Entrevista

Augusto Mateus: "Onde Portugal é competitivo é na mão-de-obra qualificada"

Nuno Ferreira Santos
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Nuno Ferreira Santos

O ex-ministro da Economia Augusto Mateus considera que, em termos de salários, o país destaca-se pelos recursos humanos altamente qualificados com baixas remunerações.

Para Augusto Mateus, economista e ex-ministro de António Guterres, Portugal deve diversificar as vendas para novos mercados, em especial para os que crescem depressa. Num estudo realizado para a Caixa Geral de Depósitos (CGD), onde estudou de modo detalhado o desenvolvimento da economia portuguesa, o economista concluiu que, mais importante do que definir onde é que o país deve apostar, é criar o ambiente favorável para que se invista, mas sempre no sector de bens transaccionáveis, não regulado. É aí que o país dispõe de vantagens. Para Augusto Mateus há elementos no memorando da troika “que são verdadeiras oportunidades para se fazerem as mudanças necessárias, mas há outros que se forem postos em marcha precipitadamente podem ser negativos”.

À luz do estudo que fez para a CGD, sobre o “Desenvolvimento da Economia Portuguesa”, como vê o futuro do país?

Com mais dificuldades. Temos um problema de fundo que é de competitividade que corresponde a transformações muito importantes que ocorreram no mundo e na Europa e a que nós não prestámos a devida atenção. Hoje, como o relatório demonstra, temos uma relação muito mais polarizada com o mercado espanhol, dentro dos nossos quatro grandes mercados. Mas o período que melhor correu a Portugal foi aquele em que o mercado alemão emergiu como o grande mercado de referência no contexto europeu, o que historicamente fazia sentido.

A aposta de Portugal no mercado espanhol teve como consequência a redução da qualidade das nossas exportações?

Sim. E não ajudou a subir a sofisticação. Numa primeira fase, ganhámos com a construção europeia, pois fizemos a construção, enquanto pequeno país, com o Reino Unido. Mais tarde, quando se fez a convergência dos dois caminhos da UE, atlântico com o Reino Unido, continental com a Alemanha, Portugal também beneficiou, pois encontrou no declínio da sua ligação com o Reino Unido uma maior progressão no mercado francês e sobretudo no alemão. Com o alargamento da UE, deu-se a consolidação com o mercado espanhol, que se tornou o grande mercado para Portugal.


Foi um mau sinal que Durão Barroso e José Sócrates deram ao aconselharem os empresários a apostar no mercado espanhol?

Resultou numa perda de influência do mercado alemão, que se veio somar à do Reino Unido. De tal maneira que Portugal, ficou, a partir de certa altura, diminuído. Tal como o nosso Norte, que durante muito tempo polarizou as relações de Portugal com o Reino Unido, hoje tem mais relações com a Galiza. E este é um ponto muito importante porque no contexto do alargamento e da globalização Portugal não soube consolidar o que de melhor tinha, nomeadamente, o comércio e o investimento com a Alemanha e, sobretudo, não soube encontrar novos mercados de expansão à escala global. Uma das coisas é que falamos muito dos sectores tradicionais mas o que nos distancia mais das economias europeias é termos um peso de mercados que não crescem, como o espanhol, nas nossas exportações muito significativo e precisamos de encontrar novas realidades.


Refere-se exactamente a quê?

A UE, no seu conjunto, tem um problema demográfico e um problema de consolidação orçamental. Hoje vivemos num mundo a duas velocidades, e a velocidade da UE é lenta. Podemos falar do Mar Negro. A imigração recente trouxe-nos pessoas da Ucrânia, da Moldávia e da Roménia. Se elas encontraram em Portugal uma base para emigrarem, porque é que Portugal não encontra no Mar Negro uma das bases de renovação do seu comércio internacional? Podia recorrer-se de alguns imigrantes que conhecem bem a economia e a realidade portuguesa e que querem regressar aos seus países. E podiam regressar numa lógica de embaixadores económicos, mas numa base comercial em que o seu regresso possa ser ao serviço da colocação de produtos nacionais nos seus países. E temos ainda o mundo emergente, basta pensar no Mercosul, no Brasil, mas não só.


