ONU exige clarificação sem pedir inquérito ao uso de armas químicas em Damasco

Ministro francês diz que é preciso "responder com força", se o Conselho de Segurança não chega a acordo, sem avançar pormenores

Manifestação à porta da ONU, em Nova Iorque, durante a reunião do Conselho de Segurança
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Manifestação à porta da ONU, em Nova Iorque, durante a reunião do Conselho de Segurança Adrees Latif/Reuters

Depois de o Conselho de Segurança da ONU ter apenas pedido “uma clarificação” sobre o que aparenta ter sido um ataque com armas químicas perto de Damasco, na Síria, o ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Laurent Fabius, declarou esta quinta-feira de manhã que a comunidade internacional precisa de responder com força, se se provar que o Governo de Bashar al-Assad é o responsável pelo ataque com armas químicas contra civis.

França é um dos membros permanentes do Conselho de Segurança, com direito de veto – tal como a Rússia e a China, que se opuseram a uma declaração final que pedisse explicitamente uma investigação levada a cabo pelos inspectores de armas químicas da ONU que chegaram à Síria no fim-de-semana, como tinham pedido cerca de 35 países.

A Rússia e a China, diz a agência Reuters, impuseram na reunião uma linguagem mais neutra. Aqueles dois países têm sido os principais apoiantes do regime de Damasco. Moscovo sugeriu mesmo que os ataques de quarta-feira poderiam ter sido levados a cabo pela oposição de Assad.

Hoje, em Paris, Laurent Fabius, numa entrevista à televisão BMF, não entrou em pormenores, mas reiterou a posição francesa, que é reconhecidamente de maior apoio à oposição síria – mas com limites. “É preciso haver uma reacção com força da comunidade internacional na Síria, mas não estamos a falar de enviar tropas para o terreno”, afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros francês.“Se o Conselho de Segurança não consegue tomar uma decisão, é preciso agir outra forma”, declarou Fabius, sem adiantar mais nada.

Nesta quinta-feira, segundo as agências, os arredores de Damasco continuam a ser bombardeados pelas forças leais a Assad.

Segundo a oposição síria, os bombardeamentos de quarta-feira terão sido feitos com recurso a gás sarin e reclamaram 1360 vidas, incluindo muitas crianças. França e Reino Unido foram os primeiros países a exigir que os enviados da ONU, que entraram no país há três dias, possam visitar as 11 localidades da região de Ghutta, nos arredores de Damasco. "Imediatamente", defendeu a Liga Árabe. "A confirmarem-se estas informações, é um crime aterrador", declarou por seu lado a chanceler alemã, Angela Merkel.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, declarou-se "chocado" com o que o mundo viu através das fotografias divulgadas por agências e dos vídeos amadores publicados na Internet. "Há a necessidade de investigar isto o mais rapidamente possível; sejam quais forem as conclusões, isto representa uma grave escalada com pesadas consequências humanitárias", declarou o adjunto de Ban Ki-moon, Jan Eliasson, aos jornalistas à porta da reunião do Conselho de Segurança, segundo as informações divulgadas pelo site da ONU. O mesmo responsável frisou que não existia até ao momento nenhuma confirmação do uso de armas químicas. Mas destacou que face ao que foi conhecido é preciso apurar a veracidade das alegações feitas pela oposição síria.

"Tem de se clarificar o que se passou e a situação tem de ser acompanhada de perto", decalrou por seu lado a embaixadora argentina, Maria Cristian Perceval, actual presidente do Conselho de Segurança. A mesma responsável sublinhou ainda que o conselho apoia a "firme intenção de Ban Ki-moon de pedir uma investigação completa e independente".

Damasco classificou os alegados ataques como "ilógicos e fabricados", tendo em conta que Assad permitiu, ao fim de quatro meses de negociações, a entrada de inspectores da ONU para investigarem a possível utilização de armas químicas em situações anteriores.

Há precisamente um ano, o presidente dos EUA, Barack Obama, havia declarado que um eventual uso de armas químicas por parte de Assad seria a "fronteira" de uma mudança de posição norte-americana em relação ao conflito em torno do poder na Síria.