Reportagem

Avis, o concelho mais comunista de Portugal

A sede do PCP em Avis é antiga, humilde, mas onde todos convergem
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A sede do PCP em Avis é antiga, humilde, mas onde todos convergem Foto: Rui Gaudêncio

Desde 1976 que o PCP vence todas as eleições neste município do Alto Alentejo. Uma viagem ao concelho mais vermelho de Portugal.

O mural está desbotado. As cores do mapa de Portugal com a frase "25 de Abril Sempre" parecem ainda mais pálidas, agora que o edifício da Câmara Municipal de Avis está em obras de remodelação. Mais abaixo, a sigla do PCP surge numa parede da praça que agora é parque de estacionamento de carros e entulho das obras.

Os dois murais mostram os sinais da passagem dos anos. Mas o restauro em curso vai mantê-los. Pelo menos o primeiro será restaurado. Tal como as votações no PCP durante as eleições. Nas presidenciais, venceu o candidato apoiado por aquele partido, Francisco Lopes, com mais de 44 por cento dos votos. E desde 1976 que os comunistas ganham as corridas eleitorais no concelho. Sejam elas autárquicas, legislativas, europeias ou presidenciais.

O voto no PCP está "arreigado" em Avis, reconhece o actual presidente da câmara, o (obviamente) comunista Manuel Coelho. Devia ter dito enraizado. Como as plantações que a Cooperativa Primeiro de Maio levou a cabo nos anos quentes que se seguiram ao 25 de Abril. Avis foi território de uma das mais importantes Unidades Cooperativas de Produção do país, a Primeiro de Maio, que, apesar de já não existir, ficou gravada na memória da terra.

João Feio, "Passita" de alcunha, é desses tempos. Agora "mal reformado", 73 anos, vai compondo o bolso com uns biscates de carpintaria. Esteve ligado à reforma agrária "através da organização do partido". É dos que acreditam que as actuais votações do PCP no concelho se explicam com o "papel fundamental nas ocupações e na orientação das medidas a tomar". Manuel Coelho, o autarca, é muito mais novo mas vai mais atrás. Lembra que os comunistas foram os únicos ao lado dos trabalhadores quando, antes do 25 de Abril, se lutava por terra e contra a fome.

A cooperativa Primeiro de Maio é hoje apenas memória. Extinta em 1986, foi das maiores e mais importantes do género que nasceram dos anos quentes do 25 Abril. "No concelho recebíamos muitas delegações entrangeiras, e não eram só do Bloco de Leste", recorda Leonor Xavier, actual responsável concelhia do PCP.

Apesar do fracasso da experiência, os avisenses não culpam o PCP. Estão convencidos de que não os deixaram sequer tentar o sucesso. João Feio regressa ao passado para dar um exemplo que traz consigo. Nesses tempos trabalhava na cooperativa de construção civil que existia em Avis. E recorda como a Cimpor a asfixiava. "Eles recusavam passar guias de levantamento de cimento às cooperativas", afirma.

Manuel Coelho explica que os tempos das cooperativas marcaram muito a terra e as pessoas. E outras coisas vieram por arrasto: "Não foi uma transformaçãozinha. Avis, durante esse período, viu as terras a produzir, praticamente não havia desemprego. Conseguiu-se um conjunto de conquistas sociais. Só para lhe dar um exemplo, antes havia duas ou três mercearias. E eu lembro-me que foi nessa altura que apareceu o primeiro supermercado, onde as pessoas podiam comprar carne, peixe, roupa."

Por arrasto vieram também as creches, lembra Manuel Coelho, que acolhiam os filhos dos trabalhadores das cooperativas e até de outros.

As creches também saltam da memória de Leonor Xavier. Ao olhar para algumas fotografias dos tempos da reforma agrária, encontra um retrato de uma dessas instalações. Com um sorriso vai reconhecendo algumas das crianças. "Esta agora tem um supermercado", aponta, antes de reconhecer outra menina agora emigrante.

