Ver em 2013 a exposição que Jane Austen visitou em 1813, em busca de Mrs. Darcy e outras estrelas

Projecto da Universidade de Texas permite uma visita virtual a uma exposição com retratos de celebridades do início do século XIX

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Uma das salas virtuais do site What Jane Saw

Percorrer uma exposição que foi visitada pela escritora britânica Jane Austen em 1813, num local entretanto desaparecido, e da qual não chegou até nós qualquer imagem, parece uma tarefa completamente impossível.

Mas uma equipa da Universidade de Texas em Austin, liderada pela professora Janine Barchas, acreditou que seria possível – e o site What Jane Saw está disponível desde este sábado para que possamos recuar 200 anos no tempo e fazer uma visita virtual pelo espaço que a autora de Orgulho e Preconceito visitou nesse longínquo 24 de Maio de 1813.

Austen escreveu sobre a sua visita a essa exposição que, explica Barchas num texto sobre o projecto, valeria a pena reconstituir mesmo que a escritora não tivesse lá estado porque se tratou de um importante acontecimento para a época. Foi, de alguma forma, o primeiro grande blockbuster no universo das exposições de arte, e marcou “um ponto de viragem na história das modernas práticas de exposição”. Nunca até essa data se tinha organizado numa importante instituição uma exposição dedicada ao trabalho de um único artista.

Tudo aconteceu numa galeria em Pall Mall, Londres, e as obras expostas, da autoria de Sir Joshua Reynolds (1723-92), representavam os ricos e famosos, o mundo das celebridades da época. No seu texto, Barchas compara-as mesmo com o papel que as fotografias de Annie Leibovitz têm na actualidade, “tornando difícil dizer se [Reynolds] retratou ou criou as celebridade com a sua arte”.

A visita de Jane Austen mostra, ainda segundo a responsável pelo projecto, como a escritora se “encontrava exposta à vibrante cultura de celebridades que existia em Londres”. O interesse por estas figuras – como o rei Jorge III, o pensador Samuel Johnson, ou Omai, o “príncipe dos mares do Sul” – era tão grande que a exposição atraiu centenas de visitantes durante os três meses em que esteve aberta. Entre estes visitantes estiveram, por exemplo, Lord Byron e a actriz Sarah Siddons, que tinha na exposição um retrato seu.

Barchas tem, aliás, um livro, Matters of Fact in Jane Austen, no qual defende precisamente que a escritora sofria a influência desta cultura das celebridades, um pouco como acontece hoje com os actores, músicos ou outras figuras que enchem as páginas das revistas cor-de-rosa, e sublinha o interesse de detectar essas influências na obra de Austen. 

Desse grande acontecimento que foi a exposição restam alguns relatos, e, sobretudo o Catálogo dos Quadros, que serviu de base para o trabalho da Universidade de Austin. Trata-se de uma folha de sala que era distribuída aos visitantes quando estes entravam na galeria, descrevendo a localização dos quadros nas três salas que compunham a exposição (a Sala Norte, Sala do Meio, e Sala Sul), e a dimensão de cada tela. Existe também uma relato do historiador Thomas Smith, que em 1860, descreveu detalhadamente a mostra, dando mesmo as dimensões exactas de cada sala.

O trabalho da equipa da universidade foi depois o de calcular a posição relativa dos quadros, e desenhar virtualmente as três salas, dispondo as telas nas paredes e dando a quem entra no site a sensação de estar a percorrer o espaço. Quando se clica sobre cada uma das imagens estas abrem, para se poder ver a pintura com maior detalhe, e ao lado surge um pequeno texto explicando quem são as personagens retratadas, e referindo eventuais ligações com a obra de Austen.

Jane Austen refere-se à sua visita à exposição numa carta que escreve à sua irmã Cassandra, datada precisamente de 24 de Maio de 1813. Com ironia, diz que vai visitar algumas exposições à procura de retratos de Mrs. Bingley e de Mrs. Darcy, duas das personagens de Orgulho e Preconceito – que fora publicado alguns meses antes, em Janeiro (está actualmente a celebrar-se o 200.º aniversário da publicação).

O trabalho da universidade foi feito com base no programa SketchUp da Google, e Barchas não tem dúvidas de que o potencial é enorme: reconstruções de espaços históricos “podem muito bem vir a ser a próxima grande tendência no estudo digital das humanidades”, escreve a investigadora. “É o mais perto que temos de viajar no tempo na Internet”.