Para um editor escolar, editar ficção é fácil

João Guilherme
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João Guilherme

Consolidada a liderança no livro escolar, Vasco Teixeira, responsável editorial da Porto Editora, achou que era tempo de apostar noutros domínios. Com a compra da Bertrand tornou-se, aos 55 anos, o rosto de um grupo que emprega 1400 pessoas e deverá facturar, em 2011, 150 milhões de euros. É um apologista da concentração editorial, porque esta evita que a indústria do livro fique nas mãos de estrangeiros e lhe dá melhores condições para enfrentar os desafios do digital

Com a compra da Bertrand, no final de Junho, a Porto Editora, até agora quase circunscrita ao livro escolar, tornou-se o maior grupo editorial português, valendo, em volume de negócios, praticamente o dobro da Leya. Vasco Teixeira, co-proprietário e o seu responsável editorial, diz que vai manter as chancelas, as livrarias e os funcionários da Bertrand. A maior ameaça que vê no futuro próximo é a pirataria informática, que, avisa, pode destruir o mercado do livro, como destruiu o da música.

Em 2002, comprou a Areal e a Lisboa Editora, ambas do ramo escolar, mas no início deste ano adquiriu a Sextante, o que já sugeria a intenção de entrar no mercado da ficção, agora confirmada com a compra da Bertrand. E já antes a Porto Editora lançara algumas colecções fora do escolar. Esta estratégia vinha sendo pensada há algum tempo?

Decidimos diversificar para a literatura em 2006. A questão já estava em cima da mesa desde meados dos anos 90, mas fomos privilegiando as novas tecnologias. Achámos que não íamos diversificar ao mesmo tempo em duas direcções e optámos pelo multimédia. Dez anos depois, quando já tínhamos feito 50 ou 60 CD-Rom e não sei quantas versões da Diciopédia, entendemos que estávamos preparados para entrar numa área muito diferente. Depois a Leya mandou borda fora o Manuel Alberto Valente, que era um dos principais activos da Asa, e tivemos a sorte de ele estar disponível. Isto foi em 2008; em 2009 comprámos a Sextante, e a seguir veio a Bertrand.

Falando agora no negócio da Bertrand...

Não é público, mas a Porto Editora já tinha tentado comprar a Bertrand em 2006 e perdeu para os alemães da Bertelsmann. Mas fomos estando atentos, porque sentíamos que o grupo Bertelsmann, mais tarde ou mais cedo, se iria desinteressar do mercado português. Ao venderem a Bertrand, fizeram alguma questão de saber quem tinham do lado de lá, que perspectivas havia para aquelas empresas.

Está a sugerir que não foi só pagar mais?

Muito provavelmente, não foi. É evidente que o dinheiro pesa muito, mas admito que não faltassem candidatos dispostos a pagar o mesmo que nós.

E quanto é que pagou?

Isso não foi divulgado, nem vai ser.

Em 2009, a Porto Editora teve um volume de negócios que rondou os 95 milhões de euros, ligeiramente superior ao da Leya. Que números espera com a entrada da Bertrand?

À volta de 150 milhões. Não duplicámos, mas andamos lá perto.

O interesse da Leya na Bertrand inflacionou o negócio?

Não me parece. A Leya, a certa altura, até disse que desistia. Havia um interessado espanhol, que ainda hoje não sei quem era.

O grupo Bertrand tem centenas de trabalhadores. Vai mantê-los?

São 600 e tal a juntar aos 700 e tal que já tínhamos. Faremos uma gestão rigorosa, mas neste momento não vejo razões nenhumas para não manter as pessoas. E quase de certeza manteremos as chancelas com as suas características próprias. Claro que as evoluções do mercado nos hão-de dizer se temos de manter, crescer ou diminuir. Algumas possíveis alterações resultarão do modo como o Governo português lidar com a questão da pirataria. 

É uma ameaça grave no sector do livro?

Não no presente, mas para o futuro. Ao contrário do que está acontecer noutros países, onde se fazem leis e tomam medidas, em Portugal o fenómeno tem pouca visibilidade e não parece preocupar os responsáveis políticos. Mas quando os livros estiverem todos disponíveis em sites piratas - e isso vai acontecer nos próximos cinco a dez anos -, deixa de haver autores, editores e livrarias, e as bibliotecas vão passar a chamar-se museus, porque deixarão de ter livros novos.

Abstraindo-se dos seus interesses pessoais, acha que este fenómeno de concentração editorial em Portugal é saudável?

