Esta orquestra é uma ilha

O que faz uma orquestra de jazz numa vila como Rabo de Peixe, nos Açores, que já foi considerada uma das regiões mais pobres da União Europeia? Tenta mudar a vida dos miúdos.

Na noite de 24 de Novembro, o palco do Teatro Micaelense, em Ponta Delgada, pô-los à prova perante um público mais exigente do que o da vila onde vivem, a 20 minutos de carro, e é por isso que falavam com um misto de receio e de entusiasmo. “E se alguém se engana é que vai ser bonito. Nunca mais tem cara para tocar em lado nenhum”, diz um dos trompetes. Sempre que entram no Micaelense não são apenas os miúdos de Rabo de Peixe. Juntos formam a Orquestra Oi Jazz e sentem-se músicos, tenham dez ou 22 anos. Esperam uma noite para não esquecer, tal como não esquecem aquela conversa em que um dos professores da escola de música os convenceu a experimentar o saxofone ou lhes disse que uma namorada aos 15 anos raramente é para a vida toda.

"O público do Micaelense está habituado a ouvir música e se não estivermos à altura vai-se notar”, diz Luís Senra, 22 anos, um dos elementos mais velhos e mais experientes da orquestra. “Não é que não seja preciso tocar bem quando no Verão fazemos um ensaio aberto na rua em Rabo de Peixe, mas na cidade a responsabilidade é maior.” Sobretudo quando, apenas uma semana antes, passaram pelo teatro os músicos da última edição do Jazzores, um festival que se faz desde 1999 e que este ano teve no programa o New York Ensemble e um duelo de pianos com Raymond King e Charles Gayle. “Mas até lá vamos estar preparados. Temos de estar.”

A um mês e meio do concerto, quando a revista 2 esteve em Rabo de Peixe, faltavam muitos ensaios e os professores prometiam não descansar enquanto o reportório a apresentar não estivesse perfeito. Ou quase. Até lá a orquestra e a escola de música a que pertence desde 2006, ano em que nasceu, ia ainda receber a visita de dois convidados de Lisboa, que trabalham com ela desde 2007, ano do primeiro workshop bienal do Micaelense: o saxofonista Pedro Moreira, também professor da Escola Superior de Música, e a cantora Paula Oliveira. Assistimos a três dias de programa intensivo da Oi Jazz, falámos com músicos e professores, andámos com os miúdos pelos bairros onde moram e conversámos com alguns dos pais. O que faz uma orquestra de jazz numa vila como Rabo de Peixe, que sente ainda o peso de já ter sido considerada uma das regiões mais pobres da União Europeia? Será que a música pode mudar a vida de um jovem a quem o pai não deixou estudar? Em que circunstâncias pode uma flauta transversal ser mais do que um instrumento?

Na quarta-feira à noite é dia de ensaio da orquestra e o Cine-Teatro Miramar, sede da Escola de Música de Rabo de Peixe, criada por iniciativa da presidência do governo regional dos Açores em 2001, enche-se de alunos. Uns vêm com os pais ou com os irmãos mais velhos, mas a grande maioria chega sozinha. “Na vila não há perigo”, diz Paulo Soares, 33 anos, funcionário do teatro.

“Os miúdos estão habituados a andar sozinhos, alguns até de mais, e sabem que aqui estão em casa.” No palco, o professor Carlos Mendes, um músico de 31 anos que chegou a S. Miguel em 2004 vindo de Gaia para dar aulas na Escola Básica Integrada (EBI) de Rabo de Peixee hoje é o maestro da Oi Jazz, já está à espera deles. Sentá-los não é tarefa que se cumpra com rapidez — é preciso dar-lhes espaço para se cumprimentarem, para abrirem os estojos dos instrumentos e com eles brincarem um pouco antes de começarem a olhar para as pautas de My funny valentine, enquanto um dos saxofones pede que arranquem antes com “uns minutinhos de blues”.

A cada novo standard do jazz, o maestro faz correcções, gesticula com energia e quase dança para lhes dar indicações dos crescendo. Nas filas de cadeiras, organizados por naipes, os mais velhos vão tentando ajudar os alunos mais pequenos, como Iuri Pereira, que só tem dez anos mas já está na orquestra há dois. “Quando se toca numa orquestra, é importante ouvir os outros”, sublinha o maestro.

