Ups, afinal o metano em Marte é quase inexistente

Curiosity encontrou traços reduzidos de metano na atmosfera do planeta vermelho, ao contrário de medições feitas no passado. Descoberta dificulta a hipótese de vida microbiana.

Um solo com a mesma composição do de Marte (em cima) serviu a uma aluna norte-americana para inventar uma experiência com rabanetes. Em baixo, as portuguesas Alexandra Botelho Rocha, Joana Frazão e Carolina Rocha
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O Curiosity analisou a atmosfera marciana em 2012 e 2013 NASA

Até agora, todos os dados indicam que Marte é um planeta desprovido de vida. Mas a existência de organismos microbianos escondidos no solo do planeta vermelho ainda é uma hipótese suficientemente apelativa, e pouco estudada, para estar em cima da mesa. As medições feitas no passado de plumas de metano na atmosfera marciana permitiram imaginar que este gás era libertado por micróbios metanogénicos. Estes organismos encontram-se em certos ambientes da Terra, e o seu metabolismo produz metano, tal como os humanos expiram dióxido de carbono. Mas os resultados das experiências feitas pelo Curiosity parecem atirar a hipótese cano abaixo.

O robô da NASA, que caminha por solos marcianos há mais de um ano terrestre, fez várias medições da quantidade de metano que existe na atmosfera, a um metro acima do solo, em 2012 e 2013. Para isso, utilizou um espectrómetro de laser que analisa os gases existentes em amostras de ar. Os resultados são desanimadores. “O limite superior de 1,3 partes [de metano] por mil milhões de partes é significativamente menor do que as quantidades de metano medidas por sondas ou a partir de telescópios terrestres”, escreve a equipa de Christopher Webster, do Laboratório de Propulsão a Jacto, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, EUA, no artigo publicado esta quinta-feira na edição online da revista Science.

Estas análises passadas mediram diferentes quantidades de metano ao longo dos anos e consoante o local do planeta analisado. Mas o gás tem um tempo de vida de centenas de anos antes de ser degradado pelo Sol, e os cientistas esperavam que a diluição deste gás na atmosfera gerasse uma quantidade de metano cerca de seis vezes maior do que a que foi encontrada agora.

Para os investigadores, “estes resultados reduzem em muito a probabilidade de actividade microbiana metanogénica em Marte” ou a produção deste gás devido a fenómenos geológicos. Mantém-se a incógnita sobre o que era o metano identificado nas experiências passadas.