Entrevista

“Crise na Europa é motivo de preocupação para a fileira da moda”

Nunca defendemos a redução de salários. Somos a favor de soluções para a redução dos custos por produto”, diz João Costa
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Nunca defendemos a redução de salários. Somos a favor de soluções para a redução dos custos por produto”, diz João Costa Foto: Nelson Garrido

João Costa, presidente da Associação Portuguesa de Têxteis e de Vestuário, reconhece que a austeridade é incontornável, mas alerta que são também necessárias políticas de crescimento para o país.

O sector têxtil e de vestuário teve, no ano passado, um desempenho notável, com as exportações a crescerem 10% para mais de quatro mil milhões de euros. Manter este patamar é o objectivo, mas a crise nos principais parceiros europeus e, particularmente, em Espanha dificulta a missão.

Depois de um crescimento surpreendente, o que podemos esperar da evolução das exportações do sector têxtil?

A situação económica da União Europeia é um forte motivo de preocupação para a indústria têxtil e de vestuário, uma vez que se trata do espaço comercial para o qual tradicionalmente se dirigem as nossas exportações. Cerca de 85% de tudo que vendemos ao exterior vai para a Europa, com destaque para a Espanha. As perspectivas económicas menos positivas, e até negativas, que estão a desenhar-se na União Europeia e, em especial, em Espanha constituem motivo de apreensão e razão suficiente para olharmos o futuro com alguma inquietação, e, sobretudo, muita prudência. Depois de termos conseguido aumentar as exportações quase 10% em 2011, voltando a superar o referencial de quatro mil milhões de euros anuais, verificámos já sinais de arrefecimento na procura externa ao longo do primeiro trimestre - mesmo assim ainda em terreno positivo, pois crescemos 1% em relação ao período homólogo de 2011 -, que podem ser confirmados nos meses seguintes. Se a ITV portuguesa conseguir voltar a atingir os quatro mil milhões de euros de exportações em 2012 já será um feito digno de referência.

O aumento das exportações tem sido apontado como a única forma de o país sair da actual crise. As políticas do Governo têm sido consentâneas com essa missão, nomeadamente ao nível da criação de linhas de crédito e de reprogramação do QREN?

A austeridade foi e é necessária, mas é importante ter a consciência de que, sem crescimento, impulsionado pelas exportações e pelo investimento, que permita a recuperação do consumo, o próprio saneamento das contas públicas e a redução do endividamento externo tornar-se-ão muito difíceis. Entendemos, por isso, que as políticas do Governo ficam aquém do que é indispensável para o equilíbrio que tem de ser alcançado entre austeridade e estímulo à actividade económica. Vê-se muito das Finanças na governação, mas muito pouco da Economia. O problema do financiamento é a principal das preocupações e angústias das nossas empresas, que, sem apoio do sistema financeiro, mal conseguem gerir o dia-a-dia, quanto mais permitirem-se ter estratégias de expansão e de investimento. As linhas de crédito PME Invest e PME Crescimento foram importantes, mas, face aos constrangimentos existentes no sistema financeiro, são claramente insuficientes para responder às necessidades da actividade económica. Não é por acaso que assistimos a falências em série em todos os sectores. O mesmo se diga do QREN, que se apresenta como praticamente o único recurso para apoiar o investimento das empresas. Não se compreende como num momento como este o QREN é alvo de duas suspensões em poucos meses para reafectação de verbas, impedindo assim a aprovação de projectos e a contratualização de outros já aprovados. Se algo se exigia do QREN, neste momento, era mais agilização, maior majoração de incentivos, maior desburocratização de procedimentos.

Neste momento, que esforços tem feito o sector para fugir do centro do furacão da crise?

A fileira da moda tem feito grandes esforços para diversificar o destino das suas exportações. A ATP, através da sua participada Associação Selectiva Moda, tem desenvolvido ambiciosos programas de internacionalização das suas empresas. Mesmo numa situação de grave crise e de enormes dificuldades por que estamos a passar, o ano 2012 constituirá um verdadeiro recorde de acções internacionais: cerca de 135 empresas do sector participarão em cerca de 60 feiras de moda em 27 países, muitos destes fora da União Europeia, insistindo-se, por isso, na diversificação das exportações. Países emergentes na América Latina, como o Brasil, a Colômbia, a Argentina e o Peru, são já destino habitual das empresas do sector, assim como na Ásia ou na África.

