Os irmãos Tsarnaev: um pugilista sem amigos americanos e um jovem "com coração de ouro"

Ensaio fotográfico sobre a paixão pelo pugilismo de Tamerlan Tsarnaev, o suspeito do ataque em Boston morto numa troca de tiros com a polícia, revela um jovem com problemas de integração na sociedade americana.

Dzhokar e Tamerlan Tsarnaev são os dois suspeitos do ataque na maratona de Boston
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Dzhokar e Tamerlan Tsarnaev são os dois suspeitos do ataque na maratona de Boston FBI

Os irmãos Tamerlan e Dzhokhar Tsarnaev são hoje os dois homens mais odiados nos Estados Unidos, mas até há uma semana as suas vidas tinham muitos dos condimentos que fazem as histórias de sucesso da imigração norte-americana. O mais velho, Tamerlan, 26 anos, era um pugilista que aspirava a lutar pelos EUA nos Jogos Olímpicos e que tinha uma namorada "meio portuguesa, meio italiana"; o mais novo, Dzhokhar, 19 anos, "tinha um coração de ouro" e recebeu uma bolsa de 2500 dólares da cidade de Cambridge para prosseguir os estudos na universidade.

Enquanto o FBI tentava deter os dois suspeitos de terem provocado as explosões na maratona de Boston, na segunda-feira, já milhares de utilizadores de redes sociais como o Facebook ou o Twitter e utilizadores de sites como o Reddit tinham desenterrado peças importantes do puzzle que ajudam a perceber quem são Tamerlan e Dzhokhar Tsarnaev.

 Tamerlan Tsarnaev era pugilista amador e foi a estrela de um ensaio realizado pelo fotógrafo Johannes Hirn [a fotogaleria foi entretanto removida do site] quando se preparava para competir no torneio National Golden Gloves, em Salt Lake City, no Utah, em 2009. Uma das legendas refere que o jovem é "originário da Tchetchénia, mas está a viver nos Estados Unidos há cinco anos", o que indica que os irmãos terão chegado aos EUA há nove anos – a agência de notícias da Quirguízia avança que Tamerlan e Dzhokhar viveram no país "até por volta de 2001" e que são de etnia tchetchena. Depois de 2001, a família ter-se-á mudado para o Daguestão, uma república de maioria muçulmana no Sul da Rússia, na fronteira com a Tchetchénia. Os media russos confirmam que Dzhokhar Tsarnaev frequentou o ensino básico no Daguestão.

Numa outra fotografia é descrito o percurso do jovem e da sua família: "Tamerlan fugiu da Tchetchénia com a sua família por causa do conflito no início dos anos 90 e viveu durante anos no Cazaquistão, antes de ter entrado nos Estados Unidos como refugiado."

As 15 fotografias e as suas legendas são um pequeno livro sobre a mente de Tamerlan: a sua vida, as suas motivações e até as suas relações amorosas. Pelo menos na época em que a sessão fotográfica foi realizada, Tamerlan Tsarnaev namorava com uma jovem "meio portuguesa, meio italiana e convertida ao islão", que surge ao lado dele numa das fotos. Tamerlan parece ajudá-la a preparar-se para um treino de boxe e elogia a sua beleza: "Ela é linda!" A imagem mostra um casal apaixonado, mas a relação parece ter sido conturbada. Num registo publicado no site Spot Crime no dia 28 de Julho de 2009, lê-se que "Tamerlan Tsarnaev, 22 anos, foi detido por violência doméstica, após ter agredido a sua namorada".

O ensaio fotográfico revela também que Tamerlan estudava na Universidade de Bunker Hill, em Boston (um community college) e que queria ser engenheiro. Na altura em que a sessão fotográfica foi realizada, tinha tirado um semestre para preparar a sua participação no torneio National Golden Gloves, em Salt Lake City, no estado do Utah, na categoria de pesos-pesados (Tamerlan pesava 89 quilos).

"Não tenho um único amigo americano"
As fotografias, captadas durante uma sessão de treinos no centro de artes marciais mistas de Wai Kru, no bairro de Allston, em Boston, revelam também um homem que dava sinais de descontentamento com a integração na sociedade norte-americana: "Não tenho um único amigo americano, não os compreendo", lê-se numa das legendas.

O seu objectivo era tornar-se cidadão norte-americano através do boxe: "Se ganhar muitos combates, Tamerlan diz que pode ser seleccionado para a equipa olímpica dos EUA e naturalizar-se americano. A não ser que a sua Tchetchénia se torne independente, Tamerlan diz que prefere competir pelos Estados Unidos do que pela Rússia."

