Spielberg e Lucas prevêem a implosão de Hollywood - e do paradigma que ajudaram a criar

Steven Spielberg revela que Lincoln esteve em risco de não chegar às salas e de estrear na HBO.

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Lucas e Spielberg em Cannes, em 2008, aquando da estreia de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal Valery Hache/AFP

Steven Spielberg e George Lucas não são estranhos ao acto de olhar para o futuro – nem à capacidade de mudar o mercado e a indústria do cinema. Será que quando ambos prevêem que os estúdios de Hollywood vão “implodir” e que o video on demand será o futuro, o sector os ouve? Afinal, são os pais do blockbuster moderno, dos filmes de Verão que arrastam multidões, de marcos temporais chamados Tubarão e Guerra das Estrelas que, na década de 1970, alteraram a forma como o sistema cinematográfico mundial funcionava. Mas em 2012, Steven Spielberg viu-se em apuros para conseguir pôr Lincoln nas salas e esteve quase a estrear o seu filme nomeado para 12 Óscares no canal de TV por subscrição HBO.

Neste futuro iminente, “haverá grandes filmes num grande ecrã, e isso custará muito dinheiro e tudo o resto estará num pequeno ecrã”, disse Lucas, na quarta-feira, em Los Angeles, numa conferência da Escola de Artes Cinematográficas da Universidade da Califórnia do Sul. “Já é quase assim. Lincoln (de Spielberg, nomeado para Óscar de Melhor Filme e Melhor Realizador) e Red Tails (2012, com Lucas como produtor executivo) mal chegaram às salas. Estamos a falar de Steven Spielberg e George Lucas não conseguirem ter os seus filmes nos cinemas.”

Spielberg não hesitou em falar em causa própria e exemplificou que no ano passado “foi por um triz” que Lincoln não se transformou num telefilme, estreado na HBO, e que só o facto de ele ser co-proprietário de um estúdio – a Dreamworks – é que fez o filme chegar às salas. “Acho que eventualmente os Lincolns vão desaparecer e vão estar na televisão.” No início do ano, Steven Soderbergh anunciou que iria abandonar o cinema porque Behind the Candelabra, o biopic sobre Liberace que esteve em Cannes há um mês, não conseguiu chegar às salas norte-americanas, tendo sido exibido exactamente na HBO.

O cinema, surpreendido pela televisão na década de 1950, atacado pelo vídeo nos anos 1980 e minado pela pirataria desde a década seguinte, vai continuar a mudar perante a alteração dos hábitos e a evolução tecnológica, rumo a preços de bilhetes mais altos e um crescimento galopante do vídeo on demand. A visão de Spielberg e Lucas centra-se num espectador individual com múltiplos ecrãs cada vez mais no centro da indústria, com os grandes estúdios e o seu poder financeiro cada vez mais encolhidos perante o recolhimento do cinema para situações caseiras. A sala de cinema como um nicho, no fundo, como descreve a Variety.

“Vai haver uma implosão em que três ou quatro, ou talvez mesmo meia dúzia destes filmes de mega-orçamentos se espalhem ao comprido e isso vai mudar o paradigma outra vez”, acredita Spielberg, falando da insistência dos grandes estúdios em apostar tudo num único título que custe centenas de milhões. De fora ficam filmes mais pessoais de jovens realizadores que, para Spielberg, são “demasiado à margem” para Hollywood – que, acredita o realizador de ET, não os sabe produzir. Lucas sente que o marketing para as massas é demasiado pesado e oneroso e que, no fim de contas, os públicos de nicho estão a ser ignorados, escreve a Hollywood Reporter.

Para Lucas, citado pela Variety, os estúdios estão fixados nos grandes filmes-acontecimento, que garantem resultados de bilheteira chorudos. Filmes que, com a ajuda do 3D, permitem corrigir a quebra na afluência às bilheteiras tanto pela atracção pela tecnologia como pelos bilhetes mais caros – no ano passado, o filme mais visto e mais lucrativo foi o blockbuster do importante segmento dos super-heróis Os Vingadores, que rendeu 1,1 mil milhões de euros mundialmente. Para Lucas, “isso não vai funcionar para sempre”, e o realizador de American Graffiti lamenta que essas escolhas estejam a limitar cada vez mais o tipo de filmes feitos em Hollywood. No futuro, “ninguém vai saber fazer mais nada”. “A seu tempo, vai haver uma grande catástrofe”, postula Spielberg.

O dia depois do evento transformador acordará com uma paisagem diferente: “Menos salas, salas maiores com muitas coisas boas. Ir ao cinema custará 50 dólares ou 100 ou 150, como o que custa hoje a Broadway ou um jogo de futebol”, descreve Lucas, que acredita que os filmes ficarão em exibição durante um ano, como acontece com as peças da Broadway. Spielberg exemplifica: “Vão ter de pagar 19 euros para ver o próximo Iron Man. Provavelmente só terão de pagar cinco para ver Lincoln.”

Quanto aos conteúdos que não cheguem às grandes salas, serão cada vez mais alimento do video on demand, da Internet e da própria televisão, cuja produção actual, especialmente nos canais por subscrição, considera ser bem mais inovadora. “Acredito que, no fim de contas, filmes como Lincoln vão deixar o grande ecrã para ser apenas difundidos na televisão.”

Os dois amigos, realizadores e produtores, falaram também sobre os videojogos – aos quais não são estranhos – e a sua capacidade de criar empatia com as massas, com Lucas a prever que nos próximos cinco anos a indústria dos jogos apostará em conteúdos destinados a raparigas e mulheres – algo que, na década de 1980, foi conseguido na era das salões de jogos e das máquinas de grandes dimensões, com PacMan, a alternativa a jogos com mais interesse por parte do público masculino focados em batalhas ou desportos, por exemplo. Isso “será o Titanic da indústria dos jogos”, diz Lucas. Spielberg aposta na imersão e na mudança dos comandos e da envolvência dos jogos para além dos ecrãs.