O Brasil já foi uma grande aposta e deixou de ser. Deve ou não voltar a ser uma grande aposta de Portugal?

Convém não esquecer que a Espanha cometeu um erro estratégico gravíssimo ao colocar o seu vice-reinado das Américas do lado de lá, em Lima, no Pacífico. E desguarnecendo o Atlântico. Houve um tempo em que italianos e portugueses eram decisivos em Montevideu e Buenos Aires. Para Portugal, o Mercosul não é apenas Brasil. E temos a Índia, com a qual continua a ser possível construir uma relação muito interessante, e vários países da Ásia do Sudeste, com a China, Macau. O respeito que há em muitos países asiáticos pela longa presença de Portugal naqueles países dá-nos alguma vantagem dentro da nossa dimensão. Mas acontece que vamos perdendo oportunidades, pois precisamos de tempo para fazer esse reposicionamento.


Ainda vamos a tempo?

Vamos sempre a tempo, mas quanto mais atrasados mais dificuldades e outros ocupam o espaço que facilmente podia ser nosso.


O vosso trabalho menciona o impacto dos actuais desequilíbrios macroeconómicos...

Sim, porque na UE há uma segunda transformação que resultou da União Económica e Monetária e que trouxe um novo quadro macroeconómico, uma nova Política Monetária. Passámos de uma situação em que tínhamos maior margem de manobra na política orçamental e com uma moeda fraca, para uma situação em que temos uma moeda forte. A moeda forte cria oportunidades mais para uma internacionalização completa: à medida que se aprecia o euro ganhamos vantagem em usar o poder de compra. Precisávamos de ser menos tomadores de preço.


Pode desenvolver?

É difícil de explicar, mas nosso principal problema não é produzir ao mais baixo custo é produzir a valor unitário mais elevado. Para sermos mais competitivos precisamos de ser mais eficientes, mas o acento tónico da nossa competitividade está mais em produzir mais valor do nosso produto e não produzir a custo mais baixo. É este problema que está por detrás da economia não crescer e por detrás de um país a viver acima das suas possibilidades. O nível da despesa do Estado e das famílias está acima do que a competitividade do país permite.


Qual é o vector diferenciador de Portugal, em relação a outros mercados idênticos, que nos permite apresentarmo-nos a um investidor estrangeiro?

Para já era preciso que nos apresentássemos e era preciso fazê-lo todos os dias. Há que ter outra atitude. Ganhámos capacidade de responder aos que nos procuram, mas não ganhámos assim tanta para ir ter com quem nos devia procurar e não nos procurou para lhes dizer: se nos procurasse encontraria isto.


O que é que o investidor encontraria?

Não podemos oferecer um quadro eficiente de decisão pública, não podemos oferecer um quadro de justiça rápida. Mas podemos oferecer uma capacidade de negociação pois, para projectos de alguma dimensão, podemos negociá-los depressa, atribuir incentivos fiscais. E tomar decisões rápidas. Dizer sim ou não no prazo que quiserem. Num contexto diferente [enquanto ministro da Economia de Guterres] percebi que o que os investidores querem é segurança, rapidez e flexibilidade nas decisões. O que achavam importante era garantir que o Governo os acompanhava nas suas decisões de investimento deixando-lhes alguma margem de escolha.


Tem exemplo de situações em que isso ocorreu?

Por razões que desconheço, quando saí do Governo, deixei um acordo de entendimento com a INTEL assinado, para construir um projecto em Portugal. O que trouxe o interesse foi a posição que eu assumi de dizer: Portugal acompanha a vossa decisão por um valor mínimo de investimento e por um valor máximo de investimento. Abaixo de um certo valor o investimento não é estruturante e não temos razões para vos dar incentivos significativos e acima desse valor não temos condições de vos dar incentivos. Mais nenhum país ofereceu confiança e flexibilidade.


Mas o investimento não foi feito em Portugal?

