Centro de recuperação do lobo ibérico em risco de ficar sem casa

Faia apareceu junto às vedações, por breves instantes
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Faia apareceu junto às vedações, por breves instantes Rui Gaudêncio

Em 2013, quem quiser visitar o Centro de Recuperação do Lobo Ibérico de Mafra pode já não ter sorte. Um projecto único está em risco de perder a sua "casa", tal como aconteceu aos animais que procura recuperar.

O espaço ocupado pelo Centro de Recuperação do Lobo Ibérico (CRLI), descrito como a "Cova" por Francisco Fonseca, presidente do Grupo Lobo - Associação para a Conservação do Lobo Ibérico e do seu Ecossistema, não se diferencia em muito da forma das tocas dos lobos, a não ser nas suas proporções.

Ao longo de 25 anos, estes 17 hectares escavados na superfície terrestre, situados no Gradil, concelho de Mafra, já deram abrigo a "dezenas de animais". "Alguns chegaram em muito mau estado, quer físico, quer mesmo comportamental", descreve Francisco Fonseca.

Neste momento, vivem ali em cativeiro oito lobos, quatro dos quais nasceram no local. Os restantes provêm de situações de cativeiro ilegal em Portugal e Espanha. ""Sabor", "Faia", "Soajo", são alguns dos nomes dos lobos do centro, mas não nos preocupamos muito com isso", conta. O terreno, que nos anos 70 era uma quinta agrícola, está hoje coberto de sobreiros, carvalhos, azinheiras e tem alguns edifícios de apoio ao centro. "É tudo trabalho dos voluntários", acrescenta o presidente do Grupo Lobo.

Joana Pereira tem 20 anos e é uma das voluntárias do CRLI. Estuda Biologia na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e este Verão tirou 15 dias das suas férias para fazer trabalho voluntário no centro. Agora está a envernizar o suporte de um placar de informações, mas podia estar também a participar nas limpezas, a alimentar os animais e a ajudar na vigilância dos incêndios florestais.

A melhor experiência que já teve no CRLI, diz sem hesitar, foi “ver a Faia e as suas três crias a alimentarem-se. Foi mesmo engraçado”.

Quem vai visitar o centro a pensar que ali vai encontrar um jardim zoológico, engana-se, mas por boas razões. Vai ter direito a uma banda sonora biológica constante, uma caminhada desafiante por terra batida, mas menos certezas quanto à observação de lobos.

Ainda assim, decide "Faia" aparecer durante uns breves cinco minutos junto às vedações, com a cauda entre as patas traseiras, em sinal de medo ou desconhecimento de alguns cheiros. Ao mesmo tempo, as duas crias espreitam ao fundo, no meio de alguma vegetação rasteira, sendo quase impossível distingui-las a olho nu.
A dimensão do espaço do habitat de cada lobo permite que estes, muitas vezes, nem sejam vistos, ficando assim mais resguardados de interferência humana.

"Não temos aqui os animais para os exibir. Eles estão cá e trazemos as pessoas para os verem, mas também procuramos ter condições o mais próximo do estado selvagem", diz Francisco Fonseca. "Procuramos que cada visita que fazemos não ultrapasse as 20 pessoas por hora e se fizermos visitas de manhã não fazemos durante a tarde. Isto para que a perturbação para os lobos seja mínima."

Excepcionalmente, quando vem uma escola estes limites têm de ser um pouco alargados. Devido aos efeitos da crise, porém, vêm actualmente muito menos e enquanto antes podiam enviar 20 alunos num dia e 20 noutro, agora vêm todos juntos. No entanto, "as crianças são as que acham mais piada e são mais compreensivas quando não conseguem ver os animais".

Enquanto Francisco fala entusiasmado, vê-se ao fundo um conjunto de colmeias, que pertencem a um antigo guarda-florestal e que o grupo decidiu manter no local.

O grupo Lobo surgiu em 1985 pela paixão e preocupação de um grupo de amigos para com esta espécie. "Em 1987, nós [Grupo Lobo] sabíamos que ia sair uma nova lei proibindo ter lobos em cativeiro. Até participámos na sua elaboração", informa Francisco Fonseca. "Mas também sabíamos que no nosso país sempre houve lobos em cativeiro e caso não houvesse um sítio para eles irem, acabariam por ser abatidos." O centro do Gradil foi a resposta do grupo para esta lei, pois "era necessário um local para dar um bom resto de vida a estes animais."

Um cidadão inglês que na altura vivia no local ofereceu os terrenos. "Foi uma questão de acaso. Se tivéssemos encontrado algo no Alentejo ou na Covilhã, o projecto ter-se ia desenvolvido naquele local", explica Francisco Fonseca.

São precisos 206 mil euros

Passados 25 anos, os lobos correm agora o risco de ser "despejados" da sua segunda casa. Nestas duas décadas e meia os terrenos foram cedidos sem qualquer custo. Porém, no início deste ano, o proprietário actual comunicou aos responsáveis pelo projecto que teriam de partir se não comprassem o terreno.

Não desistindo do local, conseguiram chegar a um acordo com o proprietário por forma a pagar o preço em cinco prestações anuais de aproximadamente 30.000 euros. Alguns particulares, amigos do grupo, emprestaram o dinheiro para a primeira prestação, garantindo a permanência do projecto no local, pelo menos durante este ano.

"Está aqui muito empenho, muito esforço, muitos voluntários. Estamos a comprar o terreno, porque não temos hipótese de sair daqui. Vai ser muito difícil recomeçar tudo mesmo que alguém nos ofereça um novo terreno", afirma o presidente do grupo, adoptando uma expressão mais pesada e rígida.

Para tentar manter a "Cova", a associação lançou, há duas semanas, uma campanha de angariação de fundos através de uma plataforma online, onde tenta obter 206.000 euros até 28 de Setembro. Desse montante, 150.000 são para o terreno. Até agora, a associação já conseguiu cerca de 15.000 euros, equivalentes a metade de uma prestação anual, através das doações de 411 apoiantes.

Francisco Fonseca afirma que o grupo tem consciência de que é possível não alcançar o valor total, mas confessa que já têm mais alternativas para angariar fundos, não desistindo de manter o centro no local, pois "o espaço já faz parte do espírito do grupo."

"Já andámos a ver várias alternativas, mas ainda estão a ser discutidas em direcção. O que posso garantir é que 80% do nosso esforço é para ficar aqui. Tudo que estamos a ver agora e nos envolve foi construído ao longo de 25 anos", sublinha.

"Enquanto nos mantivermos neste balanço, não podemos dar resposta a mais pedidos de ajuda. Não podemos dizer às pessoas para aguentarem ali os lobos", acrescentou. Apesar dos difíceis prognósticos para o futuro ainda existem ideias para o "pós -crise", como a construção de um passadiço para pessoas portadoras de deficiência.

Nas redes sociais vários músicos portugueses têm-se pronunciado para manter a "casa" do Lobo Ibérico. David Fonseca, Moonspell, Ana Bacalhau, Uxu Kalhus, entre outros, já manifestaram o apoio à causa. Interrogado sobre a possibilidade de um concerto de música para angariação de fundos, Francisco Fonseca confessou que "é uma das opções que está em cima da mesa."