“Não basta ser bom individualmente, é preciso ser bom no conjunto. Sozinhos podem tocar ao espelho, mas uma orquestra não têm em casa — falta-vos os outros”, acrescenta, chamando a atenção de um par de clarinetes que esta noite parece mais interessado em namorar do que em ensaiar. “Um solo precisa de uma ideia. Oiçam este Coltrane com atenção e percebam que é preciso ter cuidado para não lhe perdermos o pulso.”
 

El sistema em acção
Passa das dez da noite e os mais novos — sentados nas cadeiras, alguns não chegam sequer com os pés ao chão — abrem a boca de sono. Mas ainda há energia para a bossa nova e Fabiana Couto, 17 anos, brilha na flauta transversal quando chega a Garota de Ipanema ou Samba de uma nota só. Tom Jobim também é um dos preferidos de César Cabral, outro com 17, o baterista que está na orquestra há seis anos a tocar de ouvido (como muitos deles, não sabe ainda ler música) e é fã de Michael Wimberly, percussionista norte-americano que já teve oportunidade de conhecer.


Foi Rodrigo Reis, o professor de flauta que é há três anos o presidente do conselho executivo da EBI Rui Galvão de Carvalho, escola a que chegou em 2000, quem aceitou o desafio de criar um espaço onde as crianças e jovens de Rabo de Peixe pudessem aprender música. É ele que diz que a vila mudou nos últimos 12 anos, mas que há ainda muito a fazer para que as coisas possam ser realmente melhores para a maioria dos miúdos.

A escola e a orquestra foram criadas, diz à revista 2, tendo por referência El Sistema, o programa de educação que põe a música ao serviço da inclusão social, que nasceu na Venezuela em 1975.

Conhecido hoje através das suas orquestras de juventude — as Simón Bolívar — El Sistema tem réplicas em todo o mundo, incluindo em Portugal (chama-se Orquestra Geração e existe em 16 escolas de 11 cidades).

A grande diferença, explica o professor de 38 anos que saiu de Macedo de Cavaleiros e “ficou preso” a S. Miguel, é que a Oi Jazz não tem nada a ver com música clássica. O jazz chegou com o colega Carlos Mendes, que por ele se apaixonou mal começou a estudar música no conservatório de Gaia. Quando a escola arrancou, em 2001, tinha apenas 20 alunos e oito instrumentos, com um orçamento de 7500 euros. Hoje tem 150 (por lá já terão passado cerca de 300), nove professores (oito portugueses do continente e uma italiana), uma orquestra com 22 elementos (19 rapazes) e um coro com 26 alunos (seis rapazes).

Para contar de cabeça os instrumentos, que são sempre poucos, é preciso fazer um esforço. “Mudou muito, é verdade, mas o nosso objectivo principal mantém-se: fazer desta escola um espaço onde os miúdos vêm aprender música e, com ela, vêm aprender o que é uma comunidade, como se pode trabalhar em grupo, porque é que as regras são essenciais, o que podemos fazer quando outros dependem de nós... Esta é também uma escola de cidadania, onde muitos destes adolescentes e crianças, alguns sem estrutura familiar, encontram alguém com quem conversar”, explica Rodrigo Reis. “É óbvio que nos preocupamos com a parte musical, artística, mas essa não é a mais importante. O que queremos mesmo é que eles sejam miúdos felizes, integrados, socialmente capazes”, acrescenta o maestro da Oi Jazz.

A avaliar pela forma como falam com os professores — ou como falam deles — pode dizer-se que os alunos sabem que estão entre amigos. Os mais velhos conversam sobre tudo, os mais pequenos penduram-se neles, interrompem a toda a hora e esperam que entrem nas suas brincadeiras.

Uma freguesia difícil
Ana Almeida, do serviço educativo do Teatro Micaelense, a que a escola de música está ligada desde 2005, não tem dúvidas de que se deve à dedicação dos professores o sucesso do projecto. Rabo de Peixe, garante, é uma freguesia difícil em que se tem investido muito através de programas regionais e comunitários, mas nem sempre com grandes resultados.“Este projecto da escola e da orquestra é verdadeiramente transversal porque não se interessa só pela música — interessa-se pela vida destes alunos”, garante.

“Educa-se para o respeito, para valorizar a auto-estima, para valorizar os afectos. É por isso que estes professores, que conhecem os miúdos todos, sabem os disparates que fazem, que dificuldades têm na escola de ensino regular e em casa, são também assistentes sociais, irmãos mais velhos.”

