Cientistas clonaram células estaminais embrionárias humanas com a técnica da Dolly

Um avanço considerado fundamental para a medicina e cujas potencialidades se espera há anos que se concretizem um dia.

Remoção do núcleo de um ovócito antes da transferência do núcleo de uma célula adulta
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Remoção do núcleo de um ovócito antes da transferência do núcleo de uma célula adulta Revista Cell/Tachibana et al.

A aplicação à medicina humana da técnica que permitiu clonar, em 1996, a célebre ovelha Dolly, tinha ficado quase esquecida. Mas esta quinta-feira, na revista Cell, uma equipa de cientistas norte-americanos volta a pô-la na ordem do dia, revelando ter conseguido, pela primeira vez — e finalmente com sucesso, afirmam — clonar células estaminais embrionárias (CEE) humanas inserindo uma célula humana adulta num ovócito humano e provocando uma “fecundação” artificial.

O objectivo não é clonar seres humanos, mas apenas criar no laboratório, a partir das células do corpo de um doente (da pele, por exemplo), linhagens de CEE que possam ser usadas para gerar tecidos e órgãos em tudo compatíveis com esse doente, eliminando para sempre os problemas de rejeição imunitária associados aos transplantes.Ao longo dos anos, foram feitos vários anúncios a proclamar o sucesso em humanos, com vista a aplicações terapêuticas, da técnica de clonagem da Dolly, dita de “transferência nuclear de células somáticas”. Mas tratou-se sempre de falsas partidas. Assim, em 2001, a empresa norte-americana Advanced Cell Technology disse tê-lo conseguido — mas os embriões só chegavam a ter quatro e seis células, pelo que ficavam numa fase muito mais precoce do que a do blastocisto, que é a fase em que o embrião já possui 150 células e contém as tão procuradas CEE. Outras empresas também tentariam, mas sem sucesso confirmado. Em 2005, houve mesmo um anúncio, que se revelaria fraudulento, do sul-coreano Hwang Woo-suk.
 
Entretanto, por causa dos problemas éticos relacionados com os embriões e a clonagem humana, houve cientistas que começaram a explorar outras vias de obtenção de células estaminais que não passassem pelo embrião, investigações que deram lugar às chamadas “células estaminais pluripotentes induzidas”, resultantes de uma reprogramação genética de células humanas adultas que as faz voltar, por assim dizer, à infância. Mas esta via continua ainda hoje a suscitar receios de que a reprogramação celular gere mutações que, se estas células forem introduzidas num doente, possam ser perigosas para a sua saúde.

 Pelo seu lado, em 2007, os autores dos resultados agora anunciados — Shoukhrat Mitalipov, da Universidade de Saúde e Ciência do Oregon (EUA), e colegas — conseguiam aperfeiçoar a técnica de clonagem da Dolly e fazê-la funcionar, em poucos meses, nos primatas. Obtiveram então, pela primeira vez, culturas laboratoriais de células estaminais embrionárias a partir de células adultas de macacos Rhesus e de ovócitos desses animais (ver A clonagem chega ao mundo dos primatas e desta vez não é ficção, PÚBLICO de 15/11/2007).

São estes cientistas que anunciam agora o resultado com células humanas. “As pessoas perguntam-nos por que é que demoramos seis anos a passar dos macacos aos humanos”, diz Mitalipov, citado numa notícia publicada esta quarta-feira no site da revista Nature. A dificuldade não foi, esclarece, de ordem científica, mas de ordem legislativa, por causa dos obstáculos interpostos pela regulamentação norte-americana à investigação em embriões humanos.

Estes cientistas conseguiram ainda um outro avanço, que os faz acreditar que a clonagem possa realmente vir a ter utilidade terapêutica. O facto de terem sido necessários pouquíssimos ovócitos para gerar linhagens de CEE humanas. “Conseguimos produzir uma das linhagens de CEE a partir de apenas dois ovócitos humanos, o que poderá tornar viável a utilização terapêutica generalizada da técnica”, explicou Mitalipov à revista Cell. “Os nossos resultados abrem novas vias para gerar células estaminais para os doentes com tecidos e órgãos disfuncionais ou danificados. Estas células poderão regenerar e substituir aqueles tecidos ou órgãos e lutar contra doenças que afectam milhões de pessoas.”

Resta saber qual das duas abordagens — clonagem terapêutica ou reprogramação genética — acabará por prevalecer para obter as tão procuradas células estaminais que muitos acreditam possam revolucionar um dia a medicina. Talvez as duas? Ou talvez outra, ainda desconhecida?