Acho que a concentração, num país pequeno como Portugal, é razoavelmente saudável, desde que seja regulada. O livro é um mercado difícil. E temos o desafio do digital. Se a Autoridade da Concorrência tivesse dito que não ao negócio, a Bertrand teria sido comprada por espanhóis e as suas políticas seriam definidas em Madrid. Se amanhã lhes interessasse fechar, fechavam.

Tem uma grande experiência no livro escolar, mas agora vai entrar noutro mundo, que implica, por exemplo, competir por autores...

Isso é o mais fácil. Há algum desconhecimento da função do editor escolar, que é de todos o mais polivalente. Imagine um livro de um autor português conhecido: a editora que o publica pouco ou nada faz. O autor escreve o livro e envia-o por email, e provavelmente sugere a imagem para a capa. A editora só tem de contratar um paginador. Se for ficção estrangeira, o editor tem uma intervenção importante na escolha do tradutor e no editing, e desempenha um papel muito relevante, que é o de fazer com que as obras cheguem ao público. Mas acrescenta pouco aos livros e as competências técnicas que se lhe exigem são restritas. Editar um livro escolar custa talvez 20 vezes mais, requer mais tempo e envolve muito mais pessoas. Para um editor escolar, publicar literatura ou ensaio é fácil. O difícil é gerir bem a linha editorial.

Mas antes de o autor entregar o original, foi preciso garantir que ele não o entregasse a outro.

Já foi assim.

Não acha que as transferências de quadros entre editoras mostram que há pessoas que ainda fazem a diferença?

Sim, mas porque os autores se sentem confortáveis a falar com alguém em quem confiam, e não tanto pelo valor que essa pessoa possa acrescentar ao livro.

Ainda assim, com esta abertura a um sector que conhece pior, não ficará mais dependente do conselho de terceiros?

Eu aprendo rápido. E temos um conjunto de gente muito capaz, mesmo na área literária. Não é por acaso que o agente do Vargas Llosa nos entregou o próximo romance dele [El Sueño del Celta] nas vésperas da atribuição do Nobel da Literatura. A Quetzal assinou o contrato, que eu validei, 15 dias antes do prémio.

E isso não se ficou a dever a Francisco José Viegas?

O Viegas já está há dois anos na Quetzal, e o Vargas Llosa publicou entretanto outros livros. Claro que é um excelente quadro e um óptimo director editorial da Quetzal, mas a Porto Editora veio trazer ao grupo Bertrand uma credibilidade ainda maior. E isso potencia as coisas.

Nas polémicas sobre o livro escolar, atribui-se muitas vezes o sucesso da Porto Editora ao facto de haver muitos professores ligados à empresa. E são os professores que escolhem os livros.

Os professores são muito rigorosos na análise dos livros. Sabem que vão ter de os usar durante seis anos e só se fossem masoquistas é que não escolhiam o que acham que será melhor para dar aos alunos. E o Ministério da Educação, cuja política tem aspectos com os quais não concordo, também introduziu algumas alterações que vieram tornar a selecção dos livros bastante rigorosa. Eu diria que esses comentários resultam de alguma inveja face à posição da Porto Editora no mercado do livro escolar.

Diz que não concorda com algumas políticas do ministério. Quer especificar?

A gestão política dos conteúdos educativos é muito preocupante. A legislação é razoavelmente liberal e todo o discurso político tem sido de apoio à indústria de conteúdos. No entanto, a prática do Ministério da Educação é o oposto disto, tem cedido à tentação de se tornar ele próprio produtor e gestor de conteúdos educativos. Faz, por exemplo, uma coisa chamada Portal das Escolas, onde coloca este tipo de conteúdos. Não se sabe quem os fez, nem quanto se gastou, e não foram certificados por ninguém, mas, ao colocá-los na Net, o ministério está a concorrer directamente com a indústria.

A Porto Editora foi pioneira, em Portugal, no sector do multimédia. Acha que o futuro do livro está no digital?

Acho que não, acho que o papel e o digital vão ser complementares. Está tudo ainda no início, quer do ponto de vista tecnológico, quer do ponto de vista legislativo. Ou me engano muito ou vamos assistir, na edição, a transformações comparáveis às que aconteceram na rádio, no cinema e na televisão: um novo meio não acaba com o anterior, mas altera-o.

Mas alguns tipos de livros, como as enciclopédias, podem vir a desaparecer rapidamente?

Essas já desapareceram. Não faz sentido editá-las em papel. Os dicionários em vários volumes também vão desaparecer, e o mesmo sucederá aos manuais para o ensino superior, muito técnicos e muito caros. Alguns livros desaparecerão por razões de funcionalidade, outros por motivos económicos. O digital é mais barato e de mais fácil acesso. Mas tudo isto irá depender muito das gerações futuras. O meu palpite é que os miúdos que hoje têm cinco ou seis anos irão ler muito poucos livros em papel, quando chegarem à idade adulta. E nós, se calhar, daqui a 20 anos ainda os leremos.

