Ponte para a infância de Josh e Ben Safdie

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Joshua e Ben Safdie fizeram a educação sexual na Queensboro Bridge com o carro do pai imobilizado no trânsito e as bujardas de Howard Stern na rádio. Os nova-iorquinos exasperavam com as filas no único acesso grátis a Manhattan e desenvolveram uma relação de ódio com a ponte. Mas Paul Simon, por exemplo, gostava e fez-lhe uma serenata em andamento : é ouvir "The 59th Street Bridge Song (Feelin'Groovy)" do álbum "Parsley, Sage, Rosemary and Thyme", de Simon & Garfunkel, 1966. Joshua e Ben passaram a infância ali. A entrarem e saírem de Manhattan. Por baixo da Queensboro, um Grand Canyon de asfalto - a Primeira Avenida -, o East River, Roosevelt Island e o subúrbio onde eles viviam, Queens. Por cima, um teleférico vermelho.

Joshua: "Todos aqueles cabos, e no entanto um elemento de leveza. A liberdade que aquelas pessoas que vão no teleférico têm. Como uma espécie de fuga. Tudo parece pesado, e no entanto quando o teleférico levanta...".

Joshua e Ben perguntavam-se quando eram crianças: para onde iam aquelas pessoas?

Passaram 15 anos, o teleférico já não levanta - obras de remodelação só voltam a pôr a funcionar o meio de transporte para Roosevelt Island em Setembro - mas os irmãos contemplam, numa manhã de Junho com temperatura de Agosto, o cenário onde filmaram a sequência final da sua longa-metragem "Vão-me buscar alecrim"/"Go get some rosemary". Contemplam um pedaço da memória, e a verdade é que a sequência do filme experimenta-se como uma epifania.

Quando embarcam no apelo "triunfante" daquela hipótese de fuga de Manhattan, os Safdie estão a referir-se a um momento no filme em que um pai divorciado, Lenny, misto de mágico, aldrabão e disfuncional compulsivo (profissão: projeccionista), encontra finalmente um acordo no seu tempo e no tempo dos seus dois filhos. Como se só a bordo do teleférico, no ar, afastado da terra, os conseguisse raptar ao caos que ele próprio cria. É uma vitória mas também é uma derrota.

Eles são Lenny (Ronald Bronstein) e Sage e Frey (na vida real filhos de Lee Ranaldo dos Sonic Youth) e estão, obviamente, no lugar de Alberto, o pai, e dos irmãos Joshua e Ben. Que são também filhos de um casamento que cedo acabou. O pai não era projeccionista mas filmou obsessivamente a infância dos filhos. Quando lhes quis explicar o que tinha sido a vida familiar, encurtou o discurso e deu-lhes como exemplo a batalha entre Dustin Hoffman e Meryl Streep pela posse do filho em "Kramer contra Kramer", o filme de Robert Benton. E um dia depositou-lhes nas mãos as centenas de horas de imagens deles. Portanto, para Joshua e Ben, a vida vive-se para ser documentada. Portanto o cinema tinha de ser o legado. E tinha de ser biografia.

Sabem que são filhos do trauma. Há anos que os amigos lhes dizem que a sua infância dava um filme e que deviam fazê-lo. Esse pode ser um lugar-comum, mas no caso deles ganha mesmo sinais de vida - cinematográfica.

Quando, em "Vão-me buscar alecrim", filmam Lenny a pôr os filhos "K.O.", a dormir com comprimidos, para os miúdos não se assustarem com a sua ausência porque teve de substituir um colega na cabine de projecção, Joshua e Ben até podiam esperar que os espectadores do filme se dividissem. Mas não esperavam reacções tão "politicamente correctas" de alguma imprensa americana que os vê como vítimas de abuso.

Joshua: "Percebemos que aquela cena podia ser um ponto de viragem, mas estávamos sobretudo preocupados com o que aquilo significava para nós e não para a sociedade americana."

Talvez pressentindo o pudor do jornalista em explicitar a pergunta ("o vosso pai drogava-vos com comprimidos?"), Joshua antecipa-se: "Aquela cena está no lugar de outros dramas que nos aconteceram. Mas a verdade é que a relação das pessoas com a infância é culturalmente grosseira. Pelo menos na sociedade americana. As excessivas precauções repugnam-me. Interessa-me quando as crianças são tratadas como outras pessoas."

Joshua e Ben não (se) olham como vítimas. O que aprenderam com Alberto - e o que os filhos de Lenny provavelmente aprenderão com o pai de "Vão-me buscar alecrim", embora nunca se vá saber como essa história vai acabar... - é que o caos e a disfunção podem ser uma explosão de fantasia. "Vão-me buscar alecrim" começa por parecer um estudo de personagem e de cidade, tem momentos de "screwball comedy" crispada, mas é permeável pelo fantástico e pela ficção científica, como uma energia intrusiva que corrói o edifício por vários lados (há por lá um insecto gigante, como um urso polar se cruzava no "road movie" de uma cleptomaníaca em "The Pleasure of Being Robbed", obra a solo de Joshua, de 2008).

