Ano ainda será lectivo ou já será letivo?

Nos exames externos deste ano o não cumprimento do AO não será ainda penalizado
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Nos exames externos deste ano o não cumprimento do AO não será ainda penalizado Miguel Madeira

Nem grande entusiasmo, nem grande rejeição. É este o balanço possível no final do 1.º período do ano lectivo em que se introduziu nas escolas portuguesas o Acordo Ortográfico (AO). Ainda há dúvidas sobre certas regras, mas ninguém se queixa de falta de material de apoio.

Alguns professores continuam a não concordar com a nova grafia – mas, afinal, quem é que quer ser acusado de estar a prejudicar os alunos que, mais cedo ou mais tarde, serão penalizados se escreverem com a “grafia antiga”?

Quando foi anunciado que nos exames externos deste ano o não cumprimento do AO não seria ainda penalizado, os docentes (e provavelmente também os alunos) respiraram de alívio, por sentirem que tinham ganho algum tempo, conta Edviges Ferreira, presidente da Associação de Professores de Português (APP). “Neste momento, parece-me que cada escola faz o que quer. Uns professores dizem que penalizam os erros, outros só começam a fazê-lo quando isso for feito nas provas de avaliação externa [em 2013/14 para o básico e em 2014/15 para o secundário]”.

Na opinião de Edviges Ferreira, que tem feito várias acções de formação sobre o AO, “devia ter havido uma determinação muito específica dizendo que, como o acordo entrou em vigor este ano lectivo, todos os professores o deviam aplicar e deviam começar a avaliar os alunos pelas novas regras. Isso seria fundamental, caso contrário as pessoas deixam tudo para o fim.”

Resistências? Há sempre algumas, mas Ana Soares, coordenadora do departamento de Português do Colégio do Sagrado Coração de Maria, em Lisboa, diz que “os que se retraem mais são os alunos mais velhos, porque os mais pequenos reagem muito bem”. E confirma que, quando os estudantes percebem que o cumprimento do AO não vai ser relevante nos exames finais, ficam mais despreocupados – “não querem distrair-se do que é essencial por causa de uma coisa que não vai ser avaliada”.

E dentro de casa? Fizemos uma ronda rápida por três famílias com filhos em idade escolar para saber se já estão a usar o acordo. E, embora não se possa obviamente tirar daqui qualquer conclusão definitiva, ficámos a saber que na primeira família, com dois professores universitários e quatro filhos todos em idade escolar, nenhum começou ainda a usar. Noutra, o pai e o filho de 14 anos não usam, a mãe (também docente universitária) e o filho de nove anos já usam. E na terceira, também um casal com dois filhos de 14 e dez anos, não há ainda nenhum a aplicar o acordo.

“A” grande ou pequeno

Vejamos então o que se passa no 1.º ciclo. O Francisco tem nove anos e está no 4.º ano de uma escola pública de Lisboa. Já estão a escrever segundo o acordo ortográfico?

Diz que sim, e descreve uma sessão em que lhes foi apresentado um powerpoint com várias imagens mostrando as alterações que o acordo introduz. Se ele sabe algum exemplo? Sabe um dos que lê todos os dias nos cartazes que a professora colou nas paredes da sala: “Em Avenida Marechal Gomes da Costa, o ‘a’ de Avenida pode ser grande ou pequeno, e o de marechal tem de ser pequeno”, explica.

A professora decidiu entretanto tirar os cartazes da sala por achar que era demasiada informação para ser dada de uma vez só, mas começou já a marcar erro quando aparece com “p” ou “c” uma palavra que já os perdeu no novo acordo – “acção/ação”, por exemplo. Essa é uma regra que já parece integrada. As outras virão depois.

Os professores com quem o PÚBLICO falou estão convencidos de que a aplicação do AO é já irreversível e que, apesar de algumas dificuldades, as coisas nem estão a correr mal. É o que nos diz, por exemplo, Manuel Pereira, da Associação Nacional de Directores Escolares, e professor no agrupamento de escolas de Cinfães. “Toda a gente está ainda a tentar adaptar-se, mas a maior parte dos nossos alunos não tem problemas com o acordo. É um processo que demora tempo e que não é nada fácil. Mas não vamos começar a penalizar os alunos quando nós próprios ainda estamos em fase de adaptação.”

Ana Soares lembra que está em causa uma obrigação dos docentes: “Podemos ter questões pessoais [em relação ao acordo] mas estamos revestidos de uma obrigação perante a sociedade.”

Fase de transição

Fátima Gomes, professora na secundária de Barcelos, sublinha também que esta é uma fase de transição e que, apesar de haver uma recomendação para que os testes respeitem já as regras do AO, “a nível da correcção da escrita estamos a ser bastante flexíveis, vamos assinalando os erros, mas não descontamos”. De resto, também lhe parece que as coisas estão a correr com alguma normalidade. “Não estamos a dramatizar. Claro que há pessoas que, a título pessoal, ainda estão agarradas à ideia de combater [o acordo], mas não tem havido grande fricção.”