É verdade. Mas eu consegui pôr Portugal no mapa, depois consegui que ficasse entre quatro candidatos, depois entre três, depois entre dois, e depois assinámos o protocolo. A secretária de Estado dos EUA, Madeleine Albright, na altura, era de origem checa, e ela não largou o presidente da INTEL até que ele fosse tomando decisões a favor da República Checa. Mas dou a mão à palmatória porque não me apercebi do que se estava a passar. Mas lá o convenci e acabamos a assinar um memorando de entendimento. Mas saí uma semana depois do Governo e mais ninguém se interessou pelo projecto e o investimento acabou por ser formalizado na Turquia.


Uma das conclusões do relatório é que Portugal tem que ser uma economia mais aberta e atractiva. O que temos para oferecer a quem quer investir em Portugal?

Podemos oferecer coisas muito interessantes do ponto de vista do desenvolvimento turístico, o sector que é o maior gerador de riqueza e de emprego a nível mundial. Não nos interessa uma sobre utilização dos recursos nem um modelo turístico predatório. No Algarve precisávamos de ter tido uma estratégia que alargasse a base territorial, mas nós construímos na falésia. Precisamos de fazer turismo na serra, de excelência. Precisamos de diferenciar para cima o tal valor unitário a subir. Precisamos de captar mercados que não sejam as classes médias da Alemanha, da Holanda e do Reino Unido. Isto é: cada vez mais um hotel não é um hotel, tem uma relação com o património, com a cultura, com os saberes regionais. Em Lisboa pode-se construir um imenso arco patrimonial que mais nenhuma capital europeia tem em diversidade e em dimensão [Sintra, Mafra, Tomar/Templários].


Em vez de afunilar a estratégia deve ser alargar a escala?

O que podia parecer uma sobre exploração de um recurso escasso, passa a ser o contrário: uma coisa harmoniosa do ponto de vista do desenvolvimento regional e local. E pode fazer emergir, para além de três regiões, Lisboa, Algarve e Madeira, onde temos algum sucesso, os Açores, o Alentejo, o Douro, um pouco o Oeste. E aí têm de surgir oportunidades. Este é um terreno onde Portugal tem um trunfo muito grande. E porquê? Porque temos um país tranquilo, diferenciado, relativamente preservado. E com uma boa política consegue-se fazer coisas sérias.


A ideia que persiste é que o país está pouco preservado?

É verdade que existe essa ideia. Mas se por um momento largar Portugal e for europeia e habitante do planeta terra, então fica com outra ideia. Há outra área: temos que perceber que já não somos competitivos em termos de salários. Dentro da UE, na República Checa, na Hungria, na Polónia, há mais de 100 milhões de pessoas com mais escolaridade e salários mais baixos do que os portugueses. Como é que se diz a alguém que se é competitivo? As indústrias da cablagem para automóvel são um exemplo: elas vieram para Portugal quando Portugal era o país da UE com salários mais baixos e saíram quando deixou de ser. Em Portugal há recursos altamente qualificados, temos engenheiros, médicos, gestores, físicos, químicos, gente muito escolarizada, muito competente, pois foi formada em universidades modernas e capazes, mas com salários baixos.


Onde somos muito competitivos do ponto vista dos salários é no que é mais qualificado?

E essa é uma ideia completamente diferente daquela que os portugueses têm.


Por acaso não está a falar do sector dos não transaccionáveis?

Não estou a falar de uma loucura do país, que foi a de voltar a economia toda para o sector dos não transaccionáveis, onde os mercados são protegidos e onde toda agente ganha muito. Estou a referir-me a pessoas que trabalham em sectores com salários de mercado e que comparam muito bem e onde, ainda por cima, do ponto de vista cultural, temos pessoas na casa dos 25 e 30 anos que falam muito bem inglês e são criativos, com licenciaturas, mestrados. E que fazem parte de uma geração onde o raciocino analógico está muito presente e que são muito vocacionados para a programação ou para actividades recreativas. A base é pequena e podia ser maior. Mas é uma base que nos dá capacidade de atrair investimento.


Como se dá o passo em frente para atrair investimento?

Primeiro, não se deve dar tanta facilidade para investimentos virados para dentro. Os níveis de política económica e acção do Estado mostram que se reduziu o risco e aumentou a rendibilidade nos investimentos para a economia portuguesa protegida e se dificultou a vida, aumentou o risco, a quem podia internacionalizar a quem podia produzir bens e serviços, que são só 30 por cento. Desse ponto de vista, se virar a política do avesso, e for decididamente para uma favorável a actividade de bens e serviços transaccionáveis, promove actividades de recursos humanos mais qualificados. Investiu-se nas universidades para ter mão-de-obra qualificada, mas não se investiu na mudança estrutural da economia para criar emprego.


