dos Estados Unidos a cidadãos e líderes europeus voltou a ter novos desenvolvimentos este fim-de-semana com uma notícia publicada na revista alemã Der Spiegel. A ser verdade o que escreve este título de referência na Alemanha, o telemóvel da chanceler alemã, Angela Merkel, esteve sob escuta nos últimos dez anos.

A Casa Branca escusou-se a comentar a notícia. A revelação antecede a visita, prevista para esta semana, de uma delegação que inclui altos responsáveis dos serviços secretos da Alemanha a Washington, definida na passada quinta-feira depois do encontro em Berlim entre o ministro dos Negócios Estrangeiros alemão e o embaixador dos Estados Unidos.

A notícia ocupa os sites dos principais jornais europeus este domingo. O Guardian escreve que o número de telemóvel de Angela Merkel constava da lista do Serviço de Especial de Registos (SCS, Special Collection Service) da NSA desde 2002 e até há bem pouco tempo, semanas antes da visita do Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, a Berlim em Junho, com a anotação “GE Chanceler Merkel”.

A partir do documento secreto que a Der Spiegel revela não é possivel saber se as conversas telefónicas de Merkel foram gravadas ou se apenas os seus contactos vigiados.

Num documento do SCS, também citado pelo Le Monde em França, a NSA diz que dispõe uma “antena de espionagem sem registo legal” na embaixada dos Estados Unidos em Berlim. E alerta para o risco de divulgação da sua existência vir a “prejudicar gravemente as relações dos Estados Unidos com outros governos”.

O Guardian também cita o documento secreto da NSA, datado de 2010, que alerta para a existência do mesmo tipo de células, a partir das quais a NSA e a CIA faziam escutas telefónicas com equipamentos de alta tecnologia, em cerca de 80 outros lugares no mundo. Entre eles estão Paris, Madrid, Roma, Praga, Genebra e Frankfurt.  

Foi também a Der Spiegel que, na semana passada, revelou informação de que o telemóvel de Merkel tinha estado sob escuta da NSA. Depois de examinados pelo Serviço de Informação Federal e pelo Secretariado Federal de Segurança para asTecnologias de Informação, os dados foram considerados suficientemente preocupantes pela chancelaria alemã para que Merkel telefonasse a Obama. “A confirmarem-se, estas práticas são completamente inaceitáveis”, reagiu na altura o porta-voz da chanceler, Steffen Seibert. Este domingo, o mesmo porta-voz ainda não respondeu às novas revelações da revista.

As sucessivas revelações da revista alemã e do Guardian, nas últimas semanas, estão a criar desconfiança nas relações trasantlânticas, apesar dos desmentidos de Obama. Há poucos dias, um memorando fornecido por Edward Snowden revelava no jornal britânico que responsáveis norte-americanos tinham passado números de telefone das suas agendas pessoais à NSA.

O assunto dominou a cimeira de líderes europeus na quinta e sexta-feira em Bruxelas, onde ficou definido que a França e a Alemanha vão liderar as negociações antiespionagem com os Estados Unidos.