Rebeldes sírios armam-se com dinheiro enviado pela França

Fundos canalizados pelo Governo francês foram decisivos para avanços da oposição em Alepo. Chefe da diplomacia britânica diz ter visto provas que indiciam que Assad planeia uso de armas químicas.

As várias facções sírias acordaram unir-se sob um mesmo comando militar
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As várias facções sírias acordaram unir-se sob um mesmo comando militar Odd Andersen/AFP

Fundos canalizados pelo Governo francês estão a ser usados pelos rebeldes sírios para comprar armas e munições, noticiou o jornal britânico Guardian, adiantando que o apoio terá sido decisivo para reanimar a oposição. O chefe da diplomacia britânica anunciou entretanto ter visto “algumas provas” de que o regime de Damasco estaria a preparar-se para usar armas químicas contra zonas que escapam já ao seu controlo.

A França foi o primeiro país ocidental a reconhecer a Coligação Nacional Síria, a nova entidade criada para unificar a até aqui dispersa oposição ao Presidente Bashar al-Assad, como “legítima representante” do povo sírio e alguns dirigentes sugeriram abertamente o envio de “armamento defensivas” para a rebelião.

Paris tem também enviado ajuda humanitária, incluindo dinheiro, para zonas sob controlo dos rebeldes, mas em Setembro o ministro da Defesa assegurava que armar os rebeldes não estava nos planos do Governo

Nesta semana, contudo, o jornal Le Figaro noticiou que conselheiros militares franceses estiveram reunidos com grupos armados em território sírio, algures entre Damasco e a fronteira com o Líbano. E na sua edição de hoje, o Guardian revela que, no último mês, pessoas instruídas por Paris entregaram “grandes quantidades de dinheiro” a comandantes rebeldes através da fronteira turca. Segundo o diário, que cita diplomatas turcos e ocidentais, os fundos foram usados para comprar armas e financiar operações contra as forças leais a Assad.

Paris não terá chegado ainda ao ponto de fornecer directamente armas aos rebeldes – ao contrário do que acontece com países árabes da região. Mas o apoio financeiro terá sido crucial para os avanços reivindicados nas últimas semanas pelos rebeldes na região de Alepo, a grande cidade do Norte. O Guardian conta, por exemplo, que o dinheiro permitiu ao Liwa al-Tawhid, um grupo islamista que actua sob a bandeira do Exército Livre da Síria, comprar munições pela primeira vez desde o Verão, deixando de ficar dependente dos jihadistas da Frente al-Nusra para continuar as suas operações.

A notícia chega no mesmo dia em que a Coligação anunciou um acordo para a criação de uma nova estrutura de comando para liderar a maior parte das facções armadas sírias. Segundo o secretário-geral da oposição, o Conselho Militar Supremo reunirá os “chefes dos diferentes conselhos militares no terreno e as forças que combatem o regime, incluindo o Exército Livre da Síria”. “Esta é uma iniciativa muito importante para unificar a acção militar. Será exclusivamente neste conselho que distribuiremos a ajuda material que recebermos”, disse Mustafa Sabbagh.

A criação de um comando militar único, que responda perante uma estrutura política, era uma das principais exigências dos países ocidentais. A dispersão de grupos armados impedia uma luta eficaz contra o regime de Damasco e tornava a oposição mais permeável à influência de grupos jihadistas. Sinal desta preocupação, o único grupo que não será acolhida no comando é a Frente al-Nusra.

Armas químicas

As notícias do envolvimento francês no conflito sírio coincidem com novas movimentações no campo diplomático, depois de sugestões de que Assad teria planos para usar armas químicas contra zonas controladas pelos rebeldes.

A suspeita – que se julga que terá por base imagens de satélite onde será visível um aumento das movimentações em torno dos locais onde essas armas estão armazenadas – levou vários países, incluindo os EUA, a avisar que tal atitude teria sérias consequências para o regime de Damasco.

O Governo sírio nega a existência de tais planos, mas o chefe da diplomacia britânica disse neste sábado à BBC “ter visto algumas provas” que sugerem o contrário. William Hague recusou entrar em pormenores, mas sublinhou que os dados na sua posse são suficientes para justificar os “fortes avisos” que foram feitos a Damasco.

Já depois destas declarações, a imprensa oficial síria tornou pública uma carta enviada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros às Nações Unidas, na qual repete que tais armas nunca serão usadas contra o povo, mas avisa que “grupos terroristas” poderão fazê-lo e diz mesmo que uma fábrica que produz soda cáustica e gás clorídrico foi tomada por combatentes da Frente al-Nusra.