Nem todos gostam de pôr um cravo vermelho ao peito

Em dia de comemoração de Abril, o uso da flor que simboliza a revolução continua a ser polémica. A esquerda enverga-a com orgulho mas é um incómodo para a direita.

Quase 40 anos depois da revolução de 25 de Abril de 1974 há uma flor que continua a gerar cisões. A utilização do cravo vermelho na lapela tem sido adoptada pela esquerda, maioritariamente rejeitada pelos centristas e no bloco central deixada ao critério de cada um – mas com aceitação muito mais clara no PS do que no PSD. Um cravo que foi dado por uma mulher a um soldado, sem qualquer conotação política, tornou-se um símbolo de um momento histórico do país, mas também fruto de atenções e críticas nas comemorações oficiais da efeméride.

Em 2012, na primeira comemoração da revolução de Abril depois das legislativas de 2011, em que Pedro Passos Coelho foi eleito, numa demonstração de sintonia com o espírito de Abril, tanto o primeiro-ministro como todos os ministros sociais-democratas presentes na sessão comemorativa no Parlamento envergaram um cravo vermelho na lapela. Neste ano houve menos ministros com cravos, mas mesmo assim foram utilizados por Paulo Macedo, Paula Teixeira da Cruz, Nuno Crato e Álvaro Santos Pereira. O estreante Poiares Maduro manteve um cravo à sua frente, mas não na lapela.

Ao lado da presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, o Presidente da República apresentou-se como é habitual nesta cerimónia: sem cravo na lapela.

Apesar de volvidos 39 anos, os investigadores ouvidos pelo PÚBLICO não estranham a quase ambígua relação que se estabeleceu com a flor que acompanhou as espingardas de Abril. Para o filósofo João Maria de Freitas Branco os símbolos são uma parte integrante da existência do ser humano. “Um facto histórico tem sempre associada uma natureza simbólica imaterial mas que tem expressão material como neste caso do cravo. Os símbolos são indispensáveis para estruturarmos a vida e moldam a forma como encaramos os factos”, explica o investigador da Universidade de Lisboa.

No caso concreto do cravo vermelho, Freitas Branco lembra que “não houve nenhuma opção ideológica na escolha do cravo. Podia ter sido o cravo vermelho como uma outra flor com outra cor qualquer, até porque se conta que foi uma florista que deu a um soldado e não alguém com intenção política”. O investigador entende que foi o facto de se associar o vermelho ao sangue e à revolução, bem como ao Partido Comunista, que contribuíram para uma certa cisão em relação ao símbolo.

Celeste e o caminho do cigarro ao cravo
O cravo, que também se tornou um símbolo internacionalmente associado a Portugal, foi entregue por Celeste Caeiro, agora quase com 80 anos, a um soldado. O restaurante onde trabalhava celebrava o seu primeiro aniversário e tinham flores para comemorar. Com o desencadear da revolução decidiram não abrir. Celeste dirigiu-se para casa com o ramo de cravos na mão quando no Rossio um soldado lhe pediu um cigarro. Como não fumava deu-lhe um cravo que o jovem colocou no cano da espingarda. O gesto foi seguido pelos outros soldados, até terminarem os cravos.

Também a professora de ciências da comunicação da Universidade Nova de Lisboa Maria Augusta Babo lembra que “o que ocorre com todos os símbolos e com tudo o que é de natureza simbólica é que há uma ruptura com o acontecimento. Esse apaga-se e neste caso transformou-se a flor num símbolo que adquire um conjunto de conotações que vão da revolução à liberdade”. E acrescenta: “Enquanto símbolo da liberdade e da democracia o cravo foi apropriado pelas forças libertadoras e hoje há uma ruptura grande entre o chamado poder político dominado pelo poder financeiro e uma reivindicação do povo de uma ideia de justiça”.

Freitas Branco corrobora que “há uma associação determinante do cravo à esquerda, mas isso não significa que no espectro político que não esse que não se possa utilizar o símbolo com a mesma sinceridade e entusiasmo”. E acrescenta que a opção está sobretudo relacionada com a forma como se olha para os valores conquistados.

