Salários no Laboratório Ibérico de Nanotecnologia com corte de 20%

Medida afecta todos os trabalhadores, desde o pessoal da limpeza até aos cientistas e à direcção do laboratório criado por Portugal e Espanha.

O laboratório de Braga foi inaugurado em 2009, por Cavaco Silva e o Rei Juan Carlos
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O laboratório de Braga foi inaugurado em 2009, por Cavaco Silva e o rei Juan Carlos Nélson Garrido

Todos os trabalhadores do Laboratório Ibérico de Nanotecnologia, instalado em Braga, vão sofrer um corte de 20% nos seus vencimentos a partir do próximo ano. A medida foi tomada de forma a fazer face à redução do financiamento da estrutura decidida pelos governos de Portugal e de Espanha, no âmbito dos respectivos programas de austeridade. No laboratório, teme-se que a redução salarial possa levar à saída de alguns dos seus investigadores.

Todos os salários serão reduzidos em 20% a partir de Janeiro, numa decisão que afecta todos os trabalhadores com vínculo ao Laboratório Ibérico de Nanotecnologia (INL, na sigla inglesa, como se apresenta), desde o pessoal de limpeza aos investigadores e à direcção. “Trata-se de uma decisão conjunta do conselho do INL”, avança fonte do Ministério da Educação e Ciência (MEC), que tem a tutela nacional do laboratório. O órgão máximo da estrutura, que reúne representantes de Portugal e de Espanha – entre os quais estão o presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia, Miguel Seabra, e os reitores das universidades do Minho e de Aveiro –, debateu a situação na semana passada e chegou a esta decisão, “na sequência de cortes orçamentais sofridos pelas instituições públicas portuguesas e espanholas”.

A redução dos vencimentos de toda a estrutura do INL “reflecte a difícil situação económica que ambos os países atravessam”, justifica o MEC. Segundo a mesma fonte do gabinete de Nuno Crato, o conselho “compreende a insatisfação que a medida terá gerado entre os investigadores, mas tem confiança de que a compreenderão e não permitirão que afecte a boa investigação que o INL está a desenvolver”.

A direcção do INL, presidida pelo investigador espanhol José Rivas, não comenta a decisão, por se tratar de uma medida aprovada pelo conselho, o órgão máximo do laboratório. No entanto, entre os investigadores, teme-se que a medida leve à saída de alguns dos mais importantes cientistas que, desde 2009, começaram a instalar-se no laboratório de Braga. Apesar de, entre os elementos do laboratório, já ser esperado um corte no vencimento em função da redução do financiamento público de Portugal e de Espanha ao projecto, os 20% decididos foram surpreendentes e levaram a alguma insatisfação.

Portugal e Espanha têm orçamentada uma transferência de cinco milhões de euros cada para o INL em 2013. O valor está aquém dos 30 milhões de euros anuais de investimento previstos quando o laboratório foi lançado pelos anteriores governos dos dois países ibéricos. No INL, trabalham actualmente 80 colaboradores, de 19 nacionalidades, mas foi pensado para ter em actividade 400 trabalhadores. No entanto, apenas em 2016 será possível atingir o horizonte previsto inicialmente.

O laboratório está ainda a trabalhar a apenas um quarto das potencialidades para que está pensado. Das 40 equipas de investigação que aquela estrutura deve acolher, estão instaladas 11, mas que já abrangem as quatro áreas estratégicas definidas para o INL: nanomedicina, monitorização ambiental e controlo da qualidade alimentar, nanomáquinas e nanomanipulação, nanoelectrónica.

O laboratório foi inaugurado em 2009, numa cerimónia em que estiveram o Presidente da República, Cavaco Silva, e o rei de Espanha, Juan Carlos, além dos então primeiros-ministros dos dois países. Porém, nessa altura só estava terminada a parte infra-estrutural do laboratório. Apenas em Fevereiro do ano seguinte foi assinado o contrato com o Programa Operacional Norte, que permitiu um financiamento de 24 milhões de euros destinados à aquisição dos equipamentos para a actividade científica. A sua instalação tardou e apenas há um ano e meio começou o trabalho científico.