Conservação

Aquário Vasco da Gama liberta para o rio exemplares de espécie de peixe ameaçada

O ruivaco-do-oeste
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O ruivaco-do-oeste Foto: Rui Gaudêncio/arquivo

O Aquário Vasco da Gama vai amanhã lançar 400 ruivacos-do-oeste no rio Alcabrichel, região de Torres Vedras. O peixe só existe em Portugal, é das espécies que corre maior risco de extinção e é natural de apenas mais dois rios do Oeste português, o Sizandro e o Safarujo.

“Esta libertação ainda é experimental, para ver como é que a população vai reagir”, disse por telefone ao PÚBLICO a bióloga Fátima Gil, responsável pela manutenção dos peixes em cativeiro no aquário de Lisboa, onde promove a reprodução ex-situ desde 2006, quando recebeu 20 indivíduos vindos da natureza.

O ruivaco-do-oeste, Achondrostoma occidentale, foi identificado como espécie em 2005, pelo ISPA. A investigadora Carla Sousa Santos tem vindo a desenvolver um trabalho de caracterização e conservação. As secas da última década e a poluição destes rios, que têm apenas algumas dezenas de quilómetros, são algumas das pressões que dificultam a manutenção das populações.

Vítor Almada, professor Catedrático do ISPA, que orientou o trabalho de Carla Sousa Santos, decidiu formar em 2006 um projecto de conservação de várias espécies de peixes portugueses, com o Aquário Vasco da Gama e a Quercus. A Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa, a Câmara de Figueiró dos Vinhos e a EDP juntaram-se ao projecto posteriormente.

A Quercus está a recuperar um troço de 300 metros do rio Alcabrichel para o repovoamento dos peixes. No final do Verão passado, a associação arrancou o canavial que ocupava as margens do rio, estabilizou as margens e plantou “mais de duas mil árvores”, explicou ao PÚBLICO Paulo Lucas, da Quercus. Foram ainda construídas estruturas de madeira para produzirem zonas mais profundas no rio chamadas fundões, onde os peixes se protegem no Inverno quando o caudal é forte e no Verão, quando há menos água.

A 27 de Março já tinham sido libertados 400 peixes da Estação Aquícola de Campelo, que também está envolvida na reprodução ex-situ desta e de outras espécies de peixes portugueses que estão em perigo. Segundo Fátima Gil, o facto de o Aquário Vasco da Gama ir lançar exactamente o mesmo número de peixes pode ter uma explicação. A estação de Campelo foi buscar os seus ruivacos à população que já existia no Aquário Vasco da Gama e cada centro ficou com metade dos peixes. “Como partimos do mesmo número, acabámos com os mesmos excedentes.”

O sucesso do repovoamento não está garantido. Segundo Paulo Lucas, perto do Alcabrichel há suiniculturas que ainda não têm tratamentos de esgotos e que lançam os detritos directamente para o rio. “Vamos iniciar o programa de monitorização da água e tentar sensibilizar os agentes públicos que autorizam ou inibem as descargas”, explicou. O ambientalista insistiu que estas suiniculturas, por não gastarem dinheiro com sistemas de esgoto, acabam por pôr no mercado o quilo da carne mais barato, o que é “uma concorrência desleal” para com os produtores que adoptam boas práticas.

O ISPA ficará responsável pela monitorização da espécie. Durante o Verão, a Quercus vai colocar redes de ensombramento, um método artificial que substitui o papel das árvores enquanto estas não crescem. As redes “evitam que a temperatura da água aumente”, explicou Paulo Lucas. A água perde a capacidade de reter o oxigénio à medida que vai ficando mais quente, o que pode matar os peixes.

“O trabalho no terreno vai continuar a médio prazo”, garantiu o responsável, adiantando que o próximo rio que vai ser alvo de melhoramento será o Sizandro.

Notícia actualizada às 17h40