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DJ Marfox: do bairro para o Optimus Alive

A "máquina do kuduro" do DJ Marfox instala-se no Coreto do festival a 13 de Julho

Para DJ Marfox, Marlon Silva, 25 anos, o kuduro "é vida". É "alegria", é dança. E tem um poder social, como contou ao telefone ao P3. Marfox, um dos mais recentes nomes da Enchufada, onde editou o EP "Subliminar" em Fevereiro, começou a produzir com 13, 14 anos. "Fui obrigado", diz. Em 2006, deu que falar com o colectivo "DJs do Ghetto", kuduro puro e duro, faixas que a Príncipe Discos reeditou este ano em formato digital. Com o EP "Eu Sei Quem Sou", Marfox inaugurou a colecção da editora, que tem conseguido mudar a vida de muita gente — os que fazem música e os que a ouvem nas já míticas noites Príncipe no MusicBox, em Lisboa. Acompanhado por MC Osvaldo, Marfox passa pelo Coreto do Optimus Alive a 13 de Julho, pelas 2h30. Prometem-se "25 minutos de ginásio a sério", de "máquina do kuduro". 

Como começaste a fazer música?

O meu pai sempre pôs música em casa. Era imigrante, de São Tomé e Príncipe, mas ouvíamos todo o tipo de música. Ele era um fã de rádio. As músicas passavam e ele ia comprar os álbuns. Daí começou a paixão pela música. Depois, conheci um primo que veio morar para perto. Ele passava música. Sempre que havia baptizados, casamentos, ele era o DJ da festa e, como a melhor aparelhagem do bairro [na Portela] era a do meu pai, ele levava-a. Eu ficava sempre ao lado dele a tentar perceber como se fazia. Entretanto com 13, 14 anos fui obrigado a ser produtor. 



Foste obrigado?

Eu frequentava muitas discotecas de música africana e sentia-me um pouco solitário. Via que havia DJ de Angola que cá tinham renome. Pensava: "Será que quando tiver 18, 19 anos vou estar naquela cabine?" Eles faziam kuduro instrumental, faziam beats. Logo, havia uma vantagem enorme entre quem reproduzia e quem produzia. Comecei a fazer pesquisa, instalei o Fruity Loops, a minha primeira faixa demorou um dia. E não fiz nada. 24 horas sem dormir! Entretanto, fiquei muito amigo de um desses DJ que tocava em discotecas africanas [DJ Nervoso]. Os nossos bairros eram próximos. Eu tinha 14 ou 15 anos, era muito teimoso. Ia todos os dias a casa dele, ficava nas festas ao lado dele. Ele começou a deixar-me tocar. Eu abria a festa e assim fui-me tornando DJ. Como DJ, aproveitava as dicas dele e trabalhava em casa. Depois, comecei a criar a minha própria própria base também para não estar na sombra dele. Mais tarde, daí surgiu o colectivo DJs do Ghetto, com o DJ Nervoso, o N.k, que era mais produtor, os dois grandes da cena. O DJ Pausas e o DJ Fofuxo. Conseguimos todos. Éramos seis a fazer música. Isto foi em 2006. [A Príncipe reeditou em Fevereiro a primeira compilação]. Teve um boom muito grande no underground. 

Tens saudades dos tempos do DJs do Ghetto?

Há pessoas que me vêem na rua e dizem: "Tu agora é só música electrónica!". Não, eu simplesmente tirei a música que estava num espaço, nos bairros, onde se calhar não me pagavam para ver. Agora, tenho uma vivência em Lisboa, onde as pessoas pagam para ouvir a minha música. O pessoal ainda não percebeu o "power" que a música tem. Estava confinada a um espaço e agora está dilatada. É mentalidade pequena, mentalidade de bairro. Quando as coisas dão um passo em frente, as pessoas ficam com medo da mudança. As pessoas que já viajaram, já aceitam mais. A mensagem está a ser bem passada. Tipo: "O Marfox saiu do bairro para o Alive." Se calhar, este é o caminho que muitos DJ deveriam seguir.

Que papel é que a Príncipe teve nessa transformação?

