Professores alertam para "sério retrocesso" com novo programa de Matemática

O novo programa proposto por Nuno Crato deverá entrar em vigor no próximo ano lectivo.

A próxima reunião entre professores e o ministério de Nuno Crato está marcada para dia 12
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Segundo Crato, o novo programa visa "modernizar o currículo" Foto: Luís Manso

A Associação de Professores de Matemática (APM) alertou de novo para as consequências da implementação do novo programa de Matemática para o ensino básico, proposto pelo ministro Nuno Crato, que no seu entender “irá conduzir a um sério retrocesso no ensino da Matemática com prejuízo nas aprendizagens dos alunos”.

O alerta consta de  parecer elaborado pela APM  no âmbito da discussão pública do novo programa, que terminou sexta-feira. O Ministério da Educação e Ciência já anunciou que, depois de analisadas as propostas apresentadas neste processo, irá homologar ainda este mês o novo programa, que substituirá o que se encontrava em vigor desde 2007.

O novo programa foi apresentado em Abril por Crato. Na altura a presidente da APM, Lurdes Figueiral, acusou-o de estar a promover um retrocesso “de 40 anos no ensino da disciplina”.

No seu parecer, a que o PÚBLICO teve acesso, a APM frisa também que o novo programa “contraria as orientações curriculares actuais para o ensino da Matemática a nível internacional, não tendo em conta a investigação desenvolvida neste domínio, quer em Portugal, quer nos países de referência nesta matéria”.

Juntando tudo, a APM considera que não existem alterações que salvem esta proposta, pelo que recomenda “a suspensão da medida que revoga o programa em vigor, visando a sua substituição” pelo novo documento, que foi elaborado pela mesma equipa que redigiu as metas curriculares para a disciplina, cuja aplicação será obrigatória a partir do próximo ano lectivo.

Ao longo de nove páginas, a APM soma críticas a todos os domínios propostos pelo novo programa, sustentando que este “apresenta deficiências graves ao nível da sua estrutura e lógica global, ao nível pedagógico e didáctico e o nível dos conteúdos programáticos”.

Também se distingue pela “quantidade de afirmações valorativas não justificadas, sendo que algumas delas são inexactas”, acrescenta. Um dos exemplos apontados pela associação de professores prende-se com esta afirmação: “Não é possível determinar as propriedades de um objecto que não se encontra adequadamente definido”. Ora, frisa a APM, a verdade é que muitos matemáticos, ao longo da história desta ciência, “trabalharam produtivamente com objectos matemáticos muito antes destes estarem adequadamente definidos”.

Segundo Nuno Crato, o novo programa visa “modernizar o currículo”, tornando-o “mais exigente, mais claro e mais adaptado às necessidades dos dias de hoje”. A APM contrapõe, insistindo que o documento entra em “completa contradição” com a visão defendida pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico e que é implementada nos testes PISA destinados a avaliar a literacia dos jovens com 15 anos.

Segundo a associação, esta inadequação é patente, por exemplo, no modo como se apresenta a resolução de problemas, que é encarada como uma mera “aplicação de conceitos, factos e ‘procedimentos previamente estudados e treinados’, desconsiderando” a sua aplicação em situações de vida quotidiana.

Já a Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM), de que Crato foi presidente, defendeu no seu parecer que a implementação do novo programa da disciplina “será decisiva para que se atinja um patamar de exigência mais elevado, cujas consequências benéficas serão, a prazo, sentidas pelos níveis de ensino secundário e superior, e pela sociedade portuguesa em geral”.