Conduzia um Mercedes cinzento e aparentava ter sentido de humor: "Tamerlan diz que adora o filme 'Borat', apesar de algumas das piadas irem longe de mais." Não bebia e não fumava: "Deus proíbe o consumo de álcool." E não estava contente com o rumo da sociedade actual: "Já não há valores." Temia até que "as pessoas não consigam controlar-se".

A estação de televisão WBZ-TV, uma filial da CBS em Boston, falou com o antigo treinador de Tamerlan Tsarnaev, Mark Massey: "Ele não é a pessoa que eu conhecia. Estou chocado, como qualquer outra pessoa."

Outra das informações desenterradas na Internet, que podem ajudar a traçar o perfil de Tamerlan Tsarnaev, é a sua lista de livros preferidos na Amazon, avança a revista online Slate. Das escolhas fazem parte os títulos "Como fazer cartas de condução e outros cartões de identificação no seu computador pessoal”, "Como fazer amigos e influenciar pessoas" e "As Montanhas de Alá: A Batalha pela Tchetchénia", entre outros.

Está também disponível uma conta no YouTube em nome de um Tamerlan Tsarnaev. A conta tem quatro listas: "Vídeos favoritos" (cinco vídeos), "Terroristas" (dois vídeos, ambos não disponíveis porque a conta em que foram publicados foi apagada), "Islão" (sete vídeos) e "Timur Mucuraev" (três vídeos), um popular cantor nascido em Grozni e conhecido pela sua defesa da independência da Tchetchénia.

Dzhokhar, o jovem estudante "amável" e divertido
O irmão mais novo, Dzhokhar Tsarnaev, é descrito por colegas e professores como um jovem perfeitamente integrado na sociedade americana. 

"Ele era normal. Dava-se bem com toda a gente. Não era muito próximo de ninguém, mas era afável. Estou chocada. Sentei-me ao lado deste tipo. Brinquei com ele. Ri-me com ele. Tive aulas com ele. É de loucos", disse ao Boston Globe Lullu Emmons, que frequentou a escola secundária de Rindge & Latin com Dzhokhar.

Um dos seus professores, Larry Aaronson, descreve-o mesmo como uma pessoa "amável". "Se alguém me perguntasse como é que ele era, diria que tinha um coração de ouro", disse Aaronson ao Boston Globe.

Depois de ter terminado a escola secundária, Dzhokhar Tsarnaev prosseguiu os estudos na Universidade de Massachusetts Dartmouth, depois de ter recebido uma bolsa de 2500 dólares atribuída pela cidade de Cambridge.

Uma das alunas da universidade, Pamala Rolon, disse ao Boston Globe que conhecia bem o segundo suspeito do ataque na maratona de Boston. "Ele estudava. Saía comigo e com os meus amigos. Estou chocada", disse.

Quando viu as primeiras fotografias dos dois suspeitos, Rolon, de 22 anos, brincou com o facto de um deles ser parecido com Dzhokhar. "Fizemos uma piada – aquele parece o Dzhokhar. Mas depois dissemos que não podia ser ele. O Dzhokhar? Nunca."

Dos que o conhecem, só se ouvem elogios. Peter Pavack é um dos treinadores da equipa de luta livre, de que Dzhokhar fez parte quando estudava na escola secundária. O jovem chegou mesmo a ser o capitão da equipa durante dois anos. “Era um miúdo aplicado, todos o adoravam. Nós só nomeamos capitães que são bons [lutadores], mas que também sejam respeitados pelos colegas. Tinha de ser um líder, e ele tinha todas essas qualidades. Era um dos meus”, disse Peter Pavack.

O Toronto Sun falou com a tia de Tamerlan e Dzhokhar, Maret Tsarnaev, residente em Toronto: "É uma enorme tragédia para a família. Os dois filhos do meu irmão estavam a crescer tão depressa (...) Nestas idades, estes dois rapazes só deviam pensar em amor. Não acredito que o Tamerlan esteja morto. Não pode ser verdade."

Sobre os motivos, pouco ou nada se sabe. Mas Aslan Doukaev, perito em questões relacionadas com o Cáucaso, parece já ter uma certeza: "Não tenho nenhuma dúvida de que a guerra na Tchetchénia – que ainda não acabou – afectou a visão que eles têm do mundo", disse, citado pelo Washington Post. O especialista mostra-se "um pouco perplexo" com o facto de o alvo do ataque ser uma cidade dos EUA, porque "os tchetchenos não têm queixas dos norte-americanos". Doukaev especula que os autores do ataque tenham sido mais motivados pelo jihadismo radical do que pelo separatismo tchetcheno, algo que explica com a passagem dos dois irmãos pelo Daguestão. "O epicentro hoje em dia é o Daguestão. O movimento jihadista no Daguestão é muito forte", conclui o perito.