O silêncio não assusta Lula Pena

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Cláudia Varejão

Foram precisos mais de onze anos para Lula Pena gravar um novo álbum. Não interessa. A sua voz inquietante e a forma delicada como toca a guitarra acústica estão intactas em "Troubadour"

Foi há onze anos. "Phados", aquele que era até agora o seu único álbum, foi lançado numa editora belga, tendo um ano depois chegado ao mercado português. Era uma desconhecida. Mas rapidamente se percebeu que era um disco de alguém singular. Disse-se que era um disco de fado. Talvez. Não interessa. Eram canções que procuravam a sua expressão essencial, povoadas por uma voz grave e uma linha de melancolia - do fado, sim, mas também da bossa nova brasileira ou da morna de Cabo Verde. 

Seguiu-se um percurso errante. Aparecia em palco, de vez em quando. Toda a gente lhe perguntava: para quando um disco novo? Agora chega "Troubadour", o tal disco, muito esperado. Ao longo de todos estes anos Lula Pena foi compondo canções. Mas o disco agora lançado não é uma repescagem desse material. É outra coisa.

"Durante todos estes anos houve várias tentativas de gravar outro tipo de disco", conta Lula Pena, "mas esta é uma obra totalmente actual." Alguma matéria sonora já existia mas foi transformada "em qualquer coisa de mais poético", acrescenta.

Que vem de dentro

Para Lula Pena, a música funciona como procura. Talvez por isso tenha estado tantos anos sem gravar.

"Ao longo do tempo foram surgindo incompatibilidades com pessoas com quem fui trabalhando, cada uma delas tinha ideias muito diferentes em relação ao que eu punha cá para fora com a voz e a guitarra. Essa intenção artística não era respeitada ou não era valorizada, talvez por ser tão simples."

Ou seja, nesse longo período de tempo, várias foram as tentações de adornar a sua música. Ela resistiu. Parece ter feito bem. "Deturpar o esqueleto da minha música não fazia sentido, pelo contrário, com os anos fui construindo qualquer coisa que reforça a minha postura, a respiração, com mais músculo, voz e guitarra." 

"Troubador", nesse sentido, é um álbum solitário feito por alguém que foi procurando entender qual o seu lugar e chegou à conclusão que criar não poderia ser um acto exterior. "Essa procura, esse jogo, na voz e guitarra, foi muito solitária", explica. "Sempre me remeteu para contextos intimistas. E isso sempre me agradou. Tem que ser uma coisa orgânica. Que vem de dentro."

No princípio existia uma ligação umbilical com o fado. Era uma linguagem vivida de forma visceral. Hoje Lula Pena diz que se sente perto do fado, mas também mais livre. E há elementos de muitas outras linguagens (tango, "chanson", flamenco ou bossa nova) diluídas num cosmos particular, ondulando na superfície da sua guitarra. A maior parte das canções ignora fronteiras, caminham descalças pelo Mediterrâneo, atravessam com leveza o Oceano para o Atlântico Sul, numa mistura de emoções, memórias e tradições.

Ouve-se o seu novo registo e é inevitável pensar-se no silêncio. Na música, como em tudo o resto, há quem o aceite. E quem o receie. Nela, a quietude é estruturante, é aquilo que atribui inteligibilidade ao resto. Quando as palavras saem, parecem ressoar. Não são gritos, mas é como se fossem, assombradas pela quietude. Ao contrário do que parece ser a tentação de tanta gente no fado, e linguagens adjacentes, encher o espaço não é opção. É a depuração que lhe interessa. A suspensão. O que acontece entre as notas.

"Às vezes, ao vivo, estar com as pessoas naquele quase silêncio, é até quase religioso. É uma opção. Talvez seja por isso que gosto mais do 'som da noite.' Ouve-se melhor. Há um lado abismal, talvez. Ouve-se outra coisa no som da guitarra, à noite. Em palco, assisto às pessoas, vejo-as ali, e as pessoas assistem ao que faço. É um pensamento vivo que se cria."

Errância

A música nem sempre foi uma opção para Lula Pena. Antes estudou desenho. No dia em que conseguiu galeria em Barcelona para expor foi assaltada. Levaram-lhe os desenhos. Restava a guitarra. E começou a tocar em vários países da Europa. Bélgica, Holanda, Alemanha, França, Itália. Tocar guitarra, nessa altura, era um prazer pessoal. Não surpreende que subir a um palco, a um nível profissional, não tenha sido fácil. Já depois de ter lançado "Phados" em Portugal, foi o Rei Mohammed V de Marrocos que teve a satisfação de a ouvir, numa altura em que se apresentava com dois músicos em instrumentos de cordas e percussão.

As suas canções estão cheias de memórias. Há alusões. Citações. "Luna tucumana" de Atahualpa Yupanqui, "A noite de meu bem" de Dolores Duran ou "Partido alto" de Chico Buarque. Micro-apontamentos, no meio das canções, facilmente reconhecíveis por todos, incorporadas organicamente. Se fosse hip-hop, poder-se-ia imaginar alguém munido de "sampler" repescando microrganismos sonoros. No seu caso é outra coisa, indefinível.

"São memórias estilhaçadas, reconhecíveis, mas fragmentadas. O jogo é isso. Interessa-me perceber o que a memória faz com isso. Que sinopse vamos fazer para reconstruir essas memórias, no sentido em que toda a reconstrução é uma ficção, uma narrativa pessoal. Mas é também uma forma de comunicação viva, porque há reconhecimento e alusões partilháveis por quase todos."

O disco está dividido em sete actos. Em vez de títulos para as canções, há chaves de leitura, frases, apontamentos. "Não queria fechar as canções", justifica-se, "um título não deve fechar as possibilidades de interpretação, muito pelo contrário, deve abri-las. Foi isso que acabei por ensaiar." Olhando para trás, em especial para "Phados", vislumbra-se um enorme crescimento, traduzido numa técnica à guitarra tão pessoal como a sua voz.

Até agora Lula Pena tem tido um percurso errante, não se preocupando em seguir os procedimentos habituais do universo da música. Agora que lança o segundo álbum será que tal vai suceder? "Sempre quis fazer concertos. A certa altura percebi que sem um disco era difícil fazê-los. Agora espero que seja possível. Isso para mim é o fundamental, porque é ao vivo que o pensamento que está registado neste disco ganha outras dimensões. Há novas cores. Há toda uma nova liberdade."

Hoje, em Lisboa, e amanhã, em Guimarães, vai tentar transpor, "do princípio ao fim", o pensamento que está no disco para o palco. Mas haverá sempre espaço para a improvisação.

"Gosto de deixar em aberto as interferências do contexto em que estou a actuar. Em Lisboa, por exemplo, vai ser ao ar livre. Haverá pássaros, aviões, telemóveis." Talvez até esteja algum músico na plateia que com ela queira tocar. "Estou muito interessada em colaborações", afirma. Tudo isso é possível. Quem já a viu ao vivo sabe que é verdade. Mas são hipóteses. Contingências de um momento que podem ser revertidas para o seu corpo sonoro no momento seguinte. O que haverá de certeza é uma voz e uma guitarra desenhando o silêncio, sem medo dele.