Com os estudantes – que “têm o traço próprio da juventude, que é o de contestar” –, Fátima Gomes fez um trabalho de enquadramento, “mostrando que palavras que hoje são comuns também foram no passado muito contestadas”. A nível administrativo, na escola em que trabalha, os documentos têm também vindo a ser actualizados. “Além da estranheza de olhar para uma ‘ata’, não tem causado grande problema.”

Nuno Almeida, actualmente professor na Universidade de Zadar, na Croácia, é, desde o início, um defensor do AO. Conta, numa conversa por e-mail, que desde o ano lectivo passado pediu autorização da escola onde estava para começar a aplicar a nova norma às turmas do 7.o e 8.o anos. “Quanto aos alunos, houve a tendência inicial de rejeição da nova ortografia, que lhes parecia ‘estranha’ ou ‘esquisita’ em algumas palavras que eles estavam habituadíssimos a escrever (‘correção’, ‘ação’, os meses com minúscula...). Porém, esta renitência verificou-se apenas em relação a algumas (muito poucas) palavras com cuja ortografia os alunos já se sentiam muito seguros, e muito rapidamente o AOLP [Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa] deixou de ser assunto de discussão sempre que eu emendava a ortografia de uma ou outra palavra.”

Quanto às palavras em relação às quais os alunos não tinham tanta segurança, por exemplo “veem”, “leem”, “joia”, conta Nuno, “tornaram-se adeptos confessos da nova regra porque lhes veio simplificar a escrita e diminuir casos duvidosos”. Está, por isso, convencido de que a introdução do acordo nas escolas “não é, de todo, difícil”. Admite, contudo, que “a principal dificuldade, ainda que seja muito relativa, poderá ser a resistência de alguns professores à mudança”. Isso acontece “não porque sejam defensores de uma ortografia mais próxima da etimologia das palavras ou porque sentem um especial carinho pela língua, mas por falta de informação e por insegurança, um sentimento altamente incompatível com a atividade docente [as declarações de Nuno Almeida foram enviadas por e-mail e por isso mantivemos a grafia usada, que respeita o acordo ortográfico]”.

Edviges Ferreira não tem dúvidas “de que têm de ser os professores de Português a puxar mais” pela aplicação do acordo – são eles, aliás, que têm estado a fazer muitas das acções de formação nas escolas que as pedem (não houve formação organizada pelo Ministério da Educação). Mas as dúvidas continuam a existir, claro, até porque o AO deixa bastantes opções em aberto.

“Algumas bases são extremamente subjectivas”, diz. “Sobretudo no que diz respeito ao uso do ‘p’ e do ‘c’, em que, em muitos casos, a pessoa pode escrever conforme lhe apetecer. Se disser Egito escreve sem ‘p’, mas se disser Egipto escreve com ‘p’.

Mas depois o acordo contradiz- se.” E como faz para resolver essas contradições quando está a dar formação? “Explico isso, e aconselho os colegas a ensinar os meninos a escrever como dizem. Nesse caso, o professor não os pode penalizar”.

Também Ana Soares diz que as dificuldades que têm surgido resultam de regras cuja lógica nem sempre é perceptível – por exemplo, o hífen, que deixa de existir em cor-de-rosa, mas não em cor-de-laranja. Curiosamente, é o mesmo exemplo que Fátima Gomes utiliza para lamentar que a questão da hifenização “tenha muitas excepções, e depois excepções dentro das excepções.”

Mesmo Nuno Almeida, defensor do AO, lamenta a “existência das alternativas”, que não deveriam constar de um documento normativo. Mas concorda com a coexistência de formas como “bebê” e “bebé”, por exemplo, porque correspondem a duas maneiras de dizer a palavra, tal como concorda com a possibilidade de escrever “caraterística” ou “característica” para “representar casos de evolução fonológica ainda não completamente consolidados”.

Manuais actualizados?

E, por fim, há a questão dos manuais. “Neste momento, os alunos podem ter o manual de Português actualizado e o de História não. Ou terem no 10.º ano o manual antigo, no 11.º um com o acordo e no 12.º o antigo [muda no próximo ano]”, explica Ana Soares.

Esse é um ponto que Edviges Ferreira também questiona. Defendendo que a aplicação do acordo deveria ter sido mais rápida, admite que se tenha “facilitado muito por causa dos editores e livreiros, que ainda tinham muitos livros publicados com a grafia antiga e não queriam pôr no lixo todos os que tinham em stock”.

Mas Edviges está convencida de que no próximo ano o processo vai acelerar, até porque “muitos órgãos de informação já usam o acordo, e a partir de Janeiro os ministérios também”. E Nuno Almeida não tem dúvidas de que “a interiorização das principais alterações pelos estudantes se fará num curtíssimo espaço de tempo (muito provavelmente, um ano lectivo será suficiente)”. E, acredita, é “perfeitamente natural que, de toda a população portuguesa, sejam os estudantes os primeiros a interiorizar as alterações à ortografia”.