Leonor Xavier fixou-se em Avis em 1981. Já era funcionária do PCP antes disso e foi essa qualidade que lhe permitiu assistir aos anos das ocupações. Hoje em dia é a responsável concelhia do partido.

Desses tempos, guarda recordações fortes. "Por muitas contradições que lhe possam apontar, foi quando o concelho teve mais trabalho. Só não trabalhava quem podia, nem quem era quem não queria."

A herança colectiva...

Mas segundo os responsáveis comunistas, não é só no passado que se encontram as explicações para as vitórias eleitorais. Leonor Xavier considera "essencial" a "ligação às pessoas": "Tudo o que fazemos é aberto a participação de todos." Sessões, reuniões e até o bar da sede concelhia, cujas paredes ostentam retratos de Álvaro Cunhal e até bucólicas paisagens russas de Inverno. "Quem quer entra no bar da sede, quando está aberto ao fim-de-semana."

O autarca garante que os plenários e sessões "não são momentos chatos". Discute-se a situação política, económica e social. Leonor Xavier acrescenta que aí qualquer um pode intervir directamente. "Não é como no Prós e Contras [programa televisivo de debate], aquilo ali é só prós...", comenta.

E além das reuniões, há as festas do partido. E a forma como os comunistas fazem campanha. "Nesta fizemos porta a porta. Tivemos 25 pessoas na rua. Dos outros, só se viu uma faixa do Manuel Alegre lá em baixo (na zona baixa da vila)", assevera Manuel Coelho. Uma forma de operar antiga. O peso do PCP no concelho sempre foi relevante.

... ou um controlo eficaz?

Roberto Grilo, presidente da secção de Avis do PSD, reconhece que o PCP lucrou com os "líderes carismáticos" que teve no passado. Cita os exemplos de Correia da Silva e do antigo autarca António Bartolomeu. Em seu entender, isso ajuda a explicar porque é que num distrito em que o PSD tem eleitos em 10 das 15 câmaras, aqui não há nenhum. Mas há outras razões.

Grilo afirma que o PCP faz o "controlo muito eficaz do voto", através da concessão de postos de trabalho na câmara e afins. Diz que os responsáveis trabalham no sentido de "manter tudo na dependência da câmara". Dá um exemplo: "A câmara tem o parque de campismo na sua mão e não o concessiona." A autarquia é, portanto, o maior empregador do concelho. "Os jovens, ou se convertem em votantes, participantes, ou então não têm espaço para trabalhar", resume, depois de criticar a falta de aposta no desenvolvimento de condições para o aparecimento de iniciativa privada. "O concelho é a câmara municipal, a Misericórdia e a Dardico", afiança. Esta última, no negócio dos produtos agrícolas, fundada por "pessoas de fora".

Os tempos são agora outros. Resiste a Cooperativa 29 de Julho na freguesia de Aldeia Velha, já sem a pujança dos anos 70 do século passado. Aguenta-se graças a "duas ou três famílias" que olham por aquilo, como conta João Feio. "Uns restos de cooperativas", resume.

A agricultura deu lugar ao turismo. A unidade hoteleira AvisAqua, recentemente inaugurada, é apresentada como um caso de sucesso no seu nicho de mercado. A Albufeira do Maranhão passou a ser o orgulho dos responsáveis autárquicos. Falam das inúmeras selecções olímpicas de remo que ali estagiam durante o Inverno. Inglaterra, Dinamarca, Noruega, até a Nova Zelândia.

Mas para os mais velhos, deve custar passar pela casa onde era a creche da Primeiro de Maio. O que antes era de todos passou a ser só de uns. Aquela casa é agora da actual ministra da Cultura do Governo socialista de José Sócrates. Que lá por ser vizinha de fins-de-semana não tem por isso direito a mais votos em Avis. Isso fica para o PCP.