Primeiro-ministro avisa para risco de se repetir a “tragédia” da Revolução Cultural

Em fim de mandato, Wen Jiabao defende reformas políticas na China

Wen Jiabao deixará a chefia do Governo no próximo Outono
Foto
Wen Jiabao deixará a chefia do Governo no próximo Outono Jason Lee/Reuters

Não foi a primeira vez que Wen Jiabao, o primeiro-ministro chinês em fim de mandato, veio a público defender a urgência de realizar reformas políticas. Mas poucas vezes tinha sido tão claro ao avisar para os perigos que o regime enfrenta se nada fizer para responder aos desafios da actualidade.

“Temos de avançar com reformas estruturais, tanto económicas como políticas”, disse Wen, avisando que se tal não acontecer “os ganhos feitos nestas áreas perder-se-ão” e “os novos problemas surgidos na sociedade chinesa não serão resolvidos”. “Uma tragédia histórica como a Revolução Cultural pode voltar a acontecer”, alertou o primeiro-ministro, que viu o pai e o avô serem visados pelas purgas ordenadas por Mao Tsetung entre 1966 e 1976.

O alerta – em tom de crítica à linha dura do Partido Comunista e de conselho à nova geração que, no Outono, vai assumir as rédeas do poder – foi lançado no final da sessão anual da Assembleia Nacional, reunida durante dez dias em Pequim.

Mas Wen, há muito criticado por defender, sem pôr em prática, uma abertura do aparelho estatal, não entrou em detalhes sobre o alcance das reformas que ambiciona e sublinhou que o avanço da China para uma “democracia socialista” será lento e gradual.

Isso ficou claro quando, ao ser questionado sobre a possibilidade de os chineses virem um dia a eleger os seus líderes, lembrou que as aldeias já escolhem os seus dirigentes através de eleições e disse esperar que o método seja alargado, num futuro próximo, às cidades e regiões.

Em contraciclo com as palavras do primeiro-ministro, a Assembleia Nacional deu luz verde a uma alteração ao código penal que autoriza a polícia a manter dissidentes presos em locais secretos durante períodos de seis meses. A lei, criticada por advogados e activistas dos direitos humanos, aplica-se aos delitos contra a “segurança do Estado”, o que pode arrastar para as temidas “prisões negras” quem quer que ouse criticar o regime ou exigir democracia.