Caminhar ao fim da tarde de um dia de semana pela Rua Nossa Senhora de Fátima, entre o Cine-Teatro Miramar e o Largo Frei António do Presépio Moniz, o da igreja matriz, dá para fazer um retrato da vila, não muito diferente do que geralmente é dado pelos jornais e televisões, concentrado nos aspectos mais negativos de Rabo de Peixe: desemprego, pobreza, droga, violência.

Os sinos tocam a rebate por causa de um funeral mas poucos são os que parecem preocupar-se. Quando o caixão sai da matriz é vê-los tirar os chapéus em sinal de respeito. “Hoje ele, amanhã eu”, diz um dos pescadores, enquanto uma série de rapazes se ocupa de desmontar o que ficou das festas dos dias anteriores.

Dezenas de homens vagueiam pela avenida principal, sem nada para fazer, muitos concentram-se frente à sede do clube desportivo, já fechada. Uns querem meter conversa, outros têm droga para vender, muitos dos mais novos têm o cabelo cortado à Cristiano Ronaldo e até lhe copiam os brincos. Os cafés da rua do Miramar, como o Pereira ou o São Miguel, são escuros, fechados, e têm sempre os mesmos clientes, nunca mulheres.

É também a esta hora que os miúdos regressam a casa vindos da escola. Há crianças por toda a parte. As mães trazem pela mão os do primeiro ciclo enquanto empurram o carrinho dos irmãos mais pequenos. Na rua cheira a refogado, já há assadores nos passeios e mulheres a entrar e a sair de casa a pensar no jantar. O minimercado é um corropio.

Numa terra de músicos
Carlos Ferreira, 61 anos, coordena o cine-teatro desde 2005. Conhece bem a vila e os seus problemas, apesar de viver a dez quilómetros, na freguesia do Livramento.

É um açoriano de mãos grandes, voz grossa e sorriso pronto, generoso nos elogios e nas críticas, que foi rádio telegrafista e professor de Educação Física antes de fundear no Miramar, regressado de uma volta ao mundo que durou 22 meses, num veleiro construído a pensar em regatas. Homem do mar e da terra — ainda hoje tem estufas de onde sai o feijão verde para acompanhar a receita de frango no forno que gosta de cozinhar nos almoços de domingo em família —, Ferreira lembra-se bem de estar a chegar ao Egipto quando os americanos entraram em Bagdad em 2003, das praias australianas, dos piratas no Canal do Suez e da recepção agreste que teve na costa da Eritreia.

“A viagem foi uma aventura, mas o Miramar, mal cheguei, também”, confessa, entre risos. Antes de começarem as obras que haveriam de o transformar em centro de congressos, em 2003, o teatro estivera 20 anos a servir de armazém. Já renovado, começou por ter três sessões de cinema por semana, mas o programa não resultou. “As pessoas vinham pouco. O cartaz, com muitos realizadores portugueses, não lhes interessava.”

Deixou de ser cinema em 2009, mas a sala de projecção, forrada a cartazes de filmes de Jennifer Lopez e de outros títulos insuspeitos como A Vida Secreta das Palavras, ainda lá está, impecável. Ferreira gosta que o Miramar receba, além de congressos e conferências ocasionais, as actividades da escola de música (ensaios da orquestra às quartas-feiras, entre as 20h30 e as 23h; aulas aos sábados, das 9h às 17h30, concertos de vez em quando).

Rabo de Peixe é terra de músicos, como muitas dos Açores. A vila já tinha duas filarmónicas e uma delas até é das mais antigas da ilha. Mas a rivalidade entre as duas era tão grande que, sendo uma de 1867 e outra de 1888, só tocaram juntas pela primeira vez há três anos. E a escola de música também ajudou a acabar com o mau ambiente, porque tem miúdos que tocam na banda velha [Lira do Norte] e outros na banda nova [Progresso do Norte].”

A vila, explica Ferreira, divide-se entre “baixo” e “cima”: os de baixo são os do mar, por tradição mais pobres; os de cima são os da terra, os proprietários e agricultores. “Antes as duas partes não se misturavam”, lembra Paulo Soares, o funcionário do Miramar. “Uma moça do Caranguejo não ia namorar com um dos de cima.

Agora até já casam, mas não é assim à maluca, é de vez em quando. A malta do Caranguejo também não vai aos cafés dos de cima.” Não há zaragatas (em Rabo de Peixediz-se “arengas”), mas também não há conversa.

