Crítica de música

Flamenco triunfante no Festival de Lisboa

Miguel de Tena
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Miguel de Tena Foto: DR
Juan Manuel Cañizares
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Juan Manuel Cañizares Foto: DR

Festival de Flamenco de Lisboa
16 de Setembro, às 21h30
Marco Alonso trio
3 estrelas em 5
Juan Manuel Cañizares
4 estrelas em 5
17 de Setembro, às 21h30
Miguel de Tena
5 estrelas em 5
Família Vargas
4 estrelas em 5
Lisboa, Teatro Nacional São Carlos
Sala quase cheia nos dois dias

Depois da portentosa abertura a 15 de Setembro, com a mestria densa de Enrique Morente, os dois restantes dias do terceiro Festival de Flamenco de Lisboa mantiveram a oferta bem alta e comprovaram ser esta a melhor de todas as suas edições, a levar por diante a chama que a voz e o gesto de Miguel Poveda deixaram acesa, logo em 2008.

Quinta-feira, 16, foi dia de guitarristas. O trio do português Marco Alonso, que foi aluno do genial Manolo Sanlúcar e hoje é professor em duas escolas (Ibjazz e Jazz do Seixal), abriu a noite com garbo, navegando por águas de fusão sem que o flamenco nelas se afogasse, umas vezes brilhante, outras torrencial embora carente de subtilezas. “Tu Aroma, Tu Sabor”, o seu disco de estreia, serviu de base ao espectáculo. Estiveram com ele Hélder Pereira (guitarra, alaúde e harmónica) e João Branco (percussão) e, no final, os seus muitos fãs presentes na sala cobriram-lhe a retirada com fortes aplausos.

Subtileza é coisa que não falta a Cañizares, subtileza e génio. A apresentação ao vivo de “Cuerdas Del Alma”, o seu recentíssimo disco, começou no São Carlos (onde ele foi classificado pelo director artístico do festival, Francisco Carvajal, como alguém que toca “entre o céu e a terra”) com uma belíssima composição em solo absoluto, plena de expressividade e corpo, silêncios hábeis sem cortes bruscos, uma quase filigrana. Com cinco músicos que já o tinham acompanhado no disco (Juan Carlos Gomez, segunda guitarra; Rafa Villalba, percussão; Íñigo Goldaracena, baixo eléctrico; Ángel Muñoz, baile e cajón; e Charo Espino, baile y castanholas), Cañizares mostrou então as cores plenas dessas cordas da alma, que entre tangos, bulerías, alegrías ou soleás, o levam a cruzar-se com as músicas cubana (a guajira de “Mar caribe”), brasileira ou o jazz. Um grande concerto na noite em que a sala, apesar de muito confortável, menos encheu.

O terceiro e último dia abriu de forma impressionante. Miguel de Tena, nascido em Badajoz há 33 anos, mostrou de forma cabal a razão porque já ganhou 35 primeiros prémios em festivais de flamenco em apenas doze anos de carreira como “cantaor”.

Senhor de uma extensão vocal incrível, que usa com enorme talento, a sua prestação não permite que se retirem olhos e ouvidos do palco nem por um segundo. Miguel de Tena foi, sem dúvida, apesar da genialidade de Morente e Cañizares, a grande revelação deste festival, o seu momento mais febril, emocionante e arrebatador. Se há prova viva de que o “duende” do flamenco vocal está bem desperto nos dias de hoje, ela é Miguel de Tena. Basta ouvi-lo cantar, à beira do palco, sem amplicação, a zambra onde homenageia Manolo Caracol, para nos rendermos em absoluto ao seu “cante” (para quem não esteve no São Carlos há um registo no YouTube, gravado na XXII edição do Festival de Cante Flamenco de Alcaucín, Málaga, basta procurar por “Miguel de Tena – Zambra”). Com apenas três músicos por companhia, dois nas palmas e um muito bom guitarrista, Antonio de Patrocinio (filho), Miguel de Tena percorreu malagueñas, tangos, fandangos e bulerías com um fulgor admirável, fazendo a audiência dedicar-lhe vários “bravo!”.

O encerramento, como anunciado, ficou a cargo da Família Vargas, cujo patriarca, o guitarrista Miguel Vargas, apesar da ascendência espanhola estremenha, nasceu em Beja em 1956 e já conhece muito bem os palcos portugueses. Deixando num patamar à parte a rapsódia instrumental onde quis mostrar que viras, fandangos ou chulas portugueses têm réplicas similares na vizinha Espanha, a prestação do grupo foi no geral digna de aplauso, para o que muito contribuiu a arte dos três “bailaores” presentes, com destaque para Jesús Ortega e Eva Soto, com criações brilhantes no gesto e no sapateado. Foi um feliz e eloquente remate para um Festival que só podemos desejar que se repita.