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Emanuel Ribeiro/Restart
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O hip-hop “tuga” está a mudar? A culpa (também) é delas

Blaya, Dama Bete, Da Chick e as A.M.O.R. Em Portugal, o hip-hop (e não só) passa por elas. Todas têm a vontade - ousadia? - de apostar noutras influências. Será uma "onda nova"?

Nem todas se sentem MC. São antes artistas, mulheres, que tentam que o seu "flow" vingue num universo tantas vezes masculino e, até, masculinizado. Honey, Violet, como é? Ouvimos "Abecedário" (ver coluna à esquerda) e percebemos: "Elas nem fazem questão de mostrar que são capazes / Elas dançam como eles, cantam como eles, mexem-se como eles, até se vestem como eles / Girls, assumam-se como girls que são." Eis as A.M.O.R., provavelmente um dos segredos mais bem guardados do hip-hop "tuga". Mas não por muito tempo.

Antes da entrevista começar via Skype, o aviso de uma para a outra: "Hey, não podemos dizer asneiras!" Honey e Violet são Maria e Inês, primas, de 23 e 27 anos, a lançar rimas de Alcântara, e este pode ser também o ano delas. Brevemente ficará disponível uma "mixtape" que gravaram com a rapper neozelandesa Coco Solid e será lançado ("hopefully", murmura Maria), por uma editora independente inglesa, o álbum de estreia, com produção de Mushug (Octa Push) e Markur (Photonz). O estilo será diferente. Prometem-se "músicas de amor verdadeiro" e "para dançar". Assumem-no, sem complexos.

Não são "sell-outs", como podem vir a acusá-las os puristas. Também já as chamaram "hippies". Diziam que as suas músicas eram "boas para raparigas". Responderam em rimas. "Perceberam depois que não podem brincar com o nosso rap", diz Inês.  

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Blaya Pedro Cunha

Uma "onda nova" no hip-hop

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A.M.O.R. Sofia Pinto Basto

Dama Bete foi apresentada como a primeira MC feminina portuguesa. Foi, pelo menos, a primeira a assinar por uma grande editora discográfica, a Universal. Em 2008, lançou o álbum "De Igual para Igual", alcançando alguma popularidade com os singles "Definição de Amor" e "Cala-te". Ambos foram parar à banda sonora da telenovela juvenil "Morangos com Açúcar". E pensar que tudo começou por despique com o irmão, Macaco Simão, um nome conhecido do hip-hop "tuga" - ele tinha um grupo com os amigos, ela criou um para raparigas, as Blacksystem, onde conheceu Blaya. Chegou também a promover as festas hip-hop ladies, realizando-as em diversos locais do país.

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Da Chick DR

Hoje, Bete está a trabalhar naquilo que "pode vir a ser um EP, um álbum físico ou uma mixtape". "Ainda não sei o que será. Sei que vou lançar o single e pedir a DJ para remisturar." Já não se identifica com o "hip-hop mais 'gangsta'". Evoluiu e, por isso, não se considera "rapper", mas sim "artista", "música". Para o novo trabalho tem explorado um lado mais electrónico, misturando o hip-hop com as suas raízes "afro" (nasceu em Moçambique), um pouco no seguimento da linha desenvolvida por M.I.A. Não é a única a procurar outros sons e, por isso, fala de uma "onda nova" em Portugal, que está "a ter a aceitação das mulheres" e não dos MC homens. "Está a mudar", diz, e, sem saber das intenções do P3, destaca os projectos das restantes entrevistadas.

O sonho de Da Chick é ter uma banda de funk

Da Chick? "Is freak". Teresa já foi MC, hoje considera-se mais uma "cantora de originais". O seu objectivo de carreira, pelo menos, é esse. O seu "sonho" é ter uma banda. De funk, a sua grande paixão. Começou, por brincadeira, ao fazer uma letra para um "beat" de um amigo. O "feedback" foi bom e, quando deu por ela, já tinha criado uma conta no MySpace. Desde aí, multiplica-se em colaborações e "perninhas". Faz parte da The Discotexas Band e é a voz de "Fish&Chick", single, com muito "groove", de Memória de Peixe. 

O ano passado foi uma das vencedoras do Optimus Live Act, o que lhe valeu uma actuação no Alive! e, consequentemente, o epíteto "revelação". Esta Primavera sai o seu primeiro EP, que está a ser preparado com o produtor Moullinex. Terá um pouco de disco e hip-hop com toques de electrónico e R&B. E, claro, funk, jazz e soul. Um característica: a língua inglesa. "As minhas influências vêm de coisas mais cantadas. É essa a 'vibe' que tento passar." Para ver e ouvir ao vivo no dia 14 em Guimarães.

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Blaya Pedro Cunha

A Blaya já fala de amor

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A.M.O.R. Sofia Pinto Basto

Já estamos habituados a vê-la em cima do palco, calções curtos de licra, kuduro no corpo. Mas há mais Blaya para além dos Buraka Som Sistema. A sua primeira "mixtape" em nome próprio está prestes a sair ("Eu Vou", o single de avanço, já está cá fora). Não é "muito rap", é "mais electrónica" sem ser house. "Agora estou mais calma, fui aprendendo, ouvindo outras coisas." É que Karla Rodrigues, o seu nome verdadeiro, já anda "nisto" desde 2001. No Alentejo, onde vivia, ouvia hip-hop com o primo, "rimava com força", organiza festas, em que vendia "Número 1", o seu primeiro trabalho, por cinco euros. 

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Da Chick DR

Os anos passam e vai-se "evoluindo". "Antes as minhas letras eram mais feministas. Agora falo de ir sair, falo de amor, que era algo que não falava. Falo de coisas menos pesadas", conta, ao P3, na véspera da partida dos Buraka para a digressão nos EUA. Quanto ao percurso de MC internacionais apontadas como promessas do hip-hop, Blaya é sincera: "Elas não me dizem muito." Sente que "falta ali qualquer coisa". "A primeira coisa que pesquiso é como é que elas são ao vivo. Se não for boa 'live', não vale a pena ouvir. Na minha opinião, não agarram ninguém, nem têm muito a dizer." Só há uma coisa que a inspira: "Se calhar, ter coragem para fazer uma letra sobre o que elas estão a falar. Quando se escreve em português, é diferente." Basta pensar no título do primeiro hit de Iggy Azalea... "Pu$$y".