Cartas do assassino de Lennon ao polícia que o prendeu estão à venda

As quatro cartas, datadas de 1983 e dirigidas a Stephen Spiro, custam 56 mil euros.

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O álbum "Double Fantasy", que Lennon autografou a pedido de Chapman cinco horas antes deste o assassinar
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Foto da polícia de Mark Chapman, tirada a 9 de Dezembro de 1980

Durante quatro meses, em 1983, Mark Chapman, o homem que assassinou John Lennon, escreveu cartas ao polícia que o prendeu, Stephen Spiro, dizendo que se sentia próximo dele e aconselhando-o a ler o livro de J. D. Salinger The Catcher in the Rye/À Espera no Centeio, porque este era o seu “depoimento”.

As quatro cartas estão a partir de segunda-feira à venda por 75 mil dólares (56 mil euros) no site Moments in Time, especializado na venda de documentos históricos e autógrafos raros, noticiou a CNN. Numa delas, Chapman afirma que “havia outros que podiam ter servido o mesmo objectivo” que Lennon.

Spiro, que diz que foi a única vez que alguém que ele prendeu lhe escreveu cartas, explicou que decidiu vendê-las porque já tem 66 anos e não saberia o que fazer com elas. Chapman, que matou Lennon a tiro a 8 de Dezembro de 1980, tendo sido preso no local, escreveu a primeira carta a 15 de Janeiro de 83: “Estou contente por nos podemos manter em contacto. Nunca esquecerei a primeira vez que nos encontrámos…”

Nessa primeira carta, Chapman explica as razões que o levaram a escrever: em primeiro lugar quer “ser amigo” de Spiro, depois quer pedir-lhe ajuda para localizar a cópia do livro de Salinger que lhe foi tirada na noite em que foi preso. E, por fim, quer saber a que é que Spiro se referia quando, na altura da detenção, no carro-patrulha, disse a um colega que sabia que alguma coisa importante lhe ia acontecer naquela noite. Chapman insiste com o polícia para que este leia À Espera no Centeio.

Cerca de 15 dias depois, a 28 de Janeiro, Chapman volta a escrever para dizer a Spiro que, desde a altura da detenção, sentiu-se “próximo” dele. E tenta explicar de que forma o livro de Salinger é a sua declaração, dando como exemplo uma mulher que se imolou em Saigão durante a guerra do Vietname. “Ela acreditava tão profundamente no seu objectivo que optou por acabar com a vida em vez de continuar a viver neste mundo hipócrita”.

A 19 de Março, nova carta pedindo a Spiro que lhe fale sobre a família e os filhos, e voltando a aconselhá-lo a ler À Espera no Centeio. Relativamente a Lennon, escreve: “Vou deixá-lo decidir se Lennon era hipócrita ou não. […] Sim, Lennon era um hipócrita do mais alto grau, mas havia outros que podiam – e teriam – servido o mesmo objectivo.” Na última carta, datada de 31 de Maio, Chapman escreve mais uma vez: “Leia À Espera no Centeio”.

O assassino de Lennon já declarou várias vezes que matou o ex-Beatle porque este era um alvo mais fácil do que outros em quem tinha pensado, como o apresentador de televisão Johnny Carson ou a actriz Elizabeth Taylor. Chapman foi condenado a uma pena de prisão de 20 anos e desde 2000 pode pedir a libertação – no entanto, já compareceu sete vezes perante um júri com esse pedido, que lhe foi sempre recusado. Yoko Ono, a viúva do antigo Beatle, tem-se oposto veementemente à possibilidade de Chapman ser posto em liberdade, alegando que ele constitui ainda um perigo para ela e para os dois filhos de Lennon.

Numa audiência em 2010, Chapman confessou que o que pretendeu com a morte de Lennon foi ganhar notoriedade. “Senti que, matando John Lennon, me tornaria alguém, e, em vez disso, tornei-me um assassino, e os assassinos não são alguém”, disse, reconhecendo que foi “uma decisão horrível acabar com a vida de alguém por motivos egoístas.”

A obsessão com o livro de Salinger tem sido permanente ao longo das últimas décadas. No dia da morte de John Lennon, comprou uma cópia do livro, na qual escreveu “Esta é a minha declaração”, assinando como Holden Caulfield (a personagem do adolescente perturbado criada por Salinger), e, depois de alvejar o ex-Beatle, esperou pela polícia lendo-o.

A Moments in Time está também a vender, por 650 mil dólares (487 mil euros), o álbum Double Fantasy, que Lennon autografou a pedido de Chapman cinco horas antes de este o assassinar. O álbum foi encontrado à porta da casa do músico por um homem que o disponibilizou à polícia como prova do crime. Tendo-o recebido de volta, o mesmo homem vendeu-o em 1999 através da Moments in Time, que volta a agora a colocar à venda o documento histórico.