Em termos económicos, qual é hoje o peso do multimédia na Porto Editora?

É pouco, menos de cinco por cento.

Mas fazem investimentos consideráveis nessa área?

Investimos, porque acreditamos que o multimédia vai complementar o papel, e, se não investíssemos agora, perceberíamos daqui a uns anos que isso tinha sido fatal.

A Bertrand, enquanto grupo livreiro, não tinha muito boa reputação entre os editores. Vai manter as livrarias?

A Bertrand teve dificuldades financeiras, sobretudo antes de ser vendida ao grupo Bertelsmann, ainda que nem todos os problemas tenham sido resolvidos. Algumas das críticas já estão ultrapassadas, mas há trabalho a fazer. Já aumentámos uma livraria e admitimos pessoas. Não sei se vamos fechar alguma que funcione mal, mas não vamos vender.

Isso implica que a Porto Editora apostará decisivamente no mercado livreiro?

Já tínhamos experiência no retalho. Não tínhamos era uma presença forte, porque não achávamos importante tê-la. Isso mudou com a aquisição da Bertrand, que tem um conjunto de 54 livrarias a funcionar razoavelmente bem.

Nas livrarias, vai concorrer com as Fnac?

Um pouco, mas as Fnac têm vindo a crescer muito na área das tecnologias, onde concorrem com as Worten e a Rádio Popular, e perderam peso no livro.

Do ponto de vista dos leitores, um dos problemas em Portugal é não haver livrarias de fundos.

Não há fundos nem vai haver. Isso passou para o online.

Até se tentou fazer uma grande livraria de fundos em Lisboa - a Byblos, de Américo Areal -, mas não durou muito.

O mercado do livro não é elástico. Foi uma coisa que todos aprendemos. Se tenho uma livraria com três mil metros quadrados, que era o tamanho da Byblos, não vendo mais do que venderia numa com 200 metros quadrados. Pelo menos naquele sítio, atrás das Amoreiras, onde passa o camião do lixo.

Um fenómeno relativamente recente é o facto de muitos livros começarem a já não aparecer nas Fnac e Bertrand do Porto. Vê-se isso, por exemplo, na poesia.

É um facto que o Porto é marginal. É uma questão de escala, de dimensão, de poder de compra. É um fatalismo. Se me perguntar se daqui a dez anos ainda se edita poesia em Portugal, dir-lhe-ei que não. Quando muito, teremos algumas edições artesanais.

Mas também têm nascido pequenas livrarias especializadas.

E haverá mercado para isso. Para o tipo que faz uma edição de 30 ou 50 exemplares, que os amantes de poesia comprarão.

A Leya já está no Brasil e o grupo Babel, de Paulo Teixeira Pinto, anunciou que irá lá construir uma editora de raiz. A Porto Editora não vai seguir este caminho?

Aquilo que a língua nos facilita no Brasil já não é tanto quanto isso. Os livros têm de ser muito adaptados e, no multimédia, as locuções têm de ser todas refeitas, porque a forma de construção das frases é muito diferente. E o Brasil tem hoje grupos editoriais fortes e instalados. Claro que também lá há muitas oportunidades, mas entendemos que devíamos diversificar mais em Portugal e estabilizar estes novos crescimentos. Desde 2009 que temos estado empenhados no negócio da Bertrand, e há uma década que vimos crescendo consistentemente em África, em Angola e Moçambique.

Não acredita, portanto, na retórica de que o acordo ortográfico facilitará o intercâmbio editorial entre Portugal e o Brasil?

Não acredito nada. Aliás, já há provas disso. O Brasil aplicou o acordo há dois anos e, portanto, os livros brasileiros já deviam estar todos a circular por aí. Não vejo nada, não veio nem mais um livro do Brasil por causa disso.

O brasileiro é uma língua que ainda não se assumiu como autónoma, mas que tende para se autonomizar do português. O acordo é um pequeno remendo. E tem vários erros técnicos. Os editores foram sempre contra o acordo até ele ser aprovado, mas por razões mais técnicas do que comerciais ou ideológicas. Não nos aquece nem nos arrefece, mas cria problemas em África. E a isso se deve, creio eu, este compasso de espera na sua aplicação. O Governo sabe que o acordo não resolve nada na relação com o Brasil, mas, se o aplicarmos de forma teimosa e cega, corremos o risco de nos afastarmos do português que se escreve em África, que é igual ao nosso, porque Angola e Moçambique ainda não ratificaram o acordo.