É como um assalto. E quem é assaltado é o espectador, sem possibilidade de se acostumar a um registo, ficando ao sabor angustiante da desordem de Lenny. A necessitar de um momento de descarga, a sequência final no teleférico. O Ípsilon marcou encontro com os Safdie no local do crime, Rua 59, Manhattan. O momento em que uma ficção termina em ascensão foi o início dos Safdie como cineastas tal como os conhecemos hoje, autores de longas, curtas e curtíssimas metragens.

Joshua: "Somos filhos desta personagem, que está dentro de nós. Este filme foi a forma de entendermos que há mais de uma década andamos a estudar o comportamento dele. Mas também somos uma espécie de pai dele. O nosso pai tem hoje 50 anos mas não vamos ter com ele para pedir conselhos. Ele é que vem ter connosco para nos pedir conselhos. A minha mãe e o meu pai já viram o filme. Ele umas oito vezes. Ela, que não vive com ele já há uns 20 anos, não tem memória dele por isso para todos os efeitos, o Lenny do filme é a cara do meu pai. E claro, acha que o filme é uma 'carta de ódio' ao ex-marido. Ele, pelo contrário, acha que os seus defeitos são as suas qualidades. O facto de cada um ver o filme a partir da sua própria realidade faz sentido para nós."

O estudo da personagem continuará, porque a próxima longa que os irmãos estão a escrever, "Uncut gems", passa-se no mundo da indústria da joalharia, "ali para a Rua 47". A escolha pode parecer uma guinada depois de "Vão-me buscar alecrim", mas o cinema continua ancorado no pai: os anos em que ele trabalhou no mundo "obscuro" das jóias.

Joshua: "Benny e eu andávamos a precisar disto, e a única forma de fazermos a catarse da nossa infância, para sabermos como foram os nossos primeiros 11 anos de vida, era ficcioná-la. Há uma razão para os gregos terem inventado o teatro. Recriar apenas a nossa infância não tem interesse, é mais interessante como a vivemos. Por isso, é como quando contamos a alguém um sonho: temos que acrescentar sempre um ponto para tornar a coisa mais interessante."

E os dois olham para os cartazes que anunciam o novo teleférico remodelado que vai surgir em Setembro. Já não vai ser como antes.

Ben: "Este filme mostra pela última vez o teleférico tal como era. Lá vão outra vez dizer que 'Vão-me buscar alecrim' é um filme de época."

O teatro de uma cidade

É verdade que a pergunta surge insistente: em que época se passa "Vão-me buscar alecrim"?. Há quem jure que esta Nova Iorque suja só existiu assim no cinema americano dos anos 70 e que estas personagens, Lenny sobretudo, estão sob influência, como nos filmes de John Cassavetes. Menciona-se o nome e Joshua e Ben ameaçam revirar os olhos. Dizem eles que antes de se falar de Cassavetes tem que se falar de "Ladrões de Bicicletas" de Vittorio de Sica (1948) ou de "Bleak Moments" de Mike Leigh (1971). Mas se calhar nem se deve começar pelo cinema.

Joshua: "Nunca a referência a filmes foi um tema nas nossas conversas. E na verdade não tínhamos visto nenhum filme de John Cassavetes antes de fazermos este."

Ben: "Não é verdade. Tínhamos visto 'Uma Mulher sob Influência'. E não te esqueças que tínhamos um professor na universidade de Boston, Ray Carney, que escreveu um livro sobre Cassavetes e sobre a natureza maníaca das personagens dele. Essa natureza corresponde a um certo modo de vida que tem a ver com Lenny. Mas, se se reparar, Cassavetes estava demoradamente com as suas personagens, até à exaustão, e nós obrigamos o espectador a saltar de situação em situação, quase que o frustrando."

Joshua: "Sim, não é possível sintetizar as coisas no nome Cassavetes. Se tem que se falar de filmes que estiveram antes deste, então temos de falar de 'Milestones' de Robert Kramer [1975]."

O nome de Cassavetes pode parecer incontornável, mas novas visões do filme mudam a forma de engavetar "Vão-me buscar alecrim". Isso e entrar em www.redbucketfilms.com, o sítio em que os irmãos apresentam as várias plataformas do trabalho da sua produtora, Red Bucket Films, que partilham com três amigos e colegas da universidade de Boston. É uma associação de gostos e impulsos individuais mas disponíveis para a solidariedade: quando um deles precisa, os outros põem-se ao serviço do projecto alheio com a função que for necessária. E a experiência com a ficção não se fica só pelos filmes, estende-se aos livros, fanzines e ambiciona chegar ao museu, expondo os objectos que vão coleccionando no seu périplo pelas cidades - como Lisboa, por exemplo, onde estiveram a apresentar o filme no IndieLisboa deste ano e a receber o prémio principal do festival. O "twist" é que nesse mostruário de objectos, histórias e filmes, o verdadeiro está misturado com o falso, o documental com o ficcional.

