A ascensão e queda do negócios "dot-com"

A bolha da Internet rebentou há dez anos

A queda bolsista não foi uma derrocada completa. Mesmo entre as empresas que tinham negócios exclusivamente online, muitas sobreviveram ao abalo
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A queda bolsista não foi uma derrocada completa. Mesmo entre as empresas que tinham negócios exclusivamente online, muitas sobreviveram ao abalo Scott Olson/Reuters

A bolsa de tecnologia dos EUA atingiu o pico em Março de 2000. Depois, foi a queda. Nos meses que se seguiram, fecharam dezenas de empresas que tinham esbanjado milhões sem retorno. Muitas tornaram-se um exemplo clássico do excesso de entusiasmo dot-com.

Em Junho de 2000, a icónica revista de tecnologia Wired era um exemplo do espírito que se vivia na recta final da bolha tecnológica. A edição tinha exactamente 400 páginas – e mais de metade era publicidade. Os anúncios – a produtos tecnológicos e a marcas de luxo (roupa, carros, relógios) – eram pagos por empresas que desembolsavam milhares para captar a atenção dos entusiastas da tecnologia que estavam entre o público da revista. Longe dos tempos da crise da imprensa, as primeiras 50 páginas dessa edição eram inteiramente preenchidas por anúncios.

A avalancha publicitária ilustra o optimismo do mundo da tecnologia. Mas, em Junho de 2000, já estavam espalhados os receios sobre a viabilidade das muitas firmas dot-com e da economia da Internet, que tinha estado em expansão acelerada desde 1995, com uma valorização bolsista astronómica e rios de capital de risco investidos. A Wired era também espelho destes receios. Lia-se na capa: “Keep Cool. The New Economy Is Hotter Than Ever” – o que se pode traduzir por “Mantenha-se Calmo. A Nova Economia Está Mais Acesa do que Nunca”. E havia boas razões para a revista apelar à tranquilidade.

Pouco tempo antes, a 10 de Março de 2000, o NASDAQ – a bolsa americana onde estão cotadas as empresas tecnológicas – atingira o pico. Nessa sexta-feira, o NASDAQ subiu para mais do dobro do registado um ano antes. Mas, na segunda-feira seguinte, quando os mercados reabriram, a queda começou. A bolha tinha rebentado e as cotações de imensas empresas tecnológicas acabaram o ano a bater no fundo.

Obviamente, perderam-se fortunas. Em alguns casos, porém, eram apenas fortunas de papel, sustentadas na valorização em bolsa. Era dinheiro que nunca esteve de facto nos bolsos dos chamados milionários dot-com, que aos 20 e poucos anos tinham fortunas avaliadas em milhões, mas cujo cartão de crédito chegava a ser rejeitado quando tentavam fazer compras. Aconteceu a pelo menos um “milionário” empreendedor britânico (num episódio descrito pela BBC) não ter conseguido comprar um bilhete de metro com o cartão de crédito.

Grandes falhanços

A queda bolsista não foi uma derrocada completa. Mesmo entre as empresas que tinham negócios exclusivamente online, muitas sobreviveram ao abalo e continuam em funcionamento. A livreira Amazon, o site de leilões eBay ou o sistema de pagamentos online PayPal são alguns exemplos de empresas dot-com que sobreviveram à crise. A Google também foi fundada em 1998, em plena bolha. Com mais dificuldades, o portal Yahoo e a AOL (que foi em 2000 o símbolo do triunfo dos media online e agora está moribunda) continuam a operar.

Foi sobretudo no período de mais entusiasmo da bolha, entre 1999 e 2000, que se registaram mais arranques falhados de empresas. Mark Heesen, presidente da Associação Nacional de Capital de Risco dos EUA, uma entidade que representa as firmas de investimento de risco junto da Administração americana, dá uma justificação simples: apareceram muitas imitações de negócios que já existiam, com financiamento abundante, mas sem hipóteses de conseguirem um lugar no mercado. “É possível ter três ou quatro empresas de Internet a operar num sector. Pode haver algumas a subsistir na periferia dessas. Mas não podemos ter 15 empresas a fazer a mesma coisa”, explicou ao PÚBLICO. “Algumas vão acabar por falhar”.