A análise mais aprofundada da economia portuguesa permitiu-lhe pensar em mais propostas que ajudem o país a sair da crise?

Se já tivesse sido posto em marcha um plano de poupança a sério, os portugueses estavam mais seguros, em vez de andarem sem saber o que lhes vai acontecer. Estavam a poupar mais.


No início de 2008 o Governo cortou nos benefícios aos certificados de aforro…

Esses são os erros colossais que se cometem quando se pensa que a Política Pública deve ser feita por artistas, gente que tira coelhos da cartola e fala bem. Claro que falar bem é bom, mas não chega. E esse [corte nos benefícios aos certificados de aforro] é um dos erros da Política Económica que foram cometidos ao longo dos anos e que explicam muitos dos sarilhos em que a economia portuguesa se meteu.


Voltava a apostar nos certificados de aforro?

Até fazia operações novas. Uma emissão especial de obrigações de salvação nacional para as pessoas sentirem que estão a colaborar. Em tempo de guerra as populações reagiram bem a ajudar os seus países, acredito que em tempo de paz reagiriam melhor. E isso pode ajudar o Estado e a banca. A Itália tem um problema de competitividade maior do que o de Portugal, mas continua com uma taxa de poupança elevada. Os italianos continuam a poupar 14 ou 15 por cento, que aplicam nos seus bancos. E, portanto, os bancos italianos têm uma base de captação de recursos que depois reciclam para as empresas, algo que a banca portuguesa não tem. Nos últimos anos a taxa de poupança nacional desceu de 11 ou 12 por cento para seis por cento o que agravou muito as dificuldades. O nosso sistema financeiro pendurou-se em ir captar poupanças ao exterior. O nosso problema não é tanto o nível de endividamento global, mas no facto do nosso endividamento ser sobretudo externo. Medidas deste tipo dariam confiança às pessoas como também dariam se lhes dissermos que, no contexto das medidas de ajustamento, não se tocará em ninguém, rico ou pobre, abaixo de um certo nível, por exemplo de 750 euros. Temos que pôr as pessoas a pensar no futuro e a trabalhar e a pensar que há um caminho. Há que mudar a Política Económica no nosso país. Seria útil as pessoas puderem fazer poupanças a taxas de juro atractivas, e não se tem dificuldade nenhuma em montar operações em que se tem poupanças com rendimentos a taxas de juros a quatro ou 4,25 por cento. Seriam operações concebidas ao nível dos bancos, mas em articulação com o Estado e onde os bancos se capitalizam e o Estado obtém financiamentos.


É favorável à redução da Taxa Social Única (TSU)?

Depende. Se a medida for feita com uma forte solidez técnica pode ser interessante, mas não resolve os problemas, mas permite trazer alguma rendibilidade às empresas que a perderam nos últimos anos. E se ela for implacável no sector regulado, virado para o sector interno, se transformar as reduções da TSU em reduções de preços (o que reduz na TSU não vai para a empresa, vai para os consumidores), e beneficiar o sector exportador pode ser positiva. Mas é preciso que isto aconteça. E podemos sempre adoptar medidas do tipo: Se tiver mais sucesso nos próximos três anos do que teve nos três anteriores, nós sobre isso damos incentivos fiscais que na prática significam reduzir a taxa de imposição do IRC. Portanto temos à disposição mecanismos que podem induzir as empresas a ir por aí.


Uma das preocupações do relatório foi chamar a atenção para a sobredespesa do país...

