Carlos Tavares alerta para distribuição de produtos complexos

Mantém-se a falta de regulação na área financeira, nota o presidente da CMVM

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Cláudia Andrade (arquivo)

O presidente da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), Carlos Tavares, afirmou quinta-feira que as áreas financeiras não reguladas continuam não reguladas e as reguladas estão mais difíceis de regular.

“Vivemos o mesmo ambiente regulatório que vivíamos há quatro anos, à excepção da criação de autoridades europeias de regulação e a regulamentação das agências de rating”, afirmou Carlos Tavares, na primeira conferência do ciclo “Conferências do Palácio 2011/12”, no Palácio da Bolsa, no Porto.

Na intervenção acerca do papel dos reguladores na Economia, o presidente da CMVM apelou para que se evite “repetir os erros do passado”, um risco que, considerou, “não está afastado”, alertando que a tendência para a distribuição de produtos complexos não diminuiu, apenas mudaram os seus destinatários.

“Todos nós vimos diagnósticos muito bem feitos sobre as causas da crise e vemos que as áreas não reguladas continuam não reguladas e as reguladas estão mais difíceis de regular”, advertiu.

Em declarações aos jornalistas, Carlos Tavares disse que “gostava de ver concretizadas propostas que estão a ser discutidas há muito tempo”, realçando que “há muitos mercados que ainda escapam à regulação”, como os mercados de derivados e muitos mercados de obrigações.

Défice de supervisão na transacção de dívida pública

“A própria divida pública, muita [dívida pública] é transaccionada fora dos mercados regulamentados e a supervisão não é tão forte como seria desejável”, acrescentou.

O antigo ministro da Economia considerou que, “até agora, não há nenhum progresso na regulação”, considerando que “o processo de decisão, sobretudo na União Europeia, é muito lento e dificilmente se coaduna com a velocidades dos mercados”.

Na sua intervenção, no Palácio da Bolsa, Carlos Tavares defendeu que “os supervisores financeiros têm que ter consciência de que não têm todo o tempo do mundo”, considerando que a regulamentação move-se ao ritmo antigo. “Fazemos tudo que podemos fazer com as leis que existem, mas elas não são de todo suficientes”, declarou

Segundo o presidente da entidade reguladora do mercado de capitais nacional, “um dos efeitos colaterais desta crise, cuja dimensão e amplitude não são ainda conhecidos, é o que se chama de retrocesso na regulação independente dos mercados”, em várias áreas do globo. “Há valores que têm sido postos em causa, fruto do pânico que esta crise causou”, declarou.