“Aqui há 15 anos não havia fim-de-semana sem arenga na praça. Agora já não é assim. A rivalidade das famílias passa por competir para ver quem tem a casa mais limpa, mais bem pintada, quem varre melhor o passeio que lhe compete”, acrescenta Ferreira, com quem é difícil passear pelas ruas da vila ou de Ponta Delgada sem que sejamos constantemente interrompidos. As “arengas” já não são tão frequentes, mas ainda acontecem.

A importância do RSI
Num dos dias em que a revista 2 esteve na vila, foram as mulheres que se zangaram e saíram à rua para lutar umas com as outras, entre puxões de cabelos, bofetadas e insultos. Os homens ficaram em roda, a assistir, e nunca se meteram. Os bairros mais problemáticos na parte de baixo, hão-de dizer-nos mais tarde, são o Caranguejo (pescadores), o Biscoito (pastores), o Barreiro e a Cova da Moura (vendilhões de peixe). Para os pescadores — a pesca, a construção civil e a agricultura são as principais actividades económicas de Rabo de Peixe—, subir na vida significa poder comprar uma casa na parte de cima. Tal como Ferreira, a presidente desta junta de freguesia do concelho da Ribeira Grande, uma das maiores dos Açores, conhece a vila por dentro e por fora.

Aos 60 anos, Maria do Céu Gonçalves Estrela leva já quase 50 de trabalho em Rabo de Peixe. Começou como catequista, aos 11, para chamar as crianças como ela para a escola, e depois tornou-se professora de 1.º ciclo, sempre envolvida em projectos de educação das mulheres. Eleita há três anos pelo PS, Gonçalves Estrela dirige uma comunidade com nove mil habitantes, 35% dos quais com menos de 18 anos, precisa. O desemprego, para os quais não tem números actualizados, está a deixá-la “em pânico”: “A pesca está muito mal, a agricultura, quase toda mecanizada, já não exige praticamente mão-de-obra, e a construção está parada. Muitas destas pessoas já não têm como sobreviver sem o Rendimento Social de Inserção [RSI].”

Na freguesia, segundo a Secretaria Regional do Trabalho e Solidariedade Social, há 462 famílias a receber RSI (dados de Agosto). É preciso não esquecer, lembra a autarca, que poucas são as famílias que têm apenas dois filhos e que é comum passarem dos cinco. Foi o RSI, garante, o responsável pelo recuo no abandono escolar nos últimos anos (se as famílias abrangidas não mandarem os filhos à escola é-lhes retirado o apoio) e, por consequência, no trabalho infantil (a secretaria regional assegura que nos últimos cinco anos não há registo de trabalho infantil em S. Miguel).“Há problemas que se mantêm, como a toxicodependência ou a gravidez adolescente.

Para os combater, é preciso mudar as mentalidades, o que é muito difícil e requer tempo. Para mudar uma cultura, são precisas pelo menos três gerações.” Projectos como o da escola de música e da orquestra Oi Jazz são, para Gonçalves Estrela, peças essenciais neste processo de mudança. “Não basta termos o EFTA [European Fair Trade Association, fundo que envolve países extracomunitários como a Noruega e a Islândia] a investir mais de 20 milhões de euros em equipamentos sociais em Rabo de Peixe [2004-2010]. Eles são importantíssimos, é claro, mas é preciso que as pessoas se envolvam e é por isso que esta escola é uma mais-valia imensa para a população.”

Diz Gonçalves Estrela que a comunidade se sente a “menina dos olhos” da orquestra e que acolheu muito bem os ensaios de rua no Verão. O primeiro, lembra, foi no bairro dos pescadores, ao anoitecer: “Foi emocionante. De repente, as pessoas começaram a aparecer, muito curiosas. Vinham de roupão, chinelos, pijama... E ficaram.” Mas, para que a escola e a orquestra possam continuar o seu trabalho, precisam de crescer, defendem professores e alunos, precisa de chegar a mais miúdos e de dar um salto qualitativo.

Ana Almeida, do Teatro Micaelense, gostava que uma equipa de investigação universitária agarrasse neste projecto de Rabo de Peixee estudasse o seu impacto real na comunidade, para que todos os intervenientes e potenciais mecenas privados, algo que a escola procura neste momento, possam vir a ter uma noção mais fundamentada do seu valor em termos sociais.