E podemos falar da reorganização institucional do país. Uma medida ousada de revisão de freguesias e concelhos, não dominada pela lógica economicista da poupança de dinheiro, mas dominada pela lógica de adaptar a organização do território àquilo que é o povoamento do país e às necessidades de eficácia, de massa crítica, de gestão pode ser uma vantagem muito grande. E estou optimista porque contra toda a minha expectativa o trabalho que fiz para a Câmara Municipal de Lisboa produziu algo que achava difícil: o entendimento entre PS e PSD. Não concordo com tudo o que foi feito, mas reduziu-se o número de freguesias e aproximaram-se certas decisões do nível mais fino e trouxeram-se outras para cima onde podem ter massa crítica e dimensão estratégica. Podemos fazer isto ao nível do país e com isso alterar a situação. Se pusermos as famílias a poupar mais, a consumir melhor, se corrigirmos essa sobre despesa que o relatório caracteriza bem, sem destruirmos nada em que o país converge, então há razões para se ser optimista.


Há uma ideia nos liberais, e que é defendida por alguns grupos que apoiaram Passos Coelho, de que um país não precisa de política económica...

Sim, excepto quando estão atrapalhados e precisam do Estado.


Não se corre o risco de esta ideia poder prevalecer em futuros governos?

Não acho que o PSD tenha essa corrente. Essa é uma realidade da campanha eleitoral e uma linha de ataque ao PSD. Claro que o PSD tem essa corrente e tem também uma corrente que não tem futuro, que é a de pensar a Política Pública como uma empresa. A Política Pública não é uma empresa. A boa Política Pública faz coisas diferentes do que as empresas e não se mete com as empresas. Está tão errado o estatista que na prática gostava de ser empresário, quanto o empresário que por ter tido sucesso numa empresa vai tentar aplicá-la nas Políticas Públicas. O mundo mais equilibrado, de maior sucesso, é aquele que dá ao mercado o que é do mercado, ao Estado o que é do Estado. E não há défice de equidade no que respeita à Política Pública.


A Política Pública deve definir o quê?

As regras de equidade. E tem a grande responsabilidade, que mais ninguém tem, que é harmonizar a busca de produzir com mais eficiência, com a busca de fazer aceder o máximo possível de pessoas aos frutos desse crescimento. E, portanto, creio que aqui não é tanto uma questão de partidos, porque todos têm um défice de adesão às novas Políticas Públicas. Veja a facilidade com que em Portugal se inventam coisas sobre os combustíveis. E estou à vontade porque não tenho nem acções da Galp, nem de outra empresa, nem estou ligado a elas. Mas o nosso mercado comporta-se tal e qual como era esperado incluindo a dança de preços, como dizem os bons economistas que têm estudado este tipo de ciclo de mercados em todo o mundo.


Essa é outra ideia que não se tem...

Repare que entre duas bombas de gasolina, se tiver diferença de cêntimos, é a diferença entre vender muito e não vender quase nada. Qual é a realidade que temos? Tínhamos dois países na Europa com política de combustíveis irresponsável: a Espanha e a Grécia. Sobra um que é a Espanha, pois a Grécia com a crise já alterou a sua política. Temos azar porque somos o único país cuja única fronteira terrestre é com a Espanha que tem uma política fiscal de preços com menos fiscalidade que a dos outros países. E a Espanha foi o único país cujo consumo de combustíveis cresceu durante a primeira década do século XXI. Em mais nenhum país da Europa isso aconteceu. A Espanha pactua com as emissões de CO2.


A fiscalidade é útil do ponto de vista da preservação do ambiente?

Sim e, portanto, Portugal está do lado certo. Há pessoas que me dizem: eu vou a Espanha e ponho combustível mais barato. É verdade, mas à custa dos impostos. O que temos é que criar economias mais libertas do carbono, temos que fazer coisas mais sustentáveis a favor do planeta. Existe muita precipitação à esquerda e à direita sobre como é que se regulam os mercados.


Falou no turismo, na saúde, no desenvolvimento industrial. Há sectores que devem ser estratégicos…

A Política Económica nessa matéria, deve ser mais clara do ponto de vista do como e não do onde. Devemos criar condições para que gente qualificada, em vez de pensar num emprego estável para a vida, num banco ou numa universidade, mas que sejam empreendedores, tenham ideias. A vida do empreendedor faz-se com algumas derrotas. No século XX tivemos uma breve ilusão que durou uma geração, 25 anos, entre o final da II Grande Guerra e o choque petrolífero de que podíamos ter emprego para todos. Temos que construir uma sociedade onde haja trabalho para todos e não emprego para todos. Uma coisa é ter uma política que promova o empreendedorismo, outra é dizer que tem de ser de base tecnológica. Por que é que tem que ser de base tecnológica? Consegue-se revitalizar o centro de uma cidade, sem a revitalização comercial? Não consegue. E é de base tecnológica ter de perceber a vida das lojas, os novos cafés? Não.


