Lucros do BES caem 85,7%

Ricardo Salgado: "Os mercados estão descontrolados"

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Ricardo Salgado apresentou resultados Rui Gaudêncio

“Ficámos todos [no BES] surpreendidos” com as buscas do Ministério Público ao BESI, no quadro das privatizações da EDP e da REN, contou hoje Ricardo Salgado, presidente do BES, durante a apresentação das contas semestrais do grupo, onde revelou lucros de 25,5 milhões de euros, uma queda de 85,7% face ao mesmo período anterior. O banqueiro disse estar confiante que Portugal regresse aos mercados já em 2013, pois há boas notícias do lado da consolidação orçamental e “temos o Ministro das Finanças mais rigoroso dos últimos anos”.

“Ficámos todos surpreendidos com o que aconteceu. A actividade do BESI e de todas as empresas do grupo sempre é pautada pelos mais estritos princípios éticos e profissionais e, por isso, acreditamos que é isso que se vai apurar no final das investigações. Vamos esperar” explicou Ricardo Salgado, instado a comentar as buscas do Ministério Publico à sede do BESI (a CGD e Parpública), por suspeita de irregularidades na venda/compra das acções que Estado detinha na EDP e na REN. “O Ministério Público tem todo o direito de fazer as suas investigações e terá tido razões para o fazer”, concluiu Salgado, que optou por não dar mais esclarecimentos sobre este tema.

“A carga fiscal do BES [101 milhões de euros] é absolutamente brutal”, notou Ricardo Salgado, cujo grupo apresentou, nos primeiros seis meses do ano, lucros de 25,5 milhões de euros, com a actividade em Portugal a gerar um prejuízo de 52,7 milhões de euros (em 2011 o valor foi positivo de 95,1 milhões de euros), uma deterioração sustentada, parcialmente, na “consolidação integral da BES Vida”, o que se regista pela primeira vez, e teve impacto nas contribuições fiscais do banco.

O banqueiro fez questão de lembrar que apesar dos mercados externos estarem fechados para o país e para a banca portuguesa se abriram para o BES, ainda que a título excepcional, o que se verificou no quadro do aumento de capital do grupo, de 1,01 mil milhões de euros, mas “voltaram logo a fechar-se”.

Salgado notou ainda que 60% da capitalização bolsista do mercado português está concentrada no BES, o que se deve, em parte, ao facto de ter sido o único dos bancos cotados a recusar a ajuda estatal, não tendo acedido à linha de 12 mil milhões de euros de capitalização pública. No final de Junho, o Core Tier 1 (rácio de solidez) do grupo BES ficou em 10,5 %, segundo as regras do Banco de Portugal que exige um mínimo de 10%, e em 9,9%, alinhado com os critérios da EBA (autoridade bancária europeia), que recomenda um valor acima de 9%.

Sobre o eventual regresso de Portugal aos mercados internacionais de financiamento em 2013, Salgado manifestou-se confiante, isto, a manter-se a actual dinâmica de consolidação das Finanças Públicas e a confirmar-se que o saldo da Balança de Transacções Correntes será positivo no final deste ano, repetindo o feito de 1943 (as exportações vão ultrapassar as importações). "A Irlanda já conseguiu aceder aos mercados externos de financiamento, apesar de ter um défice público de 10%”. “Há, portanto, boas notícias“. "Temos o ministro das Finanças mais rigoroso” dos últimos anos, observou.

“Os mercados estão descontrolados”, defendeu Ricardo Salgado, para quem “é fundamental” que a CMVM siga o exemplo dos supervisores espanhol e italiano e proíba o short selling [venda a descoberto], defendeu Ricardo Salgado, pois “quem actua no short selling [venda de um activo ou derivado que não possui, à espera que a cotação cai para o comprar] procura títulos com maior liquidez para reduzir as suas posições com o argumento do contágio da crise do euro”. “O capital está muito concentrado nas mãos de hedge fund e de private equity”, que são os grandes investidores, designadamente, de “divida soberana” e são eles “os verdadeiros manipuladores de mercado” e ao “atacarem um país” colocam pressão sobre os juros da divida [o preço a que um Estado se financia nos mercados]. Daí o conselho aos reguladores, como a CMVM, que devem “estar mais atentos”, embora reconheça ser uma tarefa “difícil” que exige “uma coordenação em termos internacionais”.

“Lamento que aqueles que apareceram tantas vezes [nos meses que antecederam o pedido de ajuda de Portugal à troika] a solicitar a intervenção externa, sejam os mesmos que aparecem agora a lamentar o peso dessa intervenção.” Agora, explicou, “só temos de cumprir as metas acordadas” no memorando “assinado por três partidos (PS/PSD/PP)” e “espero que haja boas notícias”, na próxima avaliação da troika Sobre a crise em Espanha, onde o BES opera através de um banco, o banqueiro confessou que “sempre me convenci que não havia resgate”, mas assim que “vi a Catalunha”, a região autonómica mais forte, “pedir ajuda a Madrid, “percebi que havia razão de preocupação.” Se o BCE não conseguir “com as suas medidas dominar a fera [baixar os juros da dívida espanhola], vai ser muito difícil evitar o resgate”.