“Uma coisa é dizermos que a música é importante para fazer deles pessoas mais responsáveis, mais válidas para a família, a comunidade... Outra coisa é demonstrarmos através de um estudo”, diz a responsável do serviço educativo do teatro de Ponta Delgada, através do qual a Secretaria Regional da Educação, Ciência e Cultura atribuiu este ano à Escola de Música de Rabo de Peixeum financiamento de 47 mil euros (29 mil para pagar a professores, os restantes para despesas correntes e de actividades).

“Os miúdos vêem a escola de música como uma cama fofa. Sabem que há regras e disciplina, que tocar numa orquestra exige saber ouvir e saber esperar, mas também sabem que aqui as pessoas se preocupam com eles a sério. É um espaço de braços abertos que tem de estar constantemente a desafiá-los a fazer mais e melhor.”É precisamente para os desafiar que Pedro Moreira e Paula Oliveira têm vindo a visitá-los com alguma regularidade e estão em Rabo de Peixea mês e meio do concerto.

Quando trabalham nos workshops do Micaelense (2007, 2009 e 2011), que incluem jovens músicos de toda a ilha, sentem mais a pressão porque têm de os preparar para um espectáculo em pouco tempo. Com os Rabo de Peixeé diferente porque conhecem alguns dos miúdos da orquestra e do coro há anos e sabem o que a escola já fez por eles. César, por exemplo, era tão indisciplinado que esteve quase a ser expulso e hoje é um dos elementos mais dedicados, passa tardes inteiras a ensaiar no Miramar e está sempre atento aos mais pequenos que querem começar a aprender bateria. 

Dias intermináveis
No palco do Miramar, às dez da manhã, Pedro Moreira está imparável. Obriga-os a fazer escalas e a ler pautas, coisa que muitos não gostam de fazer. “Não está bem, repete”, diz vezes sem conta. Está ali para puxar por eles, para ser exigente, e isso nota-se. “O nosso papel — meu, da Paula, do Carlos, do Rodrigo e dos outros professores — é dizer-lhes que podem ser mais, que podem querer mais. Mas sem condescendência. Não quero que se olhe para esta orquestra e que se diga que é boa, tendo em conta que vem de Rabo de Peixe. Quero acabar com essa conversa. Quero que se diga que é boa porque é boa”, defende o saxofonista de 43 anos. Moreira sabe que a vila é sempre associada a pobreza, droga e violência, mas garante que não é só por isso que é “fantástico” que, de repente, haja ali aquela orquestra de miúdos a tocar standards de jazz.

“É sempre bom, em qualquer sítio, ver a música fazer parte da educação. Se tivéssemos um país de amadores de música, teríamos melhores orquestras profissionais e melhores públicos. Precisamente porque um amador é, por definição, aquele que ama a música.”

A experiência de Moreira, como músico e como professor, leva-o a dizer que orquestras como a Oi Jazz precisam de mais tempo para crescer e manter um patamar de qualidade. Por agora, ainda funciona por picos: “Há levas de miúdos que chegam que são boas, e depois outras que são mais fracas.” Daqui para a frente, adverte, o grande desafio da orquestra passa por elevar o nível, mas também pela sobrevivência em clima de crise: “Portugal vive muito do efeito novidade das coisas e a Oi Jazz tem de enfrentar esse risco da banalização. É um projecto único no país, pelo menos que eu saiba, e merece continuar. Há miúdos, como o Luís [Senra], que têm um talento invulgar para a improvisação, mas para que a maioria ganhe ferramentas que lhe permita ir mais longe é preciso um trabalho sustentado. Tenho a certeza de que daqui a dez, 15 anos o nível vai estar mais alto.”

Para alguns dos alunos, estar na orquestra significa ir contra a vontade dos pais ou ter dias que parecem não acabar. Rodrigo Reis, que dirige uma escola com 2400 alunos e 220 professores, que está no penúltimo lugar do ranking nacional dos exames do 9.º ano (em 1320 escolas) apesar dos esforços, está habituado ao desinteresse dos pais: “Muitos destes alunos fazem da rua a sua casa, não reconhecem autoridade no pai e na mãe. Até mesmo aqui na orquestra — 70% dos pais destes miúdos nunca vieram vê-los tocar.”

