Abutre raro sobrevive a electrocussão depois de meses de tratamento

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O abutre nas instalações do CERVAS Foto: CERVAS

O juvenil de abutre (Neophron percnopterus) chegou ao CERVAS - Centro de Ecologia, Recuperação e Vigilância de Animais Selvagens cinco dias depois de ter sido electrocutado na zona de Portalegre, em Outubro de 2010. A ave apresentava queimaduras extensas em ambas as asas.

Seguiu-se um longo processo de recuperação. “Os casos de electrocussão são quase sempre os mais complicados, dado que podem deixar sequelas que impedem o voo”, explicou Ricardo Brandão, médico veterinário do centro.

“Primeiro parámos o processo de gangrena na ponta das asas e cicatrizámos as feridas. Depois, tratámos as queimaduras e controlámos as infecções secundárias, que não eram muito graves”, informou. A fase seguinte foi avançar para o longo processo de fisioterapia, “onde demos espaço ao animal para treinar”. Para recuperar a asa que tinha feridas mais graves, “fizemos massagens, extensões da asa e medicação específica”. Nos últimos meses, o abutre viveu no túnel de voo, com as outras aves em recuperação.

Hoje, Ricardo Brandão pode dizer que o animal recuperou a cem por cento. “Isto é muito importante porque esta ave migradora precisará de migrar até África já dentro de mês e meio”.

O abutre foi libertado na sexta-feira passada na Reserva da Faia Brava, no vale do Rio Côa, em Figueira de Castelo Rodrigo. “Escolhemos este local por ter pouca perturbação, por lá ocorrerem outras aves da mesma espécie e por existir disponibilidade de alimento imediato”, referindo-se a um alimentador de abutres a cargo da Associação Transumância e Natureza. “Antes da migração, a ave deve estar na melhor condição física possível”, acrescentou.

Segundo o CERVAS – centro onde, desde 2006, deram entrada 1500 animais selvagens, 50 por cento dos quais devolvidos à natureza –, o abutre do Egipto é o mais pequeno dos abutres de Portugal e é uma das primeiras aves migradoras a chegar ao nosso país, onde pode ser observado entre finais de Fevereiro ou princípios de Março até Setembro ou início de Outubro.

É actualmente considerada uma espécie rara, em perigo (segundo o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal) e em declínio continuado. Os principais factores de ameaça são o uso ilegal de iscos envenenados, a falta de disponibilidade de alimento, a perturbação humana em zonas de nidificação durante os períodos mais sensíveis (época de reprodução), a colisão e electrocussão em linhas aéreas de distribuição e transporte de energia, bem como o abate a tiro e a degradação dos habitats devido a construção de infra-estruturas como barragens, parques eólicos ou estradas.