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Na calha (do André-realizador) estão uma longa e um documentário do projecto Foge Foge Bandido Hugo Delgado Wapa/nFactos
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Hugo Delgado Wapa/nFactos

We Trust, André Tentugal ou o “playmaker” do Optimus Primavera Sound

Neste mundo pequeno, é possível, sem "lobbies" e sem fintas, filmar um vídeo promocional e ir parar a um dos palcos do Optimus Primavera Sound. O médio criativo André Tentugal, isto é, We Trust, actua esta sexta-feira, em plena estreia do Euro

We Trust aka André Tentugal — "com acento para alguns" — já anda nas bocas do mundo (salvo seja) há uns tempos. Que atire a primeira pedra quem nunca deu por si a cantarolar o refrão da "Time (Better Not Stop)".

Já muito foi dito, e escrito, mas, com esta entrevista, ficamos a saber três coisas que podem ajudar a entender melhor a carreira meteórica deste anacrónico homem do Renascimento: tem "horários esquisitos", isto é, com claras inclinações noctívagas, é um "control freak" assumidísimo e "straight edge", possível herança da banda punk que teve por volta dos 16 anos.

  

Portuense, de 29 anos, é realizador e músico desde sempre, embora só recentemente o tenha percebido. É também uma espécie de "playmaker" do Optimus Primavera Sound. Partilhou com Vasco Mendes as câmaras do primeiro "teaser", assinou com Le~Joy o anúncio promocional que passa na televisão (à esquerda) e, ainda para mais, actua esta sexta, 8 de Junho, pelas 18h00, no Palco Optimus, primeiro dia do Euro 2012, véspera do grande jogo contra a Alemanha.



Não há cá "lobbies", nem fintas, garante. "Eu não sou primo de ninguém", diz, entre risos. São mundos aparte, "coisas completamente diferentes", que acabam por se conjugar quando o circuito é tão pequeno quanto o português. Uma prova: o “runner” John Almeida, que também vai transportar bandas no Primavera, escreveu letras para o álbum “These New Countries” do projecto We Trust, lançado pela editora, já encostada à parede do FAQ, Meifumado, e deverá participar, como argumentista, na longa-metragem que Tentugal tenciona começar a rodar ainda este Verão. Ufa.

Faço “demasiados” videoclipes por ano

A (já longa) história da Time (Better Not Stop)

Desde pequeno que queria fazer cinema. Aliás, lembra-se de ser miúdo e “ver as coisas em enquadramentos”. Ao longo do curso de Som e Imagem, percebeu que o ideal seria começar a trabalhar e a aprender por si próprio. Virou-se para os videoclipes, para os amigos músicos, e surgiu uma identidade: I am neutral reporter. Trabalhou com Old Jerusalem (“To Be Special”), Alla Pollaca, Sizo (“First”), o vídeo que, na altura, ano de 2007, lhe abriu mais portas. 

E, já agora, porquê We Trust?

Seguiu-se a chuva de convites de editoras e, até hoje, nunca mais parou. Quantos videoclipes faz por ano? “Demasiados.” Tem tentado fugir deste universo. “Enquanto estava a estudar, eram uma boa plataforma para explorar ideias, mas agora acaba por ser um pouco cansativo.” Há muitos constrangimentos, desde a (pouca) antecedência com que lhe pedem os vídeos, que acabam por ser feitos em tempo recorde, ao próprio lucro, que nunca é muito.

Porquê Neutral Reporter?

“Quando já estás a fazer outros trabalhos onde vais buscar dinheiro [publicidade], fazes estes em que perdes dinheiro. Quando faço ou é porque gosto da banda ou porque são meus amigos.” Para além da “longa”, novos projectos na área do vídeo avizinham-se. Um deles é um documentário sobre o projecto de Manel Cruz, Foge Foge Bandido. Acompanhou-os durante uma digressão inteira. “A câmara não existia. Tenho momentos com eles inéditos.” Só falta editar. Para o ano deve estar cá fora.

A chegada do Primavera Sound ao Porto

Gerês e a musa da música

André sempre teve um problema com a música. Expliquemos. Aprendeu a tocar tudo sozinho em casa, mas cada vez que, por exemplo, se sentava com a guitarra, ocorria-lhe uma música de outra pessoa, um “hit” qualquer. “Do género… as Dunas?”, perguntámos, a medo. “Sim, nesse registo, por aí!” Ok, era realmente um problema. “Isso castrava-me um bocado a minha criatividade a nível musical.”

Há cerca de quatro anos, viajou para o Gerês e, inspirado pela Natureza (ele garante que não houve cá “musas”), fez cinco músicas num fim-de-semana. “Houve um clique. Lembro-me de ir no carro e de me ter surgido uma pequena melodia que faz parte do disco.” De regresso ao Porto, começou a dedicar um bocado de tempo às suas canções, mas sem lhes dar grande importância. Anos depois mostrou-as ao seu actual produtor que o desafiou para “perderem uns dias e gravarem as músicas”. “Os dias viraram meses, os meses viraram um ano.” Vieram colaborações de todo o lado, os tais amigos músicos: Rui Maia e Nuno Sarafa (X-Wife), João André (Bandemónio/Varuna), Gil Amado (Long Way to Alaska), Sérgio Freitas (Zany Dislexic Band). “E foi-se criando.”

Não estava à espera do êxito, mas se a princípio se assustou (“fomos atirados para palcos gigantes e nunca tínhamos dado um concerto na vida”), hoje está “preparado para tudo”, até porque sabe que tudo pode ser efémero. Tem uma vantagem, diz. “Não me levo demasiado a sério.”

Para o Optimus Primavera Sound, tal como para o Alive!, está a preparar um concerto “especial”. Afinal, tocar no Primavera, ainda para mais no Parque da Cidade, é um “privilégio” (“é um ícone da música alternativa”, “é o cenário perfeito”). Já agora, outra confissão: “Fiquei tão contente por ser anunciado ao lado dos Gala Drop, como por ser anunciado para o Primavera.”