É o caso do pai de Hugo Laranjo, 18 anos, o guitarrista atlético e de sorriso doce. Faz surf e natação, deixou de estudar no 9.º ano, contrariado, para ajudar a família na pesca. Dizem alguns dos amigos que o pai não gosta que ele aprenda música e que até já lhe partiu uma guitarra, mas Hugo não fala nisso. Estar na Oi Jazz é uma das formas que tem de estar com os amigos e de fugir a uma rotina pesada. É um daqueles pescadores que trabalham em terra porque enjoam no mar. Levanta-se todos os dias às duas da manhã para preparar as armadilhas que o pai e o irmão mais velho levam para a pesca numa garagem sem janelas, com um cheiro intenso por causa do isco. Nas paredes há matrículas do Canadá, país em que os pais estiveram emigrados e de onde foram obrigados a regressar depois de um acidente na construção civil.
 

Vidas a improvisar
O trabalho de Hugo só termina lá para as quatro da tarde, já depois de a família regressar da faina. Vai para casa tomar um duche e comer, para sair em seguida em direcção ao clube onde faz natação entre as 18h30 e as 20h30. Nos dias em que há ensaio, às 21h já tem de estar no Miramar, onde fica até às 23h, às vezes mais. “Regresso às onze e tal da noite, janto, e vou para a cama para me levantar depois às duas da manhã e recomeçar.” Nos fins-de-semana pega na prancha que lhe ofereceu um amigo do irmão e vai até à praia de Santa Bárbara. “Gostava de estudar”, diz, “e tenho o sonho de ser piloto da Força Aérea, mas sei que já vou tarde”. Para ele, a Oi Jazz é um espaço de liberdade em que é possível falar com adultos, sem gritos, recriminações ou violência. Gosta de ouvir heavy metal e rock e tem em César um dos seus maiores amigos. Querem formar uma banda e conhecer mundo a tocar.

Luís Senra também. Aos 22 anos, está já envolvido em muitos projectos, actua em várias formações, em bares e festivais. Está no 7.º grau do conservatório de Ponta Delgada (já só faltam dois para terminar) e trabalha numa cadeia de fast food ao mesmo tempo, enquanto o saxofone ainda não dá para ganhar dinheiro suficiente. A irmã, Joana, está no coro da escola de música, dirigido por Rita Resende. Escolheu o saxofone, diz, “porque o instrumento é bonito e tem um som imponente”. A academia de Rabo de Peixepermitiu-lhe entrar para o conservatório logo no quarto grau e o jazz abriu-lhe a cabeça a todos os outros géneros. “Escolhi o jazz porque não é só preciso um papel para fazer música. Tem a ver com as pessoas em particular, com aquilo que sentem, com o seu estado de espírito. Por ser tão forte como forma de expressar os sentimentos é que é importante. No jazz devemos sempre tentar tirar o som que nós queremos. Não há o som correcto, a nossa opinião também conta.”

É por ter mais ferramentas que Luís é dos poucos a acharem que improvisar é tarefa fácil: “A improvisação não é difícil. O que pode ser difícil é abrir a nossa cabeça às ideias e tentar perceber que o que temos de fazer é criar uma melodia. Às vezes as pessoas podem sentir mais dificuldades porque não têm tanta técnica ou porque não têm uma abertura musical tão grande, mas é como eu digo: é fechar os olhos e deixar sair a música.” É pelo menos o que faz César Cabral. Ler pautas não é com ele e é por isso que Moreira e Carlos Mendes lhe chamam “máquina”. “Ele apanha tudo muito depressa, só de ouvido”, reconhece o maestro.

César e Luís, tal como Fabiana Couto, um dos três elementos femininos da orquestra, não têm dúvidas de que a Oi Jazz pode fazer muito pela imagem da vila onde vivem. Entristece-os que Rabo de Peixeseja conhecida pela violência, a droga, o desemprego e o RSI, e atribuem o que de pior existe na freguesia a um “problema de mentalidades”. “A qualquer lado que se vá, Rabo de Peixetem sempre muito má fama”, reconhece Fabiana. “Ou porque há muita droga, ou porque há roubos e crianças que andam pela rua. Acho que não deve ser visto só assim porque todos os sítios do mundo têm as suas coisas positivas e negativas.” Luís acrescenta: “A vila tem muitos problemas, é verdade, mas diria que o principal é a mentalidade. As pessoas olham muito para si. E depois, claro, os problemas com a droga, o analfabetismo, a gravidez na adolescência. Isso passa muito no noticiário. Mas esses problemas têm tudo a ver com a mentalidade.”