Onde é que somos bons?

Em muitas indústrias de bens de consumo que estão a ser desbaratadas, tais como os têxteis, o calçado, os móveis, cerâmica, os pavimentos. Portugal ficou preso ao debate do quê. Somos bons a fazer a casa, a fazer a mesa, a fazer o quarto, mas não assumimos isso. Somos bons no conforto do lar. E depois não somos capazes de assumir isso, de fazer o marketing, fazer um cluster, de por as empresas a colaborar umas com as outras.


Como aconteceu no sector dos moldes?

No sector dos moldes isso correu-nos bem. O sucesso dos moldes é construído na internacionalização das empresas e há muitos anos. Nos últimos 30 anos houve empresários e empresas que foram escolas e de onde saíram outros empresários e outros trabalhadores. Nos moldes havia diálogo e acção colectiva. Nós ainda hoje, e apesar da crise, temos uma rede de capacidade industrial que pode ser aproveitada.


A necessidade de voltar a ter um sector agrícola dinâmico está na ordem do dia. O que pensa?

Na agricultura a coisa pode correr-nos bem se for de grande valor. Quando se faz azeite e vinho como se faz medicamentos, de forma sofisticada, criando riqueza, sabendo que se está a produzir para um mercado de alto valor, vai ter sucesso. Portugal não tem dimensão para ser um grande produtor em quantidade de vinho, mas para ser um excelente produtor de vinhos altamente qualificados.


No que se depreende está optimista, por um lado, e pessimista, por outro?

Os desafios e os problemas são gravíssimos e é preciso uma mudança na Política Económica muito grande. Desse ponto de vista ainda não tenho tempo para estar optimista, mas tenho uma base optimista porque há elementos no memorando acordado com o FMI, CE, BCE que são verdadeiras oportunidades para se fazerem as mudanças necessárias, mas há também elementos que se forem postos em marcha precipitadamente podem ser muito negativos. Portanto diria que a dimensão dos problemas é grave, mas há soluções. E mais soluções haverá se incutirmos confiança ao conjunto dos cidadãos. E essa confiança pode ser incutida a partir da sua própria vida: o seu consumo, o seu rendimento. Veja como é fácil ter uma população que sente que não é deixada ao abandono. Podemos responder na saúde com voluntariado, com solidariedade e podemos responder com Políticas Sociais proporcionadas às necessidades e recursos do país. O meu pessimismo resulta também do facto das pessoas terem medo da solução.


Concorda com o amplo programa de privatizações imposto pela troika?

O documento identifica as empresas e os prazos. Concordo que as empresas referidas são susceptíveis de ser incluídas no programa de privatizações e também concordo que é necessário e útil vender activos para conseguir reduzir o nível de endividamento. A questão central, no entanto, é a de que não se devem fazer privatizações numa lógica exclusivamente financeira, sendo necessária uma estratégia global associada ao relançamento do crescimento da economia portuguesa para que as privatizações possam ter sucesso.


Com a saída do Estado do sector empresarial não há risco de Portugal perder algumas das grandes empresas estratégicas?

O quadro da UEM, na Europa, e da globalização, no mundo, obriga a ritmos muito mais intensos e exigentes de investimento e inovação por parte das empresas. O Estado português não tem outra possibilidade, nos próximos anos, senão a de concentrar drasticamente o investimento público no que é essencial e reprodutível com toda a segurança. Isto significa que a presença do Estado como accionista maioritário ou de referência pode conduzir a uma penalização do próprio desenvolvimento competitivo das empresas em causa. Por isso, qualquer estratégia de privatizações precisa de ser bem elaborada porque cada empresa tem características próprias e contribui de forma diferenciada para o desenvolvimento económico do país. Também me parece adequado que o Estado aproveite esta ocasião para reformar a sua relação com o sector empresarial onde detém posições accionistas.


