Antigo Cinema Europa em Campo de Ourique vai ser demolido em Fevereiro

Ministério da Cultura e autarquia entenderam que não se justificava a preservação
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Ministério da Cultura e autarquia entenderam que não se justificava a preservação Alexandre Afonso

A demolição do antigo Cinema Europa, em Campo de Ourique, Lisboa, está marcada para o próximo mês. No seu lugar irá nascer um prédio de apartamentos de luxo com piscina e eventualmente um centro cultural. Mas para a criação deste último equipamento a Câmara de Lisboa terá de abrir os cordões à bolsa.

No orçamento participativo 2010, mecanismo que permite aos cidadãos eleger projectos de investimento municipal no valor de cinco milhões de euros, a autarquia comprometeu-se a reservar 690 mil euros para a criação de um equipamento cultural no piso térreo do novo edifício, montante que inclui "a obra e equipamento" e "diversos projectos". O que não está incluído é o valor de aquisição do espaço, com cerca de mil metros quadrados. A câmara recusou, através da assessora de imprensa, adiantar qual o investimento que está disposta a fazer e quando, garantindo apenas que "vai comprar o espaço".

Junto de algumas empresas de mediação imobiliária a operar na zona de Campo de Ourique, o PÚBLICO apurou que o preço por metro quadrado para espaços comerciais novos pode alcançar os 2500 a 3000 euros, o que poderia obrigar o município a gastar entre 2,5 e três milhões de euros. Porém, tudo depende do valor de referência do metro quadrado.

Outra possibilidade adiantada pelos proprietários do Cinema Europa é a realização de uma permuta. Certo é que, se as negociações fracassarem, o rés-do-chão do edifício será para comércio, explica o autor do projecto, o arquitecto Júlio Quaresma. As únicas coisas que irão ser preservadas no antigo cinema serão o alto-relevo da fachada e os vitrais no interior.

A demolição não é um assunto pacífico. O arquitecto João Rodeia, especialista em arquitectura do séc. XX, lamenta o desaparecimento deste exemplar do período moderno. Originalmente erguido nos anos 30, este cinema de bairro foi redesenhado por Antero Ferreira em 1958 e faz parte do inventário da arquitectura moderna portuguesa do Instituto Português do Património Arquitectónico (Ippar, agora designado por Igespar). Mas nunca foi classificado por este organismo, o que significa que não tem nenhum grau de protecção.

"Se for demolido, é uma perda para a cidade e para Campo de Ourique", diz João Rodeia, ex-presidente do Ippar e actual bastonário dos arquitectos. Foram as autoridades a ditar a sentença de morte do edifício, que se encontra sem uso há perto de uma década: quer o Ministério da Cultura, quer a autarquia acharam que não valia a pena obrigar os seus proprietários a preservá-lo. O movimento cívico que há cinco anos lutou pela sua reabilitação acabou por se contentar com a promessa do centro cultural. E o presidente da Junta de Freguesia do Santo Condestável, Pedro Cegonho, também não se mostra impressionado com o abate: "É natural que haja um sentimento de perda. Mas gosto de olhar em frente. O que me importa é que o equipamento cultural se faça".