À procura do canivete suíço da Pré-História

Jovem arqueólogo descobriu na Lousã ferramentas talhadas em pedra há 200 mil anos. Mas, se os trabalhos continurem, poderão encontrar-se traços muito mais recuados de ocupação humana.

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Escolhe a pedra que vai trabalhar com cuidado e depois põe um pedaço de pele de cabra sobre o joelho onde vai apoiá-la. À sua volta, tem já um kit de ferramentas invulgar: sílex, quartzito, propulsores em pedra e em osso.

"Uma haste de cervídeo pode ser muito útil na fase final, de pormenor", diz. Em poucos minutos, uma rocha aparentemente banal pode transformar-se num biface perfeito, com um gume tão afiado que poderíamos usá-lo para fazer cortes de precisão em carne crua.

Filipe Paiva aprendeu a talhar pedra em Tarragona, onde defendeu a sua tese de mestrado sobre as indústrias líticas da Lousã, trabalho inédito, já que o Paleolítico da serra está por estudar. Moldar a pedra com as mesmas ferramentas que usariam os hominídeos que viveram na Península Ibérica há centenas de milhares de anos ajuda-o a perceber melhor como pensavam estes caçadores-recolectores, como organizavam as suas comunidades nómadas e distribuíam tarefas para garantir a sobrevivência numa época em que é bem provável que pelo território que é hoje português andassem animais de grande porte, como elefantes, ursos e rinocerontes.

"Quando pegamos em muitos dos machados de mão, lascas e bifaces que recolhi, podemos identificar formas diferentes de pensar", explica este arqueólogo de 30 anos que anda há oito pela Lousã, sobretudo pelas margens do rio Ceira, à procura dos vestígios destes homens - pedras talhadas, usadas para cortar, raspar e escavar.

Até agora, reuniu 67 artefactos, que estudou e catalogou, mas garante que basta dar uns passeios pela serra para aumentar a colecção."O que as pessoas mais identificam dos livros da escola é o biface, que é uma espécie de canivete suíço da Pré-História porque tem vários usos possíveis, embora sirva sobretudo para cortar peles e carne. A lasca é maior, mais tosca, e pode chegar a pesar meio quilo. O machado de mão era muito provavelmente utilizado para desmembrar os animais. Ninguém desmancha um urso com um bisturi", diz Paiva, que identificou já 23 locais com artefactos, um número que, acredita, estará muito longe de atingir os 10% dos que há espalhados pela região.

Cada artefacto tem a sua função, como os talheres num faqueiro. Mas como é que se sabe se um pedaço de quartzito dará um bom machado? "Se o som que faz quando outra pedra lhe toca é metálico, é bom; se for oco, é mau. Demorei muito tempo a perceber isto. Foi preciso dar cabo de alguns dedos e talhar muitos [pedaços de quartzito] que se partiram a meio do processo."

O piloto-arqueólogo
Foi com o avô, que tinha uma oficina onde hoje é uma das salas de estar do turismo de habitação que dirige - o Quintal do Além do Ribeiro, que funciona na casa de família, construída em 1752 -, que o jovem arqueólogo se habituou a olhar para o chão com o "vício de procurar". Primeiro parafusos, que considerava tesouros, hoje bifaces e machados do Paleolítico. Pelo meio, ficam os fósseis que o pai lhe trazia da caça.

"Gosto de olhar para o chão. Habituei-me a isso, e hoje é quase um vício. As minhas memórias de paisagem têm sempre mais a ver com a cor da terra e com as rochas do que com as árvores e as casas. E isso acontece por causa da Arqueologia e dos treinos de trial."

Filipe Paiva é piloto de trial em motas e foi assim que fez a sua primeira descoberta, em 2005. A modalidade exige muito treino fora de estrada e, para encontrar vestígios de uma ocupação que acredita ter sido muito dispersa, nada melhor do que sair dos caminhos principais.