O megaministério do Ministério da Economia tem conseguido acompanhar e dar resposta às necessidades actuais do sector?

O agravamento do custo de alguns dos factores de produção, como o capital e a energia, retira às empresas a sua indispensável competitividade e acaba por as conduzir ao seu desaparecimento. Sabemos das boas intenções do Governo nesta matéria, mas os condicionalismos do programa de austeridade têm limitado a sua acção e têm deixado a economia real sem as respostas e as políticas de fomento que se impunham. A megaestrutura do Ministério da Economia, Emprego, Obras Públicas, Transportes e Comunicações também não ajuda a este desiderato, pois vê-se assoberbado de problemas e não tem capacidade para responder a todas as situações. Precisávamos de uma política de crescimento, assente numa estratégia de reindustrialização do país, e voltada para o crescimento das exportações e da substituição de importações; e, na realidade, só conseguimos ver reacções avulsas e sem articulação, que, por isso, não constituem uma política integrada e ajustada às necessidades estruturais e actuais do país.

A troika defendia a descida da TSU para aumentar a competitividade. Vão surgindo vozes a defender uma redução de salários ou o aumento de mais horas de trabalho. O que é que seria determinante para aumentar a competitividade?

Nunca defendemos a redução de salários. Defendemos, isso sim, a redução, por unidade de produto, do custo do trabalho e de outros factores produtivos, de modo a ganharmos competitividade também pela via do preço. Reduzir salários, quando estes já são baixos, determina agravamento das dificuldades sociais, que não podemos defender. A redução do custo do trabalho, por unidade de produto, pode ser obtida pela via de uma maior flexibilidade laboral e melhor e mais adequada qualificação dos recursos humanos, que permita alcançar maior produtividade. E, eventualmente, pode ser necessário, durante um período transitório, até que se vença a situação de emergência em que nos encontramos, um aumento do horário laboral. Todos preferimos trabalhar um pouco mais em alternativa a perder o emprego ou a ver reduzidos os salários. A redução da TSU seria uma boa medida se existisse capacidade orçamental para o efeito, pois, de outro modo, aquilo que se ganharia por um lado perder-se-ia por outro pelo inevitável aumento de impostos. Nestas condições, a redução da TSU só faz sentido se for limitada a actividades produtivas e exportadoras, para assim lhe conferir capacidade competitiva, ou, como no caso dos jovens, para representar um estímulo à contratação, reduzindo o desemprego.

As medidas de austeridade e o elevado desemprego estão a provocar uma violenta quebra de consumo no retalho não alimentar. Há cadeias de lojas portuguesas a evidenciar sinais de dificuldade. Se nada se alterar, corremos o risco de perder algumas marcas nacionais importantes?

Há o risco de algumas marcas de retalho de moda (e outras) virem a desaparecer. As dificuldades são muitas e adensam-se todos os dias. A dramática quebra do consumo das famílias, que reduziu fortemente as vendas no retalho do vestuário, acompanhada pela dificuldade de financiamento da actividade, poderá conduzir muitas redes de retalho a forte contracção, implosão ou encerramento.

O que é que pode ser feito para contrariar a falência de empresas da fileira da moda. A solução pode passar por processos de fusão ou procura de investidores internacionais?

A ATP sempre defendeu que a dimensão é crítica para as empresas poderem sobreviver aos tempos difíceis, e mesmo para além deles. Ser grande pode não ter muito significado para uma empresa industrial, pois a reduzida dimensão pode até conferir vantagens do ponto de vista da flexibilidade e reactividade, hoje indispensáveis para o modelo de negócio em que ainda somos competitivos, mas já tem muita importância ter maior dimensão numa perspectiva comercial, pois aí confere capacidade negocial, ao comprar melhor e ao vender com mais margem. Basta pensar que ter maior dimensão numa lógica comercial permite, por exemplo, ter recursos acrescidos para participar em feiras internacionais, ter comerciais a visitar clientes, ter capacidade para recorrer a crédito no país e no estrangeiro. E a dimensão crítica não tem de ser forçosamente alcançada por fusões, pode ser por via de redes de cooperação ou alianças comerciais. Sabemos que este imperativo esbarra num problema cultural, que não está apenas no nosso sector, mas que é do país em geral. Contudo, as crises trazem de positivo a alteração rápida e radical destes paradigmas comportamentais.