Merkel quer encorajar reformas e soluções com visita a Portugal

Chanceler aplaude os esforços de Portugal
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Chanceler aplaude os esforços de Portugal Kai Pfaffenbach/Reuters

Merkel chega nesta segunda-feira a Lisboa para uma visita de um só dia. Vai encontrar-se com Cavaco e Passos Coelho. Leva consigo alguns dos maiores empresários da Alemanha e um discurso mais suave do que no início da crise. Agora, acredita em Portugal.

Manifestar apreço pelos esforços desenvolvidos por Portugal para reformar a economia, escutar as ideias dos responsáveis nacionais sobre a resolução da crise da dívida europeia e quebrar o isolamento da Alemanha: estes são os grandes objectivos da visita da chanceler alemã, Angela Merkel, nesta seguda-feira a Lisboa.

A deslocação — durante a qual Merkel se encontrará com o Presidente, o primeiro-ministro e uma embaixada de grandes empresários — enquadra-se nos contactos intensos e visitas da chanceler a vários países, sobretudo os que desenvolvem maiores esforços em termos de reformas económicas e redução do endividamento, e que a levaram à Grécia, há pouco mais de um mês, pela primeira vez desde o início da crise da dívida.

Em Atenas, Merkel disse que a visita foi efectuada enquanto “boa amiga e boa parceira” e não para dar lições, como a Alemanha é frequentemente acusada. A chanceler tem, aliás, tido o cuidado de suavizar o discurso estrito que utilizou relativamente aos países mais endividados no início da crise do euro, substituindo-o agora por manifestações de compreensão pelos esforços e di?culdades sentidas pelas populações afectadas pelo aperto da austeridade.

Essa foi a mensagem que transmitiu na entrevista que deu à correspondente da RTP em Berlim.

A suavização do discurso acompanha uma ?exibilização das exigências dos responsáveis europeus relativamente ao cumprimento das metas para a redução do dé?ce orçamental nos países em derrapagem. Esta ?exibilidade visa antes de mais a Espanha, que está longe de conseguir cumprir a meta de 5,3% do PIB ?xada para o dé?ce deste ano devido a uma recessão económica mais acentuada do que o previsto.

Em Lisboa, Merkel quer também debater as ideias que tem vindo a explicitar para resolver as lacunas da arquitectura da moeda única europeia e que, em sua opinião, estão na origem da crise da dívida.

A chanceler defende que os Estados deverão transferir novos poderes para as instâncias europeias, nomeadamente em termos de controlo dos orçamentos para evitar derrapagens, a par das políticas fiscal e relativas ao mercado de trabalho. Estas transferências de soberania são, do ponto de vista de Berlim, o requisito prévio para poder aceitar novas formas de solidariedade entre os países do euro, como a emissão de dívida pública em comum para baixar os seus custos de financiamento no mercado.

Oposição sem expectativas
A visita da chanceler não cria expectativas positivas entre a oposição. O líder do PS, António José Seguro, disse ao PÚBLICO que “gostava era que Merkel se comprometesse com uma política de conciliação da disciplina orçamental com o crescimento económico”. O que “está a ser feito é um disparate”, diz.

Para Seguro, “só com desenvolvimento económico” o país pode sair da crise. E remata: “Os números dão-me razão, os dados das exportações mostram a queda.”

O deputado Jorge Machado do PCP sublinha que a chanceler “não representa a cooperação entre os povos” e a deputada do BE Cecília Honório diz que é “grotesca a ideia de que Merkel vem abrir os cordões à bolsa ou aliviar a situação portuguesa”.