Encarar a morte com tranquilidade. Será possível?

Quando nascemos, a Organização Mundial de Saúde – que supostamente sabe destas coisas e quer o melhor para nós –, "dá-nos" a nós, cidadãos da União Europeia, entre 80 e 90 anos de vida, conforme os países, o sexo e outros factores antropológicos, económicos e sociais.

Seja como for, é nessa perspectiva que condicionamos a nossa vida, a partir daí. Na Idade Média, quando se morria aos 30 – na guerra, de tuberculose, de fome ou vítima de qualquer epidemia –, a perspectiva de vida era outra, bem como a gestão do tempo. Como o é nos países menos desenvolvidos, como em África ou em certos países da Ásia e da América do Sul.

De qualquer forma, se nos falarem do que vamos fazer daqui a 200 anos, damos uma risada e dizemos: "Era bom, era". Porque sabemos que é impossível e o assunto não nos causa qualquer ansiedade. A nossa gestão do tempo não inclui vidas humanas com 200 anos. E mesmo quando um ou outro indivíduo chega aos 100 anos, lúcido e brilhante (leia-se: Manoel de Oliveira, Emídio Guerreiro, Fernando Vale ou a Raínha-Mãe inglesa, por exemplo), ficamos surpreendidos: essa pessoa "passou do prazo" e é uma excepção. Isso, mas apenas isso: uma excepção.

É no sentido de mais ou menos 80 anos que programamos a nossa vida: nascer, crescer, ser adolescente, estudar, ter uma profissão, casar, ter filhos, trabalhar, ser avó ou avô, reformarmo-nos, conformarmo-nos e morrer então, ao fim "de uma vida"…

E é nessa perspectiva de vida que, de igual modo, estabelecemos a nossa gestão do tempo, dos minutos, das horas e dos dias, das semanas, dos meses e dos anos. Compartimentamos a vida humana em bebés, crianças pré-escolares, crianças escolares, jovens, adultos jovens, adultos menos jovens, "terceira idade" e velhos mesmo velhos. E, com o excesso de zelo organizativo, muitas vezes dividimos (esquartejamos) a sociedade em blocos que não contactam uns com outros, com toda a perda que advém dessa atitude anacrónica e errada. E é por isso que as pessoas ainda dizem "no meu tempo" ou "quando chegar o meu tempo", conforme os casos, porventura esquecidas de que o tempo é de todos os que o vivem, novos e velhos, bebés e adultos.

A atitude de receio perante a morte
Por outro lado, e como geralmente amamos a vida, a ideia da morte é uma coisa que nos assusta. Morte significa doença, dor, luto. A morte do próprio e a morte dos outros. Morte é geralmente dor e decrepitude física, intelectual e psicológica. Assunto desagradável e que evitamos (já vejo alguns dos leitores a interrogarem-se porque razão escolhi este tema). E evitamos tocar no tema porque, na maioria das vezes, não assumimos ainda a tranquilidade necessária perante a nossa própria morte, embora seja – como sabemos –, a única coisa certa que nos acontece depois de nascermos. Mas lidamos mal com o finitude da vida, e não engolimos o facto de vivermos menos do que uma simples lata de atum.

Quando morre uma criança ou um adulto jovem, a sensação de injustiça ainda é maior, até porque vai contra a "ordem natural das coisas" e porque desafia o que previamente antevemos.

Mas… e aqui, perdoem-me os leitores, mas tenho que levantar uma questão quiçá incómoda mas real: porque é que temos medo da morte, ou dito de outra forma, porque pensamos na morte e não na vida, quando por exemplo surge um diagnóstico de cancro ou de outra situação potencialmente fatal numa pessoa de qualquer idade mas designadamente num adolescente? Explicando-me melhor: porque é que a vida passa, tantas vezes, para um segundo plano, face à ideia da morte, quando deveria, isso sim, ser prioritária?

Redimensionar o tempo, reprogramar os sentimentos
Não se tratará, afinal, de uma questão de tentarmos redimensionar completamente a duração da vida e, em vez de a programar para 80 anos programá-la para "x" meses ou anos? Espremendo bem a nossa vida, quanto é que fica de positivo, de encontro com amigos, com familiares, de partilha, de dádiva, de produção? De sentimentos, de afectos, de amor, de paixão? Pelas pessoas, pelos ambientes, pelo trabalho, pelos hobbies, pela própria vida? Quanto?

E quando teremos a coragem de, em vez de pensarmos na morte, pensarmos na vida, na vida que pode estar reduzida em relação ao que esperamos em termos de longevidade, mas que é vida, sempre vida, e que merece a melhor qualidade e dignidade até ao fim, até ao último batimento cardíaco?

A morte é um acontecimento perturbador, seja qual for a relação entre as pessoas e o grau de maturidade dos que ficam. Por muito grandes que sejam as convicções – religiosas e outras –, a irreversibilidade e a (quase sempre) sensação de injustiça e de perda que a morte nos deixa levantam em nós muitas interrogações. O que dizer, então, de um adolescente, já de si cheio de dúvidas, incertezas e angústias existenciais?

A esperança de vida aumenta ano após ano (mas, como o nome diz, é apenas "esperança", não uma certeza…). A qualidade de vida também. Mas, por outro lado, os avanços da ciência permitiram relegar para a adolescência muitas das situações crónicas, dramáticas, que terminavam a vida ainda na idade infantil. E o aumento dos traumatismos acidentais e dos casos de cancro juvenil põe-nos perante situações anteriormente raras. A sociedade abriu-se, a solidariedade aumentou, estes casos são felizmente compartilhados e vividos em conjunto. Tantas vezes, porém, numa perspectiva negativa, de desistência, de abandono, de só contabilizar os anos "que não se vão viver".

Pensemos, contudo, na vida como o primum movens de tudo. Vivamos momento a momento, com alegria e felicidade, mesmo nas alturas mais difíceis, pensando sempre mais no que temos e que podemos do que no que nos falta ou que não é possível. Nos minutos ganhos e não nos anos de vida potenciais perdidos.

Só assim poderemos adquirir a tranquilidade necessária para gostar da vida avidamente, mesmo quando ela se reduz temporalmente por esta ou aquela razão. Mas não serão o tempo e a sua gestão, afinal, coisas tão subjectivas e tão relativas?

O autor é médico e professor de Pediatria.