Crise

Banca nacional já perdeu 46% do seu valor em bolsa este ano

Mercados viveram ontem mais um dia tenso nas bolsas mundiais
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Mercados viveram ontem mais um dia tenso nas bolsas mundiais Andrew Winning/Reuters

A maioria das bolsas europeias apresenta desvalorizações anuais entre 20 e 30%, mas as perdas do sector financeiro são bem maiores, aproximando-se dos 50%. Portugal não foge à regra: o PSI20 perde 25% desde Janeiro e apenas um dos quatro bancos nacionais cotados consegue apresentar perdas abaixo dos 50%.

O BES já acumula uma desvalorização de 34,4%, o BPI e o Banif de 56% e o BCP, que se encontra em mínimos históricos, apresenta uma perda de 68,7%. Em capitalização bolsista, ou valor de mercado, os quatro bancos já viram "voar" 3,6 mil milhões de euros, o que representa uma perda de 46,3% face ao valor que apresentavam no final do ano passado.

A capitalização do PSI20 encolheu este ano 12,3 mil milhões de euros, passando de 61,6 mil milhões para 49,3 mil milhões de euros. Num universo de 20 empresas, os quatro bancos são responsáveis por 30 por cento das perdas totais do índice.

As quedas das bolsa europeias têm-se agravado no corrente mês, com a possibilidade de falência da Grécia e dos riscos de contágio da crise da dívida a outros países da zona euro, como a Espanha e a Itália. A França também tem sofrido com a desconfiança dos investidores. A Bolsa de Paris acumula uma perda de 27,3%, mais do que a Bolsa de Lisboa, e três dos principais bancos franceses -o BNP Paribas, o Société Générale e o Crédit Agricole - acumulam desvalorizações na casa dos 50%.

A bolsa de Itália perde 31,84%, a maior perda acumulada da Europa, a da Alemanha perde 25,8%. O índice de referência de Espanha já caiu 20% este ano, e o da praça inglesa desliza 14,8 por cento.

A banca tem estado no centro das desvalorizações bolsistas em boa parte pela exposição às obrigações soberanas dos países mais afectados pela crise da dívida, em especial da Grécia. Este receio tem gerado uma crescente desconfiança dentro do sistema financeiro e europeu e internacional, o que está a gerar uma grave crise de liquidez. O cenário de nova recessão mundial e a necessidade de recapitalização dos bancos são as mais recentes preocupações dos investidores e justificam o minicrash de anteontem.

Ontem, os mercados bolsistas registaram dois momentos distintos: a manhã foi de perdas elevadas, com alguns índices a atingir desvalorizações acima dos 3%, mas a tarde foi de recuperação, à excepção da Bolsa de Lisboa, que fechou isolada nas quedas.

O principal índice da praça portuguesa, o PSI20, encerrou a perder 0,98%, nos 5778,2 pontos, o que a atira para mínimos de Março de 2009. Mas durante as primeiras horas da sessão o PSI20 chegou a descer para os 5603,58 pontos e, apesar de uma recuperação, fechou no valor mais baixo desde 2003, antes da crise financeira mundial.

A recuperação das restantes praças europeias, com Madrid a conseguir valorizar-se 2%, liderando os ganhos, ficou a dever-se à declaração dos países do G20 de que tudo farão para parar a turbulência nos mercados, mas essencialmente às garantias de um membro do Banco Central Europeu (BCE) no sentido de regresso de algumas medidas de apoio ao sistema financeiro e de relançamento da economia, se os dados económicos assim o justificarem (ver texto ao lado).

Luc Coene, governador do Banco central da Bélgica, admitiu numa entrevista que entre as potenciais medidas a tomar estão a reintrodução de empréstimos a longo prazo entre bancos, com maturidade a 12 meses e não excluiu uma descida das taxas de juro.

Nos picos de desvalorização dos mercados, o BCE tem conseguido tomar medidas que dão alguma confiança aos investidores. Foi o caso da decisão de compra de obrigações soberanas, primeiro da Grécia, Irlanda e Portugal e mais recentemente de Espanha e Itália. Depois foi o acordo com bancos centrais para assegurar empréstimos em dólares. Apesar de ser apenas uma hipótese, a possibilidade avançada por Luc Coene conseguiu, pelo menos, evitar mais uma sexta-feira negra nas bolsas.