Governo de Assad descreve acordo como "uma vitória para a Síria"

Ministro para a Reconciliação diz que plano vai "ajudar os sírios a sair da crise"; oposição considera que o acordo é apenas uma manobra para dar tempo ao regime.

O regime sírio agradece aos "amigos russos"
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O regime sírio agradece aos "amigos russos" Bogdan Cristel/Reuters

O regime de Bashar al-Assad reagiu neste domingo pela primeira vez ao acordo alcançado no sábado pelos EUA e pela Rússia, classificando o plano como "uma vitória para a Síria".

Numa entrevista à agência russa RIA Novosti, o ministro para a Reconciliação, Ali Haidar, disse que o acordo com vista à destruição do armamento químico do país vai "ajudar os sírios a sair da crise" e permite "evitar a guerra contra a Síria, ao privar de argumentos aqueles que a queriam lançar".

"É uma vitória para a Síria conquistada graças aos nossos amigos russos", declarou o ministro Ali Haidar.

Uma ideia que os repórteres das agências noticiosas têm confirmado no terreno, junto de apoiantes do regime de Bashar al-Assad. "É uma proposta inteligente da Rússia para evitar os ataques [norte-americanos]", ouviu a Reuters no porto de Tatus, na Síria, onde está instalada uma base naval russa. Citado sob anonimato, um apoiante de Assad disse que a Rússia vai fornecer à Síria "novas armas, melhores do que as armas químicas".

Para a oposição a Bashar al-Assad, o acordo EUA/Rússia não traz nada que possa contribuir para o fim da guerra civil na Síria, que fez mais de 100.000 mortos em dois anos e meio. "Ajudar os sírios significa parar a matança", disse um activista da oposição à Reuters.

Pouco depois do anúncio do acordo com vista à destruição das armas químicas do regime sírio, o líder militar da Coligação Nacional Síria, o general Salim Idriss, classificou o documento como uma tentativa de dar mais tempo a Bashar al-Assad.

"Não reconhecemos a iniciativa russa e pensamos que os russos e o regime sírio estão a querer ganhar tempo para o regime criminoso em Damasco", disse Salim Idriss, numa conferência de imprensa em Istambul, na Turquia.

O general acusa os países que têm apoiado os rebeldes, como os Estados Unidos, de "saberem exactamente qual é o objectivo do Governo russo". "Eles estão a tentar encontrar uma solução para o regime assassino de Damasco."

Apesar do desagrado, o responsável disse que as suas forças vão colaborar para facilitar o trabalho dos inspectores da ONU.

Mas esta promessa foi contrariada pelas declarações de outro líder rebelde, Kassem Saadeddine, um comandante do Exército Livre da Síria em Alepo. "Que o plano Kerry-Lavrov vá para o inferno. Rejeitamo-lo e não vamos proteger nem deixar entrar os inspectores na Síria."

No texto do acordo alcançado no sábado, EUA e Rússia comprometem-se a trabalhar em conjunto para garantir a segurança dos inspectores, mas deixam claro que a principal responsabilidade neste capítulo cabe ao regime sírio.

Israel de pé atrás

O plano anunciado no sábado pelo secretário de Estado norte-americano, John Kerry, e pelo ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, implica a entrega de uma "lista pormenorizada" das armas químicas em poder do regime sírio no prazo de uma semana e a destruição de todo o arsenal até meados de 2014. Em consequência, o acordo evita um ataque imediato norte-americano, ainda que o Presidente Barack Obama tenha declarado que o país continua "preparado para agir".

Apesar de ter sido bem recebido por vários países europeus e pela China, o acordo não caiu bem em países como a Turquia e Israel.

Neste domingo, enquanto esperava a chegada do secretário de Estado norte-americano ao país, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, disse que o acordo "será julgado pelos seus resultados: a completa destruição de todas as armas químicas que o regime sírio usou contra o seu próprio povo".

Fazendo eco das reservas do Governo israelita, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Yuval Steinitz, deixou um alerta: "É provável que eles tentem esconder as armas químicas."

O plano EUA/Rússia na íntegra (em inglês)