Paiva estava na Foz de Arouce quando deu com a primeira pedra talhada, completamente por acaso. E é precisamente à Quinta de Foz de Arouce, propriedade centenária com 60 hectares, 15 dos quais ocupados por vinhas de onde saem vinhos premiados, que leva o PÚBLICO para explicar a diferença entre uma rocha talhada e outra que sofreu uma erosão natural.

A tarefa não é fácil, já que, à chegada ao terreno onde um marco comemora uma das mais célebres batalhas das invasões francesas (1811, quando Masséna já batia em retirada, empurrado por portugueses e ingleses), há rochas soltas por todo o lado, como se alguém as tivesse semeado entre os pés de videira. Muitas são roliças, com a superfície polida, porque antes - muito antes -, o rio corria naquele planalto e não lá em baixo, no vale, explica o arqueólogo, que fez mais de 2000 quilómetros a pé e de mota desde que começou a prospecção para a tese de mestrado, em 2008.

Sempre que uma rocha tem fracturas concoidais - que apresentam superfícies lisas e curvas, semelhantes ao interior de uma concha - é porque teve a mão do homem. "Quando encontramos uma fractura concoidal, sabemos que aquela rocha foi talhada", diz o arqueólogo, apontando para um dos exemplares armazenados na Aflopinhal, associação de desenvolvimento florestal da Lousã, onde fez o estágio em que inseriu grande parte do seu trabalho de prospecção no concelho. "A natureza não faz fracturas em concha nem retoques. Quando pegamos num destes machados, por exemplo, vemos que há aqui um fito preciso, que o gume está adaptado a uma tarefa específica."

A natureza, explica Paiva, provoca dois tipos de fragmentação, ligados a variações de temperatura: uma, por causa do calor, deixa a superfície das rochas com um efeito rugoso, tipo casca de laranja; o outro, designado por crioclastia, acontece sempre que a água, depois de entrar nos veios e fendas de uma pedra, congela, fazendo com que ela se parta. "Quando a pedra dá uma pancada noutra pedra, cria uma onda de choque, que faz com que a lasca se desprenda. E é fácil de identificar, porque deixa um cone hertziano."

Estes artefactos podem fazer-nos recuar milénios no tempo. Até 500 mil anos, acredita Paiva, embora não possa ainda comprová-lo. "Para já, não podemos definir com certeza a sua datação. O que podemos dizer é que o Homo sapiens e o Neanderthal já não usam este tipo de tecnologia."

Em contexto
Luiz Oosterbeek, professor de Pré-História no Instituto Politécnico de Tomar e um dos especialistas que mais têm acompanhado a investigação de Filipe Paiva, é muitíssimo cauteloso quanto a uma eventual datação, já que não foram encontradas ainda quaisquer ossadas que possam relacionar-se com estes artefactos.

"Em Espanha, há sítios com uma datação muito fundamentada, que recua um milhão de anos. Não será estranho vir a encontrar algo semelhante em Portugal - será até muito previsível. Mas, sem estudos mais aprofundados, sem dados antropológicos, não podemos, de forma alguma, afirmar que é este o caso. Precisamos de mais informação, de encontrar artefactos em contexto." Os que Filipe Paiva recolheu estavam todos à superfície - das duas sondagens arqueológicas que fez na Quinta de Foz de Arouce não resultaram quaisquer materiais do Paleolítico.

Para Oosterbeek, que já reuniu com o vereador da Cultura da Lousã, Hélder Bruno Martins, para discutir o que fazer com o espólio reunido por Paiva, a prioridade é a realização de mais sondagens, com a garantia de que os lugares posteriormente escolhidos para escavação serão trabalhados de forma sistemática durante quatro ou cinco anos. "Conhecemos ainda muito mal a realidade do Paleolítico em Portugal. Primeiro pensávamos que se restringia ao Tejo", diz. E recorda que a ocupação mais antiga em território português foi identificada no vale deste rio e tem cerca de 300 mil anos. "O Côa veio demonstrar que estávamos errados, embora diga respeito a um período muito mais recente [20 mil anos]. Agora identificam-se estes sítios quando antes não havia qualquer referência ao Paleolítico na Lousã..."