A Príncipe está a fazer esse trabalho. Há miúdos com 20, 22, que querem ir trabalhar, já não estão na idade da ilusão, querem ter filhos e família. Fazem uma música do caraças e como vêem que ninguém vai pagar por aquilo começam a pôr a criatividade de lado e assim se perde um tipo incrível. A Príncipe tem acompanhado esses artistas, tem sido o segundo pai e a segunda mãe. O que eu quero fazer é o que a Príncipe fez comigo. Msotras as pessoas. Todos os dias recebo pedidos no Soundcloud de músicos que querem ir a uma noite Príncipe. Eles aboliram com mitos: que o pessoal do bairro é isto ou aquilo. 

Sentes-te um embaixador? 

Não digo 100% embaixador, mas sinto-me bem em mostrar pessoas. Não tive essa oportunidade. Para mim foi muito complicado fazer essa passagem, foi lenta. A Príncipe ainda estava a nascer. Não digo que me sinto como embaixador, mas sinto-me como o gajo que equilibra as coisas. Digo aos djs putos: vocês um dia vão viajar, vão caminhar sozinhos. E é isso que me torna feliz. Tirar pessoas do bairro que se calhar estavam condenadas. Não sei se me sinto como um salvador, mas quero mostrar a música deles ao mundo. Há uma coisa que é incrível. A Príncipe trabalha com todos os artistas de bairros da linha de Sintra à margem sul, dos mais problemáticos ao menos. Nós estamos a trabalhar com bairros que eram inimigos. A música está a ligar as pessoas, pessoal que mal se falavam.

Já te chamaram líder de uma nova geração no seguimento de um caminho aberto pelos Buraka Som Sistema. Identificas-te com isso?

Eu comecei a fazer música ao mesmo tempo que os Buraka: o DJs do Ghetto é de 2006. Eu lancei-me para o underground, eles lançaram-se para o mainstream. Eu, na altura, não tinha contactos. Se calhar, hoje não existiria a Noite Príncipe porque os Buraka educaram as pessoas. Já não vêem o kuduro como música de pretos, do gueto. O kuduro tem uma mãe desvairada e os Buraka disseram que eram o pai. Tenho de dar esse valor. Eu faço beats de kuduro, eu tenho o meu estilo, eles têm o estilo deles. Eu não sou um rei, sou um artista normal que faz kuduro há muito tempo. Marfox já existe há muitos anos, não é de agora. O kuduro que eu faço é mais europeu, não uso vozes. Uso mais congas, rombas. Tem mais a ver com dança. Marfox vem daí, de criar algo que ninguém criou, de maneira que se possa dançar livremente. O meu kuduro não respeita um padrão de dança. O que fiz foi criar um kuduro que se pudesse dançar como se quisesse.

Suponho que pior coisa que te pode acontecer é as pessoas estarem paradas num concerto...

Acho que isso... é impossível (risos). Já me aconteceu as pessoas estarem tímidas. Uma vez, no Lx Factory, comecei a tocar e as pessoas estavam paradas. Cinco minutos, ok. Dez minutos, ok. Quinze, vá. Vinte já não é aceitável. Eu não estava a perceber o que se estava a passar e o meu set era de duas horas. De repente, a pista soltou-se! E foi até ao fim da noite. Depois, quando vinha para casa, o meu primo disse-me que o pessoal levou com um choque. As pessoas estavam a assimilar, estavam a absorver.

Vais actuar com o MC Osvaldo no Optimus Alive. Como vai ser a actuação?

Espero que as pessoas gostem. O MC Osvaldo tem um grupo, os Pupilos do Kuduro. Estiveram no aniversário da Príncipe, já fomos para festivais para fora juntos. Ele vai fazer animação e dança. As pessoas vão abaixo com aquilo. Vão passar 25 minutos de ginásio a sério, ver a máquina do kuduro. O importante é mostrar o meu trabalho e fazer a família crescer. É a primeira vez que vou ao Alive. Eu sair de um bairro e ir para o Alive. Tem esse papel social. Dizem-me: "Fogo, vais ao Optimus Alive!" Eu respondo: "Amanhã é a primeira vez, mas o objectivo é amanhã tu ires comigo ou estares lá tu."