O Estado deve sair de todas as empresas, ou deve manter posições, ainda que parciais, nalguns sectores?

Na maioria dos casos, o interesse público pode ser melhor defendido através de regras e de acordos transparentes do que através da presença accionista no capital. Admito, no entanto, que em certos casos, que as privatizações sejam parciais, desde que as necessidades de investimento não sejam muito exigentes e o papel do Estado seja o de funcionar como “regulador de proximidade” acompanhando e estimulando a contribuição económica e social da empresa. Mas, na maioria dos casos, será preferível que a regulação seja exterior seja pela optimização do papel dos reguladores, seja pelo estabelecimento de contratos que definam com rigor as obrigações a que a actividade das empresas privatizadas ficam sujeitas. Privatizar não significa ausência de regras nem diminuição da defesa do interesse geral. O que interessa é que as políticas económicas saibam, em cada momento orientar as empresas para regras de funcionamento que permitam gerar valor para os accionistas, seguramente, mas necessariamente, também, para os trabalhadores, os consumidores e as próprias regiões e países que as acolhem.


Da lista de empresas a privatizar quais é que lhe merecem reservas?

As privatizações que merecem maiores cuidados e necessitam de enquadramento estratégico de mais longo prazo são, sem dúvida, as que se relacionam com os bens e serviços ambientais (como as águas) e com a mobilidade internacional (como a TAP). Em ambos os casos, é imprescindível favorecer uma melhoria competitiva estratégica e, em matéria ambiental, é seguramente necessário encontrar soluções que permitam oferecer condições de qualidade e segurança na satisfação das necessidades das populações. O documento não me coloca especiais reservas a não ser no que respeita a alguns desequilíbrios nos prazos definidos que podem conduzir a precipitações que deveriam ser evitadas.


Concorda com a venta da totalidade do capital da TAP, tendo em conta a aposta no sector turístico e na relação com países lusófonos?

A privatização da TAP deve ser um instrumento para permitir reforçar a sua posição e do sistema de aeroportos português no quadro mais vasto da actual aliança de companhias onde está a TAP, para favorecer a valorização da posição de Portugal no Mundo, o desenvolvimento do turismo e a internacionalização das nossas empresas. A privatização da TAP levanta, assim, uma dupla questão. Apoiar o objectivo de ter “mais Portugal no Mundo” valorizando, nomeadamente, a nossa ligação aos países de língua oficial portuguesa e aos países emergentes com quem podemos partilhar diferentes formas de cooperação e apoiar o objectivo de ter “mais Mundo em Portugal” favorecendo, nomeadamente, a valorização dos nossos recurso endógenos.


O que propõe?

A privatização da TAP não deve ter uma vocação financeira em sentido estrito, devendo ser encarada como uma oportunidade para desenvolver e reforçar a mobilidade internacional. A questão chave continuará a ser a da articulação dos modelos de privatização com o modelo de construção do novo aeroporto de Lisboa, reforçando a atractividade e competitividade do nosso país e das nossas regiões, através da “montagem” de parcerias internacionais onde, necessariamente, a relação com a Alemanha, através da configuração da Star Alliance, assume especial relevância. As escolhas em torno do modelo de privatização da TAP são muito mais importantes para acelerar a internacionalização de Portugal do que para obter um encaixe financeiro.


Acredita que daqui a três anos, Portugal vai estar em melhores condições do que as de hoje?

O memorando [assinado com a


troika

] é uma oportunidade para corrigir situações que já deveriam ter sido corrigidas e reformadas há muito tempo. Devemos usar esta oportunidade para nos desenvolvermos, para aumentar a poupança interna, pôr ordem nas finanças públicas e torná-las sustentáveis, tomar medidas que dêem confiança aos consumidores e aos empresários e que permitam chegar ao final do ajustamento com um tecido empresarial mais robusto, inovador e competitivo. Se conseguirmos isto, sem medo de uma austeridade justa e proporcionada e com coragem para ser ousado no favorecimento do investimento privado e do crescimento económico, então daqui a uns anos o país estará mais sólido e os sacrifícios terão valido a pena.

Versão integral publicada às 10h22