Senador italiano que comparou ministra negra a orangotango não se demite

Roberto Calderoli, dirigente da Liga Norte (anti-imigração) e vice-presidente do Senado, disse que "fez uma coisa parva"

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Ministra Cecile Kyenge declarou-se triste pela imagem que as palavras de Calderoni "dão da Itália” Tony Gentile/Reuters

As manifestações de indignação e as críticas vieram de toda a parte, até de membros do seu partido, mas Roberto Calderoli, vice-Presidente do Senado, disse que não se demite. "Fiz uma coisa parva", disse, disponibilizando-se para enviar flores a Cecile Kyenge, a primeira negra ministra de Itália, que comparou a um orangotango.

Calderoli disse que a maioria dos partidos não exige a sua demissão, por isso não o fará. 

Cecile Kyenge, italiana nascida na República Democrática do Congo, já foi alvo de provocações mais ou menos explícitas, desde que foi nomeada ministra da Integração, em Abril. Mas as palavras de Calderoli, conhecido por declarações e gestos provocadores e racistas, ultrapassaram, desta vez, o imaginável.

“Gosto de animais – ursos e lobos, como todos sabem – mas quando vejo imagens de Kyenge não consigo pensar noutra coisa, ainda que não esteja a dizer que ela é, nas semelhanças com um orangotango”, disse, no sábado, numa reunião partidária na cidade de Treviglio, no Norte, segundo a citação integral da frase feita pela Reuters. O êxito de Cecile Kyenge, acrescentou, encoraja os “imigrantes ilegais” a irem para Itália e ela devia ser ministra “no seu país”.

As reacções não tardaram, na imprensa e nas redes sociais. Fontes da Presidência, citadas pelo diário La Repubblica, disseram que o chefe de Estado, Giorgio Napolitano, ficou “chocado e indignado”. Logo no domingo, o primeiro-ministro, Enrico Letta, divulgou um comunicado oficial em que disse que as palavras do senador são “inaceitáveis e ultrapassam todos os limites”. O chefe do Governo manifestou “total solidariedade e apoio a Cecile”.

O presidente do Senado, Pietro Grasso, exigiu desculpas. A líder da Câmara dos Deputados, Laura Boldrini, solidarizou-se com a ministra e condenou as “palavras vulgares e indignas de instituições”.

Cecile Kyenge reagiu com inteligência. “Não dou importância pessoal às palavras de Calderoli, mas elas entristecem-me pela imagem que dão da Itália”. “Creio que todas as forças políticas devem reflectir sobre o uso que fazem da comunicação”, afirmou, citada pela agência italiana Ansa.

Face às críticas generalizadas, Calderoli acabou por fazer uma declaração em que procurou justificar o insulto com a disputa política. “A minha intenção não era ofender e se a ministra Kyenge se ofendeu, peço desculpa, mas o meu comentário foi feito num mais vasto discurso político que criticou a ministra e as suas políticas”, disse. Só mais tarde telefonou a Cecile Kyenge. “Acabei de falar com a ministra Kyenge e apresentei as minhas desculpas”, afirmou ao fim da tarde de domingo à Ansa.

Desde que tomou posse, a ministra foi alvo de agressões verbais e de ameaças de morte feitas em sites racistas e mesmo na sua página oficial no Facebook. Cecile Kyenge defende que seja facilitada a naturalização de imigrantes e que qualquer pessoa nascida em Itália tenha automaticamente direito à cidadania italiana. Tem sido um alvo preferencial da Liga Norte, anti-imigração.

Calderoli é conhecido pelo estilo provocador e racista. Em 2006 teve de deixar o Governo de Silvio Berlusconi depois de ter exibido um t-shirt anti-Islão sobre o profeta Maomé. Nesse ano, depois de a Itália ter vencido a França na final do Mundial de futebol, afirmou que o adversário perdeu porque os seus jogadores eram “negros, muçulmanos e comunistas”.

A Liga Norte, tradicional aliada do Povo da Liberdade, de Berlusconi, está actualmente na oposição.