Gestores propostos pelo Governo para a Parque Escolar foram chumbados

Um por ter “um percurso profissional assente na rede de contactos pessoais” e outro por evidenciar preferência pela “autovalorização pessoal”.

A secretária de Estado do Tesouro, Maria Luís Albuquerque, está a liderar a renegociação com os bancos envolvidos no caso dos swaps
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Previsões de Maria Luís Albuquerque voltaram a ser colocadas em causa. Miguel Manso

A Comissão de Recrutamento e Selecção para a Administração Pública (CRESAP), criada em 2012 para avaliar gestores públicos e dirigentes do Estado, chumbou dois dos gestores propostos inicialmente pelo Governo para integrarem a administração da Parque Escolar.

Da lista de três nomes enviados pelo executivo a 22 de Abril, a comissão presidida por João Bilhim considerou adequado apenas o perfil do presidente. As propostas partiram do ministro da Educação, Nuno Crato, e da secretária de Estado do Tesouro, Maria Luís Albuquerque, revela o relatório da CRESAP.

De acordo com o documento, os dois vogais propostos inicialmente pelo Governo, Alfredo Vicente Pereira e Nuno Rolo, não reuniam as condições exigidas para assumirem o cargo. O executivo acabou por ter em conta a recomendação dos conselheiros, tendo indicado dois substitutos a 17 de Maio, que receberam parecer favorável.

Trata-se de Montezuma Dumangane e Filipe Alves da Silva, que terão como presidente Luís Flores de Carvalho. A sua nomeação foi oficializada nesta quarta-feira em Diário da República, depois de a nova equipa de gestão ter sido aprovada em Conselho de Ministros, na semana passada.

O relatório da CRESAP explica que, no caso do chumbo a Vicente Pereira, que foi noticiado pelo Expresso na semana passada, a decisão se ficou a dever à impossibilidade de obter “evidências de uma capacidade de gestão em situações de crise”. A comissão destaca o facto de o gestor ter sido vice-presidente da CP e da Refer, com o pelouro financeiro, tendo-se detectado nestas duas empresas a utilização de swaps como forma de financiamento”.

Percurso assente "na exploração de oportunidades"
Revelando que na análise ao perfil de Vicente Pereira, que esteve na Refer em simultâneo com a secretária de Estado do Tesouro (ex-directora financeira da empresa), houve necessidade de realizar uma entrevista pessoal e um teste de competências comportamentais, o documento refere que “a personalidade em causa não deu provas de possuir traços pessoais e profissionais, nem a postura necessária ao conselho de administração da empresa em concreto, a Parque Escolar”.

Numa avaliação mais detalhada às competências do gestor, a CRESAP destaca o facto de ter “um percurso profissional, sobretudo a partir de 2003, muito assente na exploração de oportunidades surgidas através da sua rede de contactos pessoais, ao invés de uma decisão pessoal subordinada a uma linha de desenvolvimento da carreira”.

O relatório diz mesmo que a análise detectou uma “ausência na presença” do critério de “orientação para o cidadão e serviço de interesse público” e que “não há evidência de uma capacidade para gerir processos de complexidade elevada, lidando com resistências e obtendo resultados concretos”.

O teste de competências comportamentais revelou inclusivamente que Vicente Pereira “é frequentemente intolerante com as pessoas menos dotadas” e “pode mostrar-se brusco, crítico, dominador e susceptível de desencorajar ou de causar ressentimento em pessoas com maiores motivações sociais”. O relatório refere ainda que “apresenta normas gerais de conduta que não concretizam em nada possíveis linhas orientadoras da gestão da Parque Escolar”.

Vicente Pereira foi administrador da Refer, tendo passada para a CP a meio do mandato, onde chegou a ser presidente interino desde Janeiro deste ano, logo após a saída de José Benoliel. Mas ficaria subitamente desempregado quando a nova equipa de Manuel Queiró tomou posse, em Fevereiro deste ano.

Nessa altura, Vicente Pereira pediu a Queiró se podia ser presidente da EMEF, uma participada da CP, tendo obtido o acordo do novo presidente.

Só que a tutela tinha reservada para as empresas afiliadas a figura de um director-geral, recrutado dentro dos quadros do grupo CP, pelo que Vicente Pereira acabaria por sair mesmo da CP.

Ausência de gestão de topo e autovalorização pessoal

Já no caso de Nuno Rolo, antigo director de Recursos Humanos do Instituto Superior Técnico e que também foi chamado para uma entrevista que incluiu um teste de competências comportamentais, a CRESAP justifica o chumbo com o facto de ser “um perfil caracterizado pelo desempenho de cargos e de actividades de staff e com uma pequena experiência de quatro anos de gestão intermédia, claramente insuficiente para o exercício de cargos de topo”.

No documento, lê-se que tem um percurso profissional “demasiado fragmentado (…) não sendo claro a conclusão e os resultados obtidos em cada um dos cargos exercidos, bem como a razão para essas mudanças”. A CRESAP, que diz ter recebido a 29 de Abril uma segunda versão do currículo do gestor com mais informação, destaca que “não há evidência de um gosto pelo trabalho em equipa”, mas sim uma preferência pela “autovalorização pessoal, nomeadamente através da prestações de informações não totalmente precisas, nem claras”.

A comissão detectou algumas incongruências no currículo do gestor, nomeadamente o facto de ter referido que foi “assessor jurídico do conselho de gestão do Instituto Superior Técnico”, quando se veio a verificar que era um dos três juristas (supervisionados por um coordenador) do gabinete jurídico da instituição.

No que diz respeito à aptidão para o cargo de vogal da Parque Escolar, o relatório conclui que Nuno Rolo “não aprofunda a componente de gestão, referindo mesmo a necessidade de recorrer a advogados externos”. 

Notícia corrigida: O nome de Montezuma Dumangane foi rectificado.