Marte teve supervulcões no início da sua formação

Gigantescas erupções moldaram o planeta vermelho há 4000 milhões de anos.

O vulcão Eden Patera: no centro (a cinzento) está a zona mais profunda da caldeira vulcânica
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O vulcão Eden Patera: no centro (a cinzento) está a zona mais profunda da caldeira vulcânica NASA/JPL/GSFC/Universidade Estadual do Arizona

Algumas das enormes crateras existentes numa região planáltica de Marte poderão ser, afinal, o resultado da erupção de supervulcões, conclui um estudo publicado esta quinta-feira na revista Nature.

Enquanto analisava a depressão de Eden Patera localizada no planalto Arabia Terra, no hemisfério Norte do planeta, Joseph R. Michalski, investigador no Museu de História Natural de Londres e no Instituto de Ciências Planetárias de Tucson, nos Estados Unidos, verificou que lhe faltavam características típicas de uma cratera de impacto de um meteorito, como o formato aproximadamente circular, a borda elevada e as elevações centrais. Mas apresentava características de uma caldeira vulcânica, como uma grande profundidade (1,8 quilómetros no máximo) quando comparada com o diâmetro (85 quilómetros no máximo).

Confrontado com estas questões, o investigador consultou o vulcanólogo Jacob E. Bleacher, do Centro de Voos Espaciais Goddard da NASA, que detectou sinais da escorrência de lava, fendas formadas pelo movimento do magma abaixo da superfície e vários colapsos que levaram à formação da caldeira vulcânica.

Afinal, Eden Patera é um gigantesco vulcão antigo. Esta descoberta alertou os cientistas para a possibilidade de outras depressões, classificadas como crateras de impacto, serem efectivamente caldeiras de supervulcões que terão estado activos há mais de 4000 milhões de anos na superfície marciana. Identificaram então como vulcões estruturas como a Oxus Patera e a Siloe Patera.

Os supervulcões são grandiosos não pelo seu tamanho (não formam cones muito grandes), mas pela potência das suas explosões e pela quantidade de materiais expelidos (lava, cinzas e fragmentos rochosos). Na Terra, os supervulcões, como o de Yellowstone (Estados Unidos), que entrou em erupção há 640 mil de anos, podem expelir mais de um milhão de milhões de metros cúbicos de materiais (ou 1000 quilómetros cúbicos), o que é dez mil vezes mais do que os materiais expelidos pela erupção do vulcão Eyjafjallajökull, na Islândia, em 2010. E que condicionou o trafego aéreo.

Em Marte, como na Terra, as erupções destes supervulcões terão afectado o clima, a composição da atmosfera e a evolução do próprio planeta. Os investigadores acreditam que os materiais expelidos poderão ter arrefecido o planeta por bloquearem a chegada ao solo da radiação solar. Mas, por outro lado, a emissão de gases com efeito estufa pelo vulcão teria contribuído para o aquecimento de Marte.

Monte Olimpo é o maior
A influência destes vulcões na temperatura e na presença de gases, como o dióxido de carbono e vapor de água na atmosfera, poderão ter criado as condições ideais para a existência de água no estado líquido (rios e lagos), dando oportunidade ao aparecimento de vida no planeta.

É muito difícil identificar a existência de supervulcões, por terem ocorrido há muito tempo, estando sujeitos às alterações na superfície, e porque houve erupções violentas que destruíram o cone vulcânico (caso tenha existido um). Os vulcões efusivos (não explosivos), que vão formando os seus cones bastante largos pela escorrência das lavas, já são mais fáceis de identificar.

O Monte Olimpo, também em Marte, mas junto ao equador, é um desses vulcões efusivos. Apesar de actualmente estar extinto, é bem visível, ou não fosse o maior vulcão do sistema solar, com 25 quilómetros de altura (três vezes maior que o Monte Evereste, na Terra) e com 624 quilómetros de largura.