Oosterbeek não tem dúvidas de que os artefactos são do Paleolítico Médio ou Inferior, o que equivale a dizer que terão, pelo menos, 200 mil anos. Mas há que ter cuidado com datas, adverte, lembrando que, para fazer investigação em Pré-História, é precisa muita paciência. O facto de terem sido recolhidos à superfície fragiliza-os - não têm contexto estratigráfico, que é o que dá a informação mais precisa e fidedigna.

"Contexto" é o que não falta aos materiais saídos das grutas de Atapuerca, a serra espanhola onde, nos últimos anos, têm vindo a ser recuperados vestígios de hominídeos, alguns com 1,2 milhões de anos (até agora, os mais antigos da Europa Ocidental). Em Atapuerca, há hoje um extenso campo arqueológico, onde Paiva escavou. Foi lá que conheceu dois especialistas em Paleoecologia humana: Josep Maria Vergès e Marina Mosquera. Tal como Oosterbeek, os dois investigadores espanhóis acreditam que as ferramentas descobertas na Lousã pertencem às indústrias antigas do Acheulense, período que começa há 1,7 milhões de anos e termina há 250/300 mil.

"Agora é absolutamente prioritário escavar para encontrar objectos in situ", dizem por email os dois especialistas, que integram a maior equipa de estudos paleolíticos da península. "Os vestígios fora de contexto têm menos valor interpretativo. É preciso escavar: em primeiro lugar, porque a estratigrafia dá-nos informação sobre a sucessão no tempo dos vários momentos de ocupação humana; em segundo, porque os próprios sedimentos e a sua disposição dão-nos dados sobre o paleoambiente de cada ocupação. É com tudo isto que os conjuntos arqueológicos ganham personalidade."

Vergès e Mosquera não conhecem a zona da Lousã, mas conhecem algumas das peças que o arqueólogo português levou para a Universidade de Tarragona, para serem analisadas ao microscópio de electrões, que parece iluminar cada traço, cada fenda: "Através deste exame meticuloso, podemos perceber se um biface foi usado para cortar madeira ou carne", explica Paiva. A dupla espanhola garante que, se a análise se restringisse às características tipológicas dos utensílios recuperados, seria fácil concluir que teriam 500 mil anos, cronologia aceite para datar artefactos semelhantes em toda a Europa. Mas é possível que alguns sejam mais tardios - algo que não se arriscam a afirmar sem contexto.

Seja como for, acrescenta Oosterbeek, há um enorme interesse científico em levar mais longe o estudo desta ocupação na Lousã. Um interesse que poderia vir a ter ganhos económicos, se os seus resultados fossem depois devidamente explorados pelo turismo. A autarquia, garante Hélder Bruno Martins, está interessada em cuidar do espólio, mal o arqueólogo entregue os relatórios com as conclusões dos trabalhos à Direcção-Geral do Património Cultural, que autorizou a prospecção e as sondagens. "Estamos muito interessados nas conclusões finais destes relatórios", disse ao PÚBLICO o vereador da Cultura e Educação, que gostaria de ver o espólio tratado e exposto no Museu Municipal, que reabrirá em breve. "Pelo que conhecemos dos relatórios preliminares, é uma investigação que pode trazer dados muito importantes sobre a ocupação humana da serra."

Filipe Paiva garante que procurou várias vezes que a autarquia se interessasse pela sua investigação, "sem grandes resultados". O espólio recolhido está hoje numa sala da Aflopinhal, sem que haja para já qualquer plano para a integrar no museu. E o arqueólogo está a planear emigrar para o Canadá no próximo ano, como fizeram outros colegas. Primeiro fará "o que for preciso", depois quer trabalhar em Arqueologia. Vai sentir saudades das suas pedras, de dormir em grutas pela serra e de cozinhar à fogueira, como costumava fazer com alguns amigos, admite. "Queria sentir como viviam os homens que andaram por aqui há milhares de anos para perceber melhor como pensavam, como caçavam e como usavam os utensílios que recolhi." Resultou? "Acho que sim. Naquela altura, não devia ser fácil viver aqui... Ainda que os motivos sejam muito diferentes, hoje também não é."