Inovação

Voltámos ao tempo das trocas sem dinheiro

Carla Vilan e Nuno Ladeiras, dois dos fundadores da Rede Barter
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Carla Vilan e Nuno Ladeiras, dois dos fundadores da Rede Barter Foto: Enric Vives-Rubio

Uma empresa precisa de um site novo. Outra quer reparar o ar condicionado. Uma necessita de publicidade. Outra precisa de alugar ou comprar um carro. E se todas pudessem fazer isso, sem ter de gastar dinheiro? Simplesmente trocando bens e serviços umas com as outras? Em Portugal, há uma empresa responsável por gerir este comércio recíproco multilateral. Chama-se RedeBarter, já tem cartões que permitem pagar com créditos de permuta e, em breve, terá sites a aceitar transaccionar bens e serviços online, sem gastar um cêntimo. Um negócio que está à espera de ganhar fôlego com a actual crise e com as crescentes dificuldades de liquidez das empresas.

O projecto foi desenvolvido por quatro empreendedores e já conquistou mais de 70 empresas nacionais. E, para provar que o comércio recíproco multilateral funciona, nada melhor do que aplicar o conceito à própria empresa: a RedeBarter também nasceu graças às trocas recíprocas. O advogado Nuno Ladeiras (de 36 anos), a gestora de marketing Carla Vilan (de 34), o engenheiro Miguel Barreiros e o economista Miguel Agrela (ambos de 40) não tiveram de pagar pela licença de software. Trocaram-na por prestação de serviços à empresa de software. Conseguiram dois carros de serviço, oferecendo-se, em troca, para fazer um plano de permutas para aquela concessionária. "Nada melhor do que provar com o lançamento da própria empresa que o sistema e o modelo funcionam", salienta Nuno Ladeiras.

Criada em 2010, a RedeBarter cria, promove e gere a realização de transacções entre empresas através de permutas. Para isso, foi criada uma moeda virtual, em que um euro corresponde a um crédito. Ao contrário do comércio recíproco, em que as trocas são apenas directas, aqui são multilaterais. Isto significa que uma empresa não tem de trocar directamente o bem ou serviço que tem por aquele de que necessita. Em vez disso, cada empresa tem uma conta individual e disponibiliza aquilo que quer "vender" em rede. Um restaurante pode precisar de serviços de impressão (para menus, por exemplo) no valor de 10 mil euros, mas é pouco provável que uma gráfica precise de 10 mil euros em comida, que é o que o restaurante pode oferecer. Com a RedeBarter, não há esse problema: o restaurante fica a dever 10 mil euros à rede, não à gráfica.

"Este sistema não pretende substituir o sistema monetário. Não se podem pagar salários, impostos, água, luz ou gás com permutas. Mas há outras coisas que sim. E ao usar créditos para fazer isso, é mais dinheiro que fica na conta bancária e que pode ser usado para mais facilmente pagar o que tem de ser pago em dinheiro", explica Nuno Ladeiras.

Uma das principais funcionalidades do sistema de comércio recíproco multilateral é optimizar a capacidade subaproveitada. Por exemplo, hotéis com fracas taxas de ocupação, restaurantes com mesas vazias, retalhistas que ficam com excesso de stocks, obrigando frequentemente a descer os preços. Na RedeBarter, esta oferta "em excesso" poderia ser trocada por bens ou serviços necessários: um hotel que precisa de remodelar a sala de conferências, um restaurante que necessita de publicidade e um retalhista que quer máquinas registadoras novas.

Crescer é a prioridade

Formado em Direito, Nuno Ladeiras depressa percebeu que a advocacia não era para ele. A vontade de ter um negócio próprio e a ligação às novas tecnologias (fez uma pós-gradução em Direito para a Internet) levou-o a tentar encontrar resposta para um problema. "Desiludi-me ao perceber que o dinheiro, que nasceu para facilitar negócios, acabava muitas vezes por os barrar", conta. Começou a pesquisar na Internet por sistemas alternativos ao sistema monetário. Desembocou no comércio recíproco multilateral. Viajou para os Estados Unidos, França e Suíça, para ver o que já tinha sido feito e reunir-se com empresas da área. No início de 2010, com a ajuda dos três sócios, abria a RedeBarter, no Chiado, em Lisboa.

A prioridade foi estabelecer parcerias com entidades congéneres, o que permitiu desenvolver uma rede mundial, que envolve 450 mil empresas em mais de 80 países. As parcerias mais fortes são com Espanha ou a Alemanha, mas os clientes da RedeBarter também já podem, por exemplo, usar os seus créditos para ir de férias para o Havai. Em Portugal, têm pouco mais de 70 empresas, mas a expectativa é vir a crescer a um ritmo de 1000 novos membros por ano.

A vontade de crescer faz com que, neste momento, a empresa tenha decidido não cobrar comissões fixas sobre as transacções. "Vamos adaptando a cada empresa, pelo que a comissão pode variar entre 1% e 7,5%", explica Nuno Ladeiras. O mesmo se passa com o custo de se tornar cliente da Rede Barter. A empresa definiu vários níveis de entrada na rede, que vão de zero euros a 500 euros anuais. Os serviços variam consoante o nível, mas a função da RedeBarter é, regra geral, identificar os bens ou serviços que aquela empresa pode transaccionar, as suas necessidades e encontrar correspondência dentro da rede.

Neste momento, a empresa está a implementar o cartão da rede, que funcionará a débito e a crédito e permite aos clientes entrarem num estabelecimento aderente e pagarem com o que têm para trocar. Paralelamente, a RedeBarter está a testar os primeiros sites de membros que vão aceitar pagamentos com créditos de permuta, prevendo que comecem a funcionar em breve. "É uma inovação mundial", garante Nuno Ladeiras. E, no caso desta empresa, a crise pode dar um empurrão ao negócio. "Hoje em dia, nada parece seguro e o comércio recíproco multilateral faz depender parte dos negócios não da capacidade de as empresas pagarem, mas da sua capacidade de produção. E isso nenhum banco nos pode retirar", conclui.