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Tudo Isto É: design irreverente na guitarra portuguesa

Álvaro Siza Vieira, Joana Vasconcelos, Pedro Tudela e Vhils são alguns dos 21 artistas escolhidos para recriar o Fado, realizando intervenções na guitarra portuguesa

Há uma guitarra/mochila, uma guitarra/tatuagem e uma guitarra/azulejo. A guitarra portuguesa está diferente e até pode nem tocar. Artistas nacionais alteraram o instrumento para o projecto Tudo Isto É, lançado pela Malabar, em conjunto com o Espaço de Intervenção Cultural Maus Hábitos.


 

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"O Fado ainda tem muito para dar, assim como tudo o que está relacionado com ele", acredita Daniel Pires. O responsável do espaço Maus Hábitos e director artístico da empresa Malabar, explica que a marca propõe-se "trabalhar como uma espécie de editora de design, captando projectos que possam ter valor e vingar no mercado nacional e internacional".

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Aproveitando a recente eleição do Fado como Património Imaterial da Humanidade, nasceu o Tudo Isto É, um projecto "misto" que procura recriar o género musical e recuperar uma tradição. "Neste caso, os construtores de guitarras e a guitarra portuguesa." Como fazer isso? Convidando 21 artistas nacionais de diferentes para dar o seu toque pessoal a este instrumento.

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Daniel Pires refere que a decoração de guitarras não é uma ideia nova, pois no início do século passado estas peças eram decoradas com pinturas de paisagens ou com madrepérola, por exemplo. "Era uma coisa mais 'exótica' à volta da guitarra. Ao longo dos anos, isso foi-se perdendo e este instrumento ficou como que um objecto estático, muito clássico e um pouco conservador".

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O kit da guitarra portuguesa

O arquitecto Siza Vieira, a artista plástica Joana Vasconcelos e o músico Manuel João Vieira são alguns dos 21 criadores que aceitaram o desafio do Tudo Isto É. "Os artistas gostaram da ideia, até porque o instrumento não lhes foi apresentado como um objecto acabado", revela Daniel Pires.

 

Aos criadores foi enviado um "kit", que consiste numa mala quadrada em madeira, com a guitarra portuguesa disposta em peças. Desta forma, "os artistas compreenderam qual é o trabalho manual que está por trás da guitarra" e, ao mesmo tempo, perceberam que têm toda a liberdade. "Eles podem intervir no corpo da guitarra, nos braços, onde se afinam as notas... Quem quiser pode esculpir outra forma." Por isso, estes instrumentos originais nem precisam de tocar.

 

Já estão prontas dez guitarras portuguesas e cada uma é única. Daniel Pires refere, por exemplo, que o artista plástico Isaque Pinheiro transformou a guitarra numa mochila, acrescentando-lhe alças, enquanto o designer Miguel Januário fez da guitarra uma tela para uma tatuagem, "como se o povo português estivesse, irredutivelmente, condicionado ao Fado". Já a peça intervencionada por Ana Vidigal é completamente espelhada e Eugénio Campos quase transformou a guitarra portuguesa num instrumento indiano, cravando-lhe jóias de várias cores e tamanhos.

 

As 21 guitarras portuguesas originais estarão todas concluídas em cerca de um mês. Para já, os dez instrumentos acabados puderam ser apreciados durante o The Oporto Show e amanhã, 22 de Junho, é a vez da fábrica Asa, em Guimarães, receber as peças. Daniel Pires adianta, também, que o projecto Tudo Isto É vai levar a guitarra portuguesa e o design nacional a Inglaterra em setembro, na feira de design de Londres.

E tudo isto são oportunidades. "Não podemos emigrar todos, alguém tem de ficar cá. É o nosso fado, mas não podemos ficar a cantar o Fado e a chorar. Tudo isto é uma forma de tentar, sempre, ir para a frente", salienta o responsável, referindo que é preciso ser ousado. "No fundo, Tudo Isto É provocar!"