Para o jovem saxofonista, a escola de música pode ajudar muito a mudar as coisas. “Quando toca jazz, a orquestra não está a formar apenas músicos, está a formar pessoas. Tudo isto influencia a maneira como se vive fora da academia. Primeiro começa-se na orquestra e depois traz-se a orquestra cá para fora e faz-se o mesmo trabalho com a família, os amigos e o resto da sociedade. Aprendi na academia a cooperar, aprendi que não se toca sozinho, por melhores que sejamos individualmente. Os conceitos básicos da música podem adaptar-se à sociedade em geral.”

Fabiana toca flauta transversal há oito anos e integra também várias bandas da ilha. No início, os pais não compreenderam a sua inclinação para a música. Hoje aceitam, mas sem grandes entusiasmos. Fabiana diz que a orquestra fez dela uma pessoa diferente: “Sinto-me um caso à parte porque não sou daquelas que ficam em casa sem estudar, à espera dos namorados. Sinto que tanto a orquestra, como as bandas, me deram outra perspectiva das coisas. Se não tivesse começado a tocar, talvez não tivesse aquela vontade de estudar para ser alguém, talvez tivesse ido pelo mesmo caminho de algumas amigas, que deixaram a escola e foram mães aos 15 ou 16 anos.”

Fabiana já quis ser flautista ou actriz, mas agora está mais virada para a Psicologia e pensa em estudar em Lisboa. Todos gostavam de ver a Oi Jazz crescer e evoluir para um patamar superior — mais alunos, mas também mais exigência — que lhe permitisse interpretar um reportório mais complexo, saindo da ilha para participar em festivais, coisa que nunca fez.

Para Rodrigo Reis e Carlos Mendes, o desafio passa primeiro por levar os alunos mais velhos a tornarem-se dinamizadores da própria escola. “Ainda estamos muito longe do sucesso social que pretendemos”, reconhece o maestro. “Esse sucesso passa por ver os alunos que estão connosco desde o início a lutar por isto ao nosso lado, a ensinar os mais pequeninos. Rabo de Peixeestá cheio de projectos sociais sem resultados. Este não pode ser um deles. A orquestra já tem credibilidade, mas tem de ser também um agente de mudança na vida destes miúdos.”
 

Pagar os instrumentos
Um dos saxofonistas, com 14 anos, foi há dias para a Casa do Gaiato, conta Mendes com tristeza. Perdeu-se nas férias grandes e andava a dormir debaixo de um barco para não ir a casa. “É por esses mais difíceis que estamos aqui. Gostava que ele continuasse a vir à orquestra. Aprendeu a ler música em três meses e vê-se que gosta de tocar.”


Muitos têm dificuldade em cumprir horários, outros são impedidos de ir aos ensaios como castigo por terem feito um disparate qualquer. Quando entram na adolescência, muitas das alunas deixam de aparecer porque os namorados não gostam, explica Rodrigo Reis. Hugo, o nadador, não compreende a atitude desses rapazes: “O que é que lhes passa pela cabeça para achar que podem mandar na vida delas? Eu não faço isso. Nem a minha namorada deixava que eu fizesse. Eu quero é que ela esteja feliz e se, para isso, tiver de fazer coisas sem mim, não me importo.” Socialmente, explica o director da escola, a comunidade aceita bem que uma adolescente seja mãe. “A maternidade ainda é vista como o destino primeiro da mulher. Muitas vezes ainda são os homens que decidem por elas.”

Se há alunos dedicados, como César e Luís, outros há que é preciso convencer a não faltar. Noutras alturas, Moreira já foi com Mendes buscar alguns ao porto, onde estavam a mergulhar à hora do ensaio. Aos concertos é que raramente faltam. No sábado à noite, a orquestra foi convidada a tocar numa festa de aniversário de Ponta Delgada e todos se concentraram frente ao Miramar, entusiasmados. À chegada à cidade, o cenário que a revista 2 encontra — um jantar formal, numa estufa envidraçada no meio de um jardim — faz lembrar os serões burgueses de alguns romances do século XIX. O aniversariante gosta de jazz e a mulher quis fazer-lhe uma surpresa e, ao mesmo tempo, ajudar a orquestra — para pagar o concerto, basta oferecer à escola de música de Rabo de Peixeum instrumento (um saxofone de iniciação pode custar 1200 euros e uma flauta transversal, 500).

“A maioria dos miúdos não tem como comprar os seus próprios instrumentos e nós temos de procurar formas alternativas de financiamento. Por isso criámos este programa ‘Um concerto, um instrumento’”, explica Rodrigo Reis, acrescentando que o Micaelense está a concorrer a programas paralelos para que seja possível comprar mais clarinetes, saxofones e trompetes, como o que Iuri Pereira leva para casa para ensaiar e quase enlouquecer os pais e os avós. Toca em todo o lado e a toda a hora, garante a mãe, Rita, 36 anos, operadora de caixa desempregada: “Vai para a varanda, para o quarto e o quintal, liga-se ao computador para procurar os músicos de jazz de que ouviu falar na orquestra e põe a tocar. Como são estrangeiros, muitas vezes os professores escrevem-lhe os nomes num papel.”

O quintal tem batata-doce, hortênsias, rosas e oraçais, uns frutos com um cheiro parecido com o do maracujá, mas mais ácidos. É lá também que dorme Max, o pastor alemão que já se habituou ao seu trompete. Iuri é ainda tímido, mas muito decidido para quem tem dez anos. Está na Oi Jazz, mas ainda tem pendurada no armário a farda da Lira do Norte, que deixou para integrar a orquestra, com muita pena do pai, que chegou a tocar na banda do Pico da Pedra, uma freguesia próxima. “O jazz não é uma música esquisita. Eu gosto de tocar e de aprender. Só não gosto de ler nas pautas… Ainda não sei”, diz. Os avós olham para ele com orgulho. Maria de Fátima e Manuel Oliveira são casados há 38 anos. Manuel sabe de cor o dia em que ela lhe disse sim, e garante que foi ele quem saiu a ganhar com o negócio.

“Temos muito medo que eles se percam em coisas más”, admite Rita Pereira. “Na orquestra há respeito, os miúdos mais velhos ajudam os mais pequenos como o Iuri. Quando não vai por estar doente, vêm ter comigo e perguntam por ele, sentem-lhe a falta.”

Luís Senra, 48 anos, é porteiro na escola Rui Galvão de Carvalho e pai do saxofonista que está quase a acabar o curso do conservatório. Também tocou numa banda durante dez anos, a Lira do Norte. Quando a revista 2 chega a sua casa, na Alameda do Bom Jesus, que está cheia de crianças a brincar em bandos, está a navegar na Internet para mostrar a filha Joana a cantar num concerto do coro. Viveu sempre num raio de um quilómetro quadrado e gosta de morar no bairro, onde há uma família com 21 filhos. “Eu sei sempre onde os meus andam. Se tivesse 21, era diferente…”, diz. Sabe que tem em casa “uns miúdos responsáveis” que se apaixonaram pela música e que os fazem, a ele e à mulher, muito felizes. Não perdem um concerto da orquestra. “Se o Luís quer seguir música, que siga. Fico contente. A orquestra ajudou-o a escolher, a tomar decisões, a crescer.”

Também a cantora Paula Oliveira reconhece que alguns dos alunos do coro cresceram. Emita-lhes o sotaque, brinca com as notas, pede-lhes que cantem “meiguinho”. Corrige Ângela, uma das solistas, mas olha-a com orgulho. “Ela já conseguiu tanto”, sublinha. “É bom podermos valorizá-los através da música. Alguns destes miúdos fazem um esforço incrível para estar aqui. Querem vir no seu melhor. Hoje soube que uma menina pediu roupa emprestada para o ensaio…”

O trabalho de Paula Oliveira e Pedro Moreira com a Oi Jazz é exigente, mas para ambos altamente compensador. “Errar faz parte do jazz — uma das suas belezas é, aliás, permitir o erro”, garante o saxofonista a meio de um dos ensaios. “Dexter Gordon, John Coltrane, Miles Davis e outros virtuosos da história do jazz também erravam e alguns dos seus erros ficaram gravados em discos que são dos que mais amamos. O que temos de fazer é transformar o erro numa coisa musicalmente melhor.” Para miúdos que não estão habituados a ouvir um adulto dizer-lhes que errar pode ser bom, as palavras de Pedro Moreira são quase uma revelação. Tal como se descobrirem músicos no palco do Micaelense, no próximo sábado, quando a orquestra estiver a tocar Blue Train de John Coltrane.