Transportes

Linha Sines-Badajoz não tem continuidade no lado espanhol

O projecto do TGV ficou para trás
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O projecto do TGV ficou para trás Hélder Olino

A linha de bitola europeia para Badajoz que o Governo quer construir não tem continuidade assegurada no outro lado da fronteira nem os operadores ferroviários a desejam.

O Governo foi rápido a anunciar: após o abandono do projecto do TGV segue-se a construção, com início já em 2014, de uma linha em bitola europeia entre Sines e Badajoz, a fim de facilitar as exportações portuguesas para a Europa.

Desta forma, o ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, pretende integrar a rede ferroviária portuguesa na da Europa além-Pirenéus, onde os comboios circulam sobre linhas com bitola de 1,435 metros, que é 23 centímetros mais curta que a bitola ibérica, cuja distância entre carris é de 1,668 metros.

Nas intenções e no anúncio deste investimento não está, contudo, assegurado que esta linha tenha continuidade nos mais de 1000 quilómetros que separam Badajoz da fronteira francesa, não existindo por parte de Espanha qualquer plano calendarizado para a migração da bitola.

Isso mesmo reconheceu ao PÚBLICO o secretário de Estado dos Transportes, Sérgio Monteiro, na passada quinta-feira: "De Badajoz até Madrid, a linha que Espanha está a construir é em bitola europeia, mas a nossa preocupação é para norte e para França", disse, à margem do congresso da Adfersit (Associação Para o Desenvolvimento do Transporte Ferroviário e dos Sistemas Integrados de Transporte), que decorreu nos dias 29 e 30 de Março em Lisboa.

Só que a linha espanhola em bitola europeia entre a fronteira portuguesa e Madrid é a própria linha de alta velocidade, que está parametrizada para tráfego misto (passageiros e mercadorias), mas não para o de cargas pesadas (contentores e granéis), como disse ao PÚBLICO a ex-secretária de Estado dos Transportes, Ana Paula Vitorino.

Acresce que essa linha de alta velocidade está projectada para "morrer" em Madrid, em Atocha, no centro da cidade, aonde se chega por túnel, sem que esteja prevista a sua conexão com os terminais de mercadorias de Abroñigal, Vicálvaro e Coslada. Estes centros logísticos estão ligados por vias-férreas (em bitola ibérica) para toda a Península Ibérica, sem que haja planos dos espanhóis para mudar a bitola na sua rede. Aliás, neste momento, a bitola europeia para tráfego de mercadorias só existe entre Barcelona e a fronteira francesa.

Sem garantias de chegar a França a partir de Badajoz, a linha de Álvaro Santos Pereira não é, por outro lado, desejada por aqueles a quem ela se destinaria – os próprios operadores ferroviários.

No congresso dos transportes, Miguel Lisboa, administrador da Takargo (empresa ferroviária do grupo Mota Engil) foi peremptório ao afirmar que o importante é completar o que falta da actual linha Sines-Badajoz, construindo rapidamente o troço em falta entre Évora e o Caia. Estes 92 quilómetros faziam parte da adjudicação do troço Poceirão-Caia do TGV.

"O operador não é ouvido para as decisões que são tomadas", disse Miguel Lisboa, explicando que a variável tempo não é fundamental para o transporte de mercadorias, mas sim os quilómetros percorridos que, esses sim, podem tornar o caminho-de-ferro competitivo. Por isso, diz, a "ligação natural" de Portugal para a Europa é através da Beira Alta e não por Madrid e Barcelona.

O mesmo responsável diz que a bitola europeia é um investimento caro e desnecessário porque já hoje é possível ligar Portugal à Alemanha em comboios de mercadorias em D+3 (dia de partida mais três dias de viagem), que é um tempo idêntico ao dos camiões. Por isso, explica, a ruptura de carga na fronteira francesa (os vagões têm de mudar os rodados) não representa um grande constrangimento porque é uma operação que se faz em três horas, o que é irrelevante numa viagem de três dias.

E, à revelia das intenções governamentais, conclui: "É importante manter a bitola ibérica porque senão o transporte ferroviário de mercadorias morre". Ou, pelo menos, a sua empresa fecha, como afirmou ao PÚBLICO, pois não poderia comprar uma nova frota de locomotivas e vagões em bitola europeia.

Mais cauteloso, o gestor público da CP Carga, Aires São Pedro, disse no congresso: "O espaço ibérico é o mercado natural da actividade da nossa empresa". Mas nunca referiu, durante a sua intervenção, a necessidade de uma linha em bitola europeia.

Manuel Frasquilho, ex-presidente da Refer e da Administração do Porto de Lisboa, foi também crítico da prioridade dada à bitola europeia. "Falamos muito em fazer chegar as mercadorias à Europa, mas o que devemos é centrar-nos na Península Ibérica", disse, referindo que grande parte dos tráfegos futuros de Sines terão como destino Valência e o Levante espanhol.

Notícia publicada na íntegra às 14h52