“As Noites de Cabíria”, de Federico Fellini (1957)

Perpassando os vários momentos que perdurarão na nossa noção de termos assistido a algo grande está a fisionomia mágica de inocente admirada que nos faz doer e sorrir e chorar

Cartaz de “As Noites de Cabíria”
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Cartaz de “As Noites de Cabíria”
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A escolha de um filme de Fellini levará sempre à objecção de muitos não necessariamente pela falta de acerto, mas por ter impedido a escolha de um outro. Compreendo, porque me acontece o mesmo, não só com ele, mas de um modo mais especial com Alfred Hitchcock, William Wyler, Billy Wilder, Frank Capra, só para citar alguns dos que me brindam com presentes sucessivos, em vez de se esgotarem em algumas obras esparsas sem estilo que as una.

Por isso seria possível escrever sobre “La Dolce Vita”, “La Strada”, “Amarcord” ou “E la Nave Va” (nunca cheguei a ver “8 ½” nem “I Vitelloni”), não fosse a minha escolha ser decidida pela minha preferência e por esta brincadeira de começar pelos filmes não só sobre mulheres, mas também com mulheres nos títulos (há gostos para tudo...).

Vamos ver, portanto, “As Noites de Cabíria”, esse filme de Fellini e de Giulietta Masina, marido e mulher durante 50 anos e um dia e inspiradores mútuos na construção desta e de outras obras, de que me interessa destacar “La Strada” – porque também “La Strada” é Giulietta Masina, apesar do Anthony Quinn que ele lá é.

É a história de Gelsomina e Zampanò e quem viu não se esquece dos nomes deles, das personagens, nem do peso enorme que nos trazem à memória. Com a prostituta Cabíria acontece o mesmo, mas aqui sem personagem nem actor rival do seu esmagador protagonismo. Mais esmagadora ainda é a solidão em que ela vive e as suas tentativas de lhe escapar, de conquistar outro lugar, de subir para lá, fugir, de se salvar (como se pudesse).

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“As Noites de Cabíria” conta a história de uma prostituta DR

Descoberta de um mundo

Perpassando os vários momentos que perdurarão na nossa noção de termos assistido a algo grande está a fisionomia mágica de inocente admirada que nos faz doer e sorrir e chorar. Com um rolar de olhos, uns cantos da boca repuxados para cima, conta-nos instantaneamente toda a felicidade de descoberta de um mundo que não só não conhecia mas também não era capaz de imaginar.

Pudera: entre o casebre “com todas as comodidades” de que é ciosa proprietária (até se gaba de ter um termómetro!) e a moradia de todos os luxos do astro de cinema para a qual se vê improvavelmente convidada, há anos-luz que ela atravessa em instantes, para voltar ao seu lugar de privações e roubos essenciais, onde se vive uma tristeza que muitos de nós, espectadores, não só não conhecíamos mas também não ousávamos acreditar que existisse. Nem que fosse possível representa-lá por aqueles olhos e por aquela boca. É a vida segundo Giulietta Masina (e Fellini).