Foi precisamente o caso do ministro da Educação que ao PÚBLICO explicou que na cerimónia de quinta-feira optou por colocar o cravo na lapela por ser "um símbolo do 25 de Abril, um símbolo da grande mudança no nosso país, a mudança de uma vida em ditadura para uma vida em liberdade". Nuno Crato relata que viveu essa mudança: "Fui um dos muitos que estiveram na rua a saudar os nossos soldados e a transformar o que poderia ser um simples golpe militar numa grande transformação democrática. Foi essa transformação, com momentos conturbados e momentos muito felizes, que nos permite hoje colocar cravos na lapela, e permite hoje também não os usar". O governante diz também que foi com "imenso prazer" que usou o cravo e que antes das cerimónias fez as suas compras e passeou com este símbolo ao peito.

A opinião de Freitas Branco de que tudo depende de como se vê o símbolo é partilhada por Maria Augusta Babo, com amplo trabalho desenvolvido na área da semiótica, e que refere que num foro mais subjectivo é possível colarmos quem utiliza o cravo a “alguém que se apodera de uma etiqueta da democracia e do populismo” e quem não o utiliza a alguém que quer “assumir um afastamento” em relação àquilo que se pode ler no cravo. “É a natureza social que confere sentido aos objectos. Na linguagem podemos desenvolver raciocínios, mas nos símbolos os significados são mais difusos” e “jogam mais com as emoções, o imaginário e a paixão”.

Por isso mesmo, Freitas Branco critica que qualquer membro do actual Governo utilize o cravo na lapela, dizendo que quem não o usa é “mais coerente”. “É uma pura hipocrisia política que o façam no Governo actual. Não têm legitimidade para utilizar um símbolo dos valores da II República que estão a destruir de forma pródiga e voluntária”, afirma, ressalvando que esta opinião não é extensível a todos os deputados e políticos da ala governativa.

Em relação ao Presidente da República Freitas Branco tem uma posição diferente, considerando que pelo cargo que desempenha talvez tenha optado por não usar o símbolo para “não criar um factor de alguma desunião e de conotação com a esquerda”. Cavaco Silva ficará, aliás, para a história como o primeiro Presidente da República pós-25 de Abril a não usar um cravo na lapela nas comemorações oficiais da Revolução dos Cravos.

O cravo de Moura Guedes na bancada do CDS
Se entre o CDS é quase certo que lapela e cravo são combinações a evitar, a verdade é que há um episódio que ficará na história do partido. A jornalista Manuela Moura Guedes, então deputada eleita pelo partido, compareceu na cerimónia evocativa de 1995 “vestida de vermelho dos pés à cabeça e com o cravo”. O episódio quase esquecido no baú das recordações é relatado ao PÚBLICO com um sorriso genuíno. Explica que “o que está subjacente ao cravo é o valor da liberdade” sem o qual não consegue viver, mas que para muita gente, incluindo os companheiros de bancada, “o cravo é o símbolo do PCP e da viragem à esquerda”.

Moura Guedes garante que na altura a atitude lhe pareceu natural e que não foi premeditada. “Valeu-me aplausos da bancada do PCP e fui olhada de lado pelos meus colegas de bancada”, conta, acrescentando que um dos compromissos para integrar a lista do partido foi não ser condicionada nas suas posições nem obedecer a qualquer disciplina de voto e que não poderia deixar de assinalar “o fim da polícia política, o fim da ausência de direitos e a liberdade de dizer o que se pensa”.

Também antes de ser primeiro-ministro, quando já era presidente do PSD, na sessão comemorativa de 2010, Passos Coelho optou por usar o cravo vermelho e defendeu na altura que Portugal já tinha evoluído o suficiente para não haver polémica em torno de quem usa ou não este símbolo de Abril. “Eu não quero fazer, a propósito de um símbolo do 25 de Abril, como é o cravo vermelho, qualquer polémica. Se ao fim de 36 anos ainda há polémicas em Portugal sobre quem põe um cravo vermelho ou não eu julgo que teríamos evoluído pouco. E eu acho que evoluímos o suficiente”, disse na altura.