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O egoísmo da procriação

Hoje o ter filhos já não é uma inevitabilidade nem sequer uma obrigação, é uma escolha. E as razões que explicam essa escolha podem ser as mais diversas

A espécie humana evoluiu ao longo de milhões de anos sem que nunca a reprodução fosse uma variável sob o comando dos indivíduos: porque havia a compulsão sexual, a reprodução surgia como consequência inevitável do saciar da dita compulsão…

Durante todo esse tempo o ter filhos, e quantos, não era uma escolha, senão uma mera consequência do sexo, e durava enquanto a mulher estivesse no seu período fértil.

Hoje, tudo isto é diferente e a reprodução passou a estar sob a vontade dos indivíduos. E isto mudou o rumo da evolução: hoje todo o mundo está a convergir para uma taxa de fecundidade de cerca de dois filhos por mulher (veja-se a Ted Talk de Hans Rosling), o que conduzirá a uma estabilização da população mundial na casa dos dez mil milhões. E até temos países, como Portugal, onde os números são ainda mais baixos. Significa isto que as taxas de fecundidade do passado não correspondiam a nenhum desejo nem instinto maternal, antes a uma inevitabilidade: nenhuma mulher escolhe ter 14 filhos…

Também as condições socioeconómicas mudaram nos últimos séculos: hoje as mulheres trabalham, estudam e têm os filhos mais tarde e a taxa de mortalidade infantil caiu drasticamente. E os filhos deixaram de ser vistos como um investimento, quase como que um plano de poupança reforma e um contribuo para o rendimento doméstico, e passaram a ser um “bem de consumo”: os casais têm filhos para poderem partilhar um projecto único na vida – criar um ser humano.

Hoje o ter filhos já não é uma inevitabilidade nem sequer uma obrigação, é uma escolha. E as razões que explicam essa escolha podem ser as mais diversas: uns sonham em educar crianças; outros desejam perpetuar o nome da família ou a sua cultura; outros querem partilhar o que é seu; outros fazem-no por pressão social; outros por capricho; outros porque dá "status"; outros sem pensar (quase como no passado). Começa a haver também aqueles que decidem não ter: porque consideram que não têm reunidas as condições para tal empreitada ou porque, simplesmente, não desejam criar/educar ninguém… E é sobre estes que mais facilmente recai um preconceito que tem as suas raízes no passado, quando os casais tinham que procriar pois que, senão, estariam a pecar: egoístas são aqueles que não querem procriar! Nunca percebi esta acusação… Porque que é que é egoísmo não querer ter um criança quando não se deseja ter uma criança? Parece-me que, aqui, a sociedade está ao contrário: o que é um verdadeiro acto de egoísmo é procriar, fazer nascer mais um ser humano, trazer a este mundo uma criança, sem que estejam reunidas as condições que, à partida, vão garantir boas probabilidades de sucesso ao ser que, involuntariamente, é forçado a viver!

Infelizmente existem, mesmo nos países desenvolvidos, casais, ou indivíduos, que decidem procriar sem terem as condições adequadas para o fazer: económicas, profissionais, familiares, psicológicas, emocionais, etc. Não me interessa nada que um casal procrie se o resultado dessa procriação for o acrescentar de miséria, sofrimento e infelicidade ao mundo. Isso sim, um verdadeiro acto egoísta, criminoso até: nenhum indivíduo devia ter o direito de fazer nascer um infeliz…

O argumento contrário é sempre duplo: nunca se sabe quando estão reunidas as condições (ou se vamos esperar por elas, nunca se procria) e não se pode tocar no direito inalienável à procriação. Ambos, me parecem fracos: se não estão reunidas as condições, então, a atitude mais prudente e preservadora da felicidade é não se procriar; ao direito inalienável à procriação eu contraponho o direito inaliável à felicidade do recém-nascido! E como o recém-nascido não pediu para nascer, penso que o seu direito à felicidade é superior ao direito à procriação dos seus progenitores…

Dizerem-me que, apesar das dificuldades do passado, chegámos até aqui, de nada me interessa. Com o mal do passado posso eu bem… A vida de uma criança nos séculos passados não era “pêra doce”: começavam a trabalhar aos seis/sete anos, muitos morriam antes dessa idade, fome e carências materiais abundavam, eram entregues a orfanatos ou seminários e sofriam abusos de toda a ordem. Essa não é a vida que eu defendo que um recém-nascido numa sociedade moderna deva ter, estar sujeito a ter. Por isso penso que se deve ser cauteloso e pensar muito bem antes de procriar. Ter filhos pode ser uma das mais belas experiências de um ser-humano, mas pode ser também o mais perverso acto de egoísmo…

Portugal é hoje um dos países do mundo com mais baixa taxa de natalidade: e ainda bem que assim é se isso é um sinal de que os portugueses estão cada vez mais exigentes no seu acto de procriação. Isso significa que exigimos melhores condições económicas, sociais e laborais para que a população portuguesa pare de decrescer e possa, no futuro, ser mais feliz.