Mas entre-se em www.redbucketfilms.com, veja-se a série "Buttons", instantâneos, alguns só duram segundos, de Nova Iorque que Joshua e Ben roubam à cidade com as suas câmaras digitais. Ou então as curtas em que Nova Iorque e arredores surgem transfigurados, habitando um tempo que não é imediatamente reconhecível, e entre o burlesco (a presença "keatoniana" de Ben como actor) e o onírico, levando o espectador a querer insistentemente datá-lo. Isto para dizer que, afinal, é menos o cinema e mais a relação com a cidade que está na base daquilo que os Safdie fazem. Temos por isso que confessar que esperávamos encontrar na Rua 59 dois rapazes a verem o mundo avidamente com as suas câmaras digitais, como se só elas provassem que "aquilo" aconteceu, mas afinal quem apareceu foram dois exemplares de uma outra vertigem, proustiana, à moda de Manhattan.

Joshua: "Se nos encontrasse há um ano era assim que nos veria, mas depois começou a tornar-se um problema. Estávamos a viver experiências apenas para as registar, apenas pelo dispositivo. Resolvemos suspender isso. Estamos agora a enveredar por uma abordagem mais interior, de recriação. Mas é verdade que há um ano poucas pessoas andavam com as suas câmaras digitais e hoje é o que toda a gente faz. E, sim, são as coisas que vemos nas ruas de Nova Iorque que estão na origem de algumas das cenas dos nossos filmes." Josh resume: "The theatrics of the city."

Mas então "Vão-me buscar alecrim" é passado ou é presente? Por que é que anda por lá Abel Ferrara (um "cameo") a falar em Bill Withers, singer songwritter dos 70s? É tudo hoje, "agora", mas como Ben se encarrega de explicar, isso também é tudo "passado".

Ben: "Queremos sempre desesperadamente captar o agora, mas nunca conseguimos porque a partir do momento em que o filmamos é sempre passado, estamos sempre a olhar para trás. Mas é um passado lembrado no presente, não é o passado pelo passado. É a memória de coisas que passaram. Pode datar-se a memória? Eu diria que a nossa Nova Iorque é intemporal."

Era disso que falávamos, Proust em Manhattan - Ben fala menos, embora compense o maior voluntarismo dicursivo do irmão com uma disponibilidade no olhar que é transbordante e com uma capacidade de síntese que ilumina o que Josh acabou de dizer; a sintonia, de resto, é de siameses, assim como a pulsão para a pantomima.

Sobre Ferrara e Bill Withers, Joshua explica então que deram ao realizador, tornado aqui actor, uma série de discos que ele era suposto andar a vender na rua, numa sequência do filme. E foi Ferrara que escolheu o singer-songwriter negro dos anos 70 no meio dos discos "modernos" que a produção pôs à sua disposição. Não houve nenhum preciosismo ou calculismo de época.

Ferrara, para Joshua, é uma personagem perfeita para aquilo que ele chama "the theatrics of the city". Conheceu-o, quando tinha 18 anos, de uma forma que deverá ser muito nova-iorquina: Ferrara era vizinho de um amigo dos irmãos Safdie, e do apartamento onde morava muito barulho antecipava invariavelmente "uma porta que se abria e alguém que era atirado pelas escadas abaixo".

"Trabalhei depois numa loja de vídeo e ele era a única pessoa que estava autorizada a levar filmes grátis. Quantas vezes vi depois o Abel na rua à noite, e a chamar por mim [imita a voz rachada de Ferrara]: 'Josh, Josh, dá-me dinheiro.' Ele é o verdadeiro poeta da rua de Nova Iorque. Fazia sentido para nós que numa determinada cena do filme ele entrasse em contacto com Lenny."

Mais "teatro de uma cidade": "Outro dia vi um rapaz na rua com o som muito alto a sair de uma 'boombox' e a dançar e alguém pediu para ele baixar o som e ele respondeu: 'Fuck, I'm taking my city with me'. Esta cidade precisa da anarquia individual. A infelicidade adora companhia. Não quero que Nova Iorque seja um gigantesco Starbucks. Gosto de ter medo das pessoas na rua, se calhar porque isso me distrai dos meus problemas."

E o perigo espreita em Nova Iorque. Não um mosquito gigante não um urso polar, mas o irascível Dirty Harry transportado de São Francisco para Manhattan e disfarçado de papagaio. "Give me your finger and make my day!", mesmo numa esquina de acesso à Queensboro Bridge, é um íman que atrai Joshua e Ben Safdie. Dentro da loja de animais, asas abertas e "hellos" e "goodbyes" papagueados ao melhor estilo rachado de Abel Ferrara.

Isto é "Vão-me buscar alecrim".