A venezuelana Carlota Perez, investigadora na Universidade de Cambridge e especialista na dinâmica das bolhas tecnológicas, tem uma visão semelhante: “Explosões de empreendedorismo só podem acontecer durante grandes bolhas tecnológicas. Há demasiado dinheiro a correr atrás de muito poucos bons projectos. Por isso, todos os projectos são aceites, sejam bons ou maus”.

A WebVan, um dos mais conhecidos flops das dot-com, é o exemplo clássico de demasiado dinheiro num mau projecto. A empresa distribuía ao domicílio mercearias encomendadas online. Conseguiu investimento de algumas das mais importantes firmas de capital de risco, bem como do Yahoo. Chegou a valer 1,2 mil milhões de dólares em bolsa. Aceitou pagar mil milhões de dólares só para construir armazéns. Empregava dois mil funcionários. Mas nenhum dos gestores tinha experiência no sector e a WebVan apresentou falência em Junho de 2001, menos de dois anos depois de ter iniciado actividade.

Já o Flooz.com é um exemplo de uma ideia que simplesmente não funcionou. Célebre por ter tido a actriz Whoopi Goldberg como rosto promocional, a empresa pretendia substituir o uso de cartões de crédito, criando uma moeda própria para ser usada na Internet. Era possível comprar dinheiro virtual no Flooz e usá-lo para compras noutros sites. Abriu em Fevereiro de 1999 e faliu em Agosto de 2001.

Outro exemplo clássico de falhanço é o Pets.com, um site que vendia artigos para animais domésticos. Ora, no final do século passado, o entusiasmo dos consumidores pelo comércio electrónico estava longe de ser aquilo que os mais optimistas anteviam (e esta foi, aliás, uma das razões a contribuir para que a bolha rebentasse). A mascote do site (um cão com um microfone numa pata) ganhou imensa popularidade e chegou a ser entrevistada em revistas e a aparecer na televisão. Mas isso não impediu que a empresa fechasse em finais de 2000, menos de um ano depois de ter entrado em bolsa.

Uma segunda bolha?

Recentemente, houve um ressurgir do interesse em empresas de Internet. É a onda da chamada Web 2.0, um termo mais ou menos vago, onde cabem tanto os sites sociais, construídos em torno da partilha de conteúdos gerados por utilizadores (YouTube, Twitter, Facebook), como os sites que permitem fazer online aquilo que antes se fazia com um programa instalado no computador (é o caso do Google Docs, que permite criar e editar ficheiros de texto a partir do "browser").

O entusiasmo em torno das empresas da Web 2.0 pode ser medido em dólares. O YouTube custou à Google 1,65 mil milhões de dólares. Em 2007, a Microsoft comprou 1,6 por cento do Facebook por 240 milhões – tomando esta compra como medida, a rede social valerá uns astronómicos 15 mil milhões. E o Twitter, que não parece ainda ter uma forma sólida de rentabilização, já angariou pelo menos 160 milhões de dólares em capital de risco desde que foi fundado, há quatro anos. A pergunta já surgiu várias vezes: “Estamos a assistir a uma nova bolha tecnológica?”

“Nem pensar”, responde Mark Heesen. “Não há comparação entre o capital investido na bolha [da década de 1990] e o que está a ser investido agora”. Algo que, explica, também se justifica pela recente recessão económica mundial.

Carlota Perez argumenta também que o fenómeno de entusiasmo actual não tem nada a ver com o de há dez anos. E sublinha que é mais fácil as empresas da Web 2.0 serem compradas por uma gigante como a Microsoft ou a Google do que entrarem na bolsa. Mas Perez, que para além de dar aulas é uma conceituada consultora mundial, deixa o aviso: “Há seguramente outra bolha a crescer, mas é no mundo financeiro e pode afundar a economia mundial ainda mais do que o colapso de 2007-08. A tecnologia já não é o objecto preferido de especulação”.