Abrigo da criança do Lapedo prestes a ser monumento nacional

Esqueleto descoberto em 1998, perto de Leiria, suscitou grande debate científico sobre o relacionamento entre humanos modernos e Neandertais. Local onde estava sepultada a criança do Lapedo vai ser classificado.

O esqueleto da criança do Lapedo ainda na sua sepultura, durante a escavação
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O esqueleto da criança do Lapedo ainda na sua sepultura, durante a escavação David Clifford/Arquivo

Há 24.500 anos, uma criança foi sepultada cumprindo um ritual cuidadoso, no Vale do Lapedo, perto de Leiria. Foi enterrada numa sepultura purificada pelo fogo e embrulharam-na numa mortalha, sem que faltassem oferendas, nem ocre vermelho. Em Dezembro de 1998, os trabalhos de uma retroescavadora que abria uma estrada no vale puseram os ossos a descoberto, que hoje são conhecidos mundialmente, ou não fosse o único esqueleto quase completo de uma criança do Paleolítico Superior – e agora é o abrigo onde estava a sepultura que está prestes a ser classificado como monumento nacional.

O anúncio da classificação está no Diário da República de 20 de Novembro e, depois do processo de consulta pública durante 30 dias, será publicado o diploma com a classificação efectiva. A categoria de monumento nacional é a mais alta na classificação de bens culturais, sublinha, em comunicado, a Câmara Municipal de Leiria, que há 12 anos fez o primeiro pedido nesse sentido.

Elaborado pelo Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (Igespar), o processo de classificação cria duas áreas de protecção. No Abrigo do Lagar Velho, o lugar resguardado onde a criança foi sepultada, não será possível construir nada, enquanto a área contígua do vale, considerada com grande potencial arqueológico, será uma zona especial de protecção (ZEP).

“Face à sensibilidade arqueológica do sítio a classificar, toda a área é zona non aedificandi,onde apenas serão autorizados trabalhos de investigação”, lê-se no Diário da República. “Relativamente à ZEP, a qual corresponde ao Vale do Lapedo (...), todas as intervenções com impacto no subsolo deverão ter diagnóstico arqueológico prévio (sondagem ou escavação em área)”, acrescenta-se.

Um esqueleto no centro do debate

A criança do Lapedo tinha quatro anos quando morreu. Era da nossa espécie, o Homo sapiens, ou homem moderno. Pouco depois da descoberta do seu esqueleto, esteve no centro de um debate aceso sobre evolução humana. Há 24.500, os Neandertais já se tinham extinguido, tendo tido como último reduto a Península Ibérica, e a grande questão, ainda por resolver em 1998, era se eles e nós nos tínhamos cruzado do ponto de vista reprodutivo. Fizemos amor e tivemos filhos, ou fizemos a guerra?

A equipa que estudou a criança do Lapedo defendia que o esqueleto apresentava alguns traços morfológicos dessa mistura no passado entre Neandertais e humanos modernos, o que suscitou muita divergência de pontos de vista. Desde então, os avanços na tecnologia de sequenciação do genoma encarregaram-se de ajudar a esclarecer o debate: sim, temos um bocadinho de Neandertal dentro de nós. Tanto o nosso genoma como o dos Neandertais foi entretanto sequenciado.

A memória dos tempos em que aquela criança viveu e morreu encontra-se preservada, desde 2008, no Centro de Interpretação do Abrigo do lagar Velho (pode ser visitado por marcação prévia). O clima começou a arrefecer em Portugal há 35 mil anos e o pico máximo de frio da última glaciação deu-se há 18 mil anos. A frente polar passava ao largo da Estremadura, pelo que o vale do Lapedo servia à criança e a grupos de humanos modernos como refúgio para o frio.