Era impossível acontecer pior à secundária Vergílio Ferreira, dizem pais

Escola fica integrada no terceiro maior agrupamento do país. Directora e pais dizem que não será possível manter experiência de qualidade da secundária Vergílio Ferreira.

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O novo agrupamento terá perto de quatro mil alunos Enric Vivies-Rubio

É possível gerir um agrupamento com quase quatro mil alunos, algumas centenas de professores e composto por dez escolas com realidades diferentes?

Manuela Esperança, actual presidente da Comissão Administrativa Provisória do Agrupamento de Escolas Vergílio Ferreira, em Lisboa, ficou a saber na quarta-feira pela comunicação social que esta vai ser a sua tarefa nos próximos tempos, na sequência da nova agregação que agora os juntou ao Agrupamento de Escolas de São Vicente e que faz do novo grupo o terceiro maior do país em número de alunos.

“Não sei se será possível gerir algo com essa dimensão, nunca tive essa experiência. Mas sei que será muito difícil dar alguma coesão a todo este conjunto de escolas”, disse nesta sexta-feira ao PÚBLICO.

Manuela Esperança era directora da Escola Secundária Vergílio Ferreira, que em Maio passado foi agregada ao Agrupamento de Escolas de Telheiras. Foi eleita para a presidência da Comissão Administrativa Provisória do novo agrupamento, a quem compete preparar a transição e a eleição do Conselho Geral, o órgão máximo das escolas que elege o director. Na quarta-feira foi confrontada com um novo processo de fusão.

Com a primeira experiência perdeu a “relação de proximidade” que sempre conseguiu manter com os seus professores e alunos, cujo número quase duplicou. “Quando agrupei deixei de conhecer todos os professores e hoje sinto-me incapaz de os ajudar com a mesma prontidão e qualidade” que marcava a sua relação na secundária Vergílio Ferreira, conta, prevendo que com a nova fusão será ainda pior.

Sabe que irá ter 3953 alunos, mas desconhece ainda quantos docentes ficarão a seu cargo. Com a nova fusão ficarão juntas escolas com “realidades muito diferentes” no que respeita às características socioeconómicas dos alunos. Esta diversidade, em conjunto com a grande dimensão do novo agrupamento, levam-na a duvidar que se venha a conseguir manter os níveis de sucesso a que a secundária Vergílio Ferreira estava habituada. O novo agrupamento é um dos 67 criados esta semana.

“Não consigo imaginar pior”, desabafa Luís Monteiro, da associação de pais da escola, para quem as fusões decretadas pelo Ministério da Educação e Ciência (MEC) levam a que esta fique “completamente impossibilitada de se organizar e de pensar no melhor para os nossos educandos”. Trata-se de “um rude golpe e de mais um atropelo à dignidade e expectativas de toda a nossa comunidade educativa”, frisa.

Liberdade de escolha em causa
Para António Monteiro, também da associação de pais, não subsistem dúvidas de que o MEC transformou uma escola de qualidade num agrupamento que será “ingovernável”. No ano passado, em carta dirigida ao ministro da Educação, Nuno Crato, a associação de pais da Vergílio Ferreira testemunhou a sua "profunda apreensão” face ao projecto de agregação, advertindo que este processo levará ao “agravamento das tensões sociais dentro dos estabelecimentos de ensino e a um muito sério agravamento das condições de trabalho de professores e alunos”.

Lembrando que um dos objectivos enunciados pelo MEC para agrupar escolas é o de “garantir a cada aluno um percurso escolar dentro de um mesmo agrupamento”, a associação de pais frisava no documento dirigido a Crato que tal não “se afigura consistente com o princípio da liberdade de escolha” das escolas por parte dos pais, defendido pelo ministro, nem com as “transformações sociais que o país actualmente conhece, em que a mobilidade geográfica das famílias é cada vez mais uma constante exigência”. Trata-se de “um objectivo obsoleto”, acrescentavam.

O então Conselho Geral da Escola Secundária Vergílio Ferreira também se pronunciou, em Abril passado, contra o processo de agregação, tendo no seu parecer adiantado que, caso este fosse por diante, então que a fusão fosse apenas com um agrupamento e não com dois como proposto. O que agora acabou por acontecer. Para esta segunda fusão, os órgãos do primeiro agrupamento criado no final do ano passado não foram ouvidos. Nem tão pouco Manuela Esperança.

A responsável espera agora que, antes do próximo ano lectivo, alguém do MEC a ouça e concorde em levar por diante uma reorganização da rede escolar do novo agrupamento, de modo a concentrar as ofertas educativas por escola e garantir, nos critérios de acesso à Vergílio Ferreira, que esta continuará aberta a alunos de fora, condição que nas circunstâncias actuais se encontra ameaçada, diz.