Paulo Pimenta
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Paulo Pimenta

Otto: associação de jovens criada no "melhor momento"

Participantes realizam trabalho voluntário. “É das poucas formas de se fazer alguma coisa agora”, afirma Tiago Moreira, actor

A Otto nasceu em 2012 para Luís Araújo e Ricardo Braun terem um espaço de liberdade criativa. O primeiro trabalho, apresentado no Porto esta quarta-feira, 19 de Setembro, é a peça “Katzelmacher”, que, entre outros temas, fala da xenofobia. Para os actores participantes, o receio de um estrangeiro substituir um aborígene num emprego é compreensível em tempo de crise. E para os criadores da Otto, essa crise não pode ser “desculpa” para não se fazer nada.

 

Luís Araújo e Ricardo Braun ainda não conseguem definir o grupo. “Para já estamos a aproveitar o tempo em que não sabemos, em que ainda pode ser tudo”, revela Ricardo, arquitecto de 26 anos.

 

Não há definição, mas há uma razão para o seu aparecimento. “Criei a Otto em Julho para poder fazer aquilo que quero como criador”, conta Luís Araújo, de 28 anos, que divide o tempo entre a associação e outros trabalhos que tem como actor.

 

Hoje, a Otto é formada por 16 pessoas e a sua primeira produção é a peça de teatro “Katzelmacher”, uma adaptação da obra de Rainer Werner Fassbinder.

 

A realização deste trabalho só foi possível com apoios de várias instituições. Mas, apesar das dificuldades, os responsáveis garantem que “não poderia haver um momento mais certo” para criar a associação, ao contrário do que as pessoas lhes aconselhavam. “Muitas vezes, as épocas de crise são uma desculpa fácil para o marasmo e para a desistência”, critica Luís Araújo.

 

Jovens não podem estar parados

Para Luís Araújo, a juventude dos fundadores da Otto não foi mais um obstáculo à concretização desta ideia. “Não acredito que isto fosse mais fácil se nós tivéssemos 36 anos”.

 

Aliás, a pouca idade das pessoas envolvidas, incluindo dos 11 actores que participam em “Katzelmacher”, pode ser uma vantagem. “O Porto cheira a naftalina. É preciso sangue novo. Há tantas vontades aqui juntas a querer mostrar coisas”, defende um dos actores, Sérgio Sá Cunha, de 22 anos.

 

Esse ambiente de juventude também é um aspecto positivo para o actor Afonso Santos, de 25 anos, pois acredita que tal possibilita uma visão diferente. “Acho que ainda não sabemos o que é possível e o que é impossível. E ainda bem, porque assim não estabelecemos regras. Nós aqui estamos livres”.

 

As dificuldades no mundo das Artes explicam-se, afirma Luís Araújo, pela falta de apoios, “de noção do que se faz, de como se faz, e da qualidade”. “Não há olhos suficientes para ver as coisas que se fazem pelo país”, lamenta, referindo que há muitos profissionais a trabalhar nas mesmas condições.

 

Com excepção de Marta Cunha, os restantes actores têm formação artística e alguns têm empregos que não estão relacionados com as artes. Nenhum vai ser remunerado por participar na peça levada a cena pela Otto, mas, como afirma Tiago Moreira, recém-licenciado de 21 anos, “é das poucas formas de se fazer alguma coisa agora”. “Quando não há apoios, o importante é mexermo-nos. Se não, ninguém vê o nosso trabalho”, acrescenta Adriana Vaz de Carvalho, com 22 anos e também acabada de sair da faculdade.

 

Obra é intemporal

A xenofobia é o tema central de “Katzelmacher” (ver fotogaleria), que retrata a Alemanha dos anos 60 vivida por pessoas com relações e hábitos mais ou menos disfuncionais, que se alteram com a chegada de um emigrante grego.

 

Já muitos perguntaram a Luís Araújo e Ricardo Braun se a escolha desta obra está relacionada com a actual situação europeia, mas Luís Araújo garante que não. “Vai ser difícil fugir ao facto de ser 10 alemães contra 1 grego”, admite o dramaturgo. “Mas a actualidade veio ter connosco depois de já termos vontade de fazer a peça”, assegura.

 

Para os responsáveis e os actores envolvidos, este é um tema intemporal. “Com a crise que estamos a viver, acho que cada vez mais as pessoas acusam quem vem de fora para trabalhar cá”, constata Adriana Vaz de Carvalho.

 

Mas, na sua maioria, os actores compreendem “o ódio das pessoas”. Adriana admite que se estivesse numa situação financeira má, poderia sentir “esse ódio”. “Nunca o iria transformar o ódio em ataque”, ressalva. “Mas não acho que sejam assim tão monstrusos. As pessoas têm de sobreviver”.

 

Afonso Santos revela que se identifica com todas as personagens porque a história não trata, apenas, da xenofobia, mas também dos sentimentos mais básicos que um ser humano pode ter. “Por exemplo, quando chega um elemento exterior, atinge a virilidade” das personagens masculinas.

 

“Katzelmacher” pode ser vista no Lófte, no Porto, a partir desta quarta-feira, 19 de Setembro, e até dia 30. O